Opinião
Empatia vs (ciber)bullying no contexto escolar: onde está o nosso foco?
Ivone Patrão
Psicóloga clínica e da saúde. Docente universitária Ispa-IU
Mais empatia, menos (ciber) bullying é igual a quê? É igual a um desenvolvimento infantil e juvenil mais saudável.
Este é um dos “problemas matemáticos” que as crianças e os jovens experimentam todos os dias. Onde? Na escola, por ser o local onde passam mais tempo de interação uns com os outros. E qual é a solução? Em qualquer livro escolar, no final, encontramos as soluções que servem para verificar se resolvemos o problema de forma eficaz.
Na violência em contexto escolar não podemos colocar só o foco no comportamento agressivo. Não podemos ficar pelos mitos de que “as crianças não passam por situações repetidas de agressividade (por exemplo, física, psicológica, verbal), só os jovens”, e assim só nos focarmos nos jovens. Nem podemos ficar pelas “soluções no papel”, e que só tenham um olhar de ajuda para a vítima.
O nosso foco pode estar antes do comportamento inadequado, e pode estar em todos os intervenientes (vítimas, agressores, observadores). Precisamos de estimular: os vínculos seguros e positivos, a empatia, e o autocontrolo do comportamento.
É um mito que as crianças não passam por violência repetida. As crianças e os jovens podem ser vítimas de bullying e, no seu prolongamento, de ciberbulying, quando já têm acesso às redes sociais. Também podem ser agressores ou observadores de situações de violência repetida offline e/ou online. De igual forma, uma criança ou um jovem pode ser simultaneamente vítima e agressor, em situações diferentes.
O bullying (e também o ciberbullying) corresponde a um comportamento agressivo e intencional mantido ao longo do tempo numa relação, associado a um desequilíbrio de poder – online ou offline, considerado como uma das experiências mais traumáticas em idade escolar.

Ivone Patrão
A empatia é uma ferramenta muito poderosa ao serviço da interação com o outro, para a compreensão do outro, que espelha a forma como estamos a aprender a socializar, a estar em grupo e a pertencer a esse grupo. É saber colocar-se no lugar do outro e compreendê-lo. É uma forma de perceber que não se repetem reações que não gostaríamos de receber dos outros.
Não nascemos a saber quem somos. Não nascemos empáticos. Não nascemos bullies.
Se há um caminho de relação que começa na vinculação “mãe-bebé”, então há um caminho de aprendizagem do que eu sou, de como me apresento aos outros e de como me relaciono com o mundo. Há um caminho para desenvolver a linguagem e a posição do nosso corpo na interação social. Há, por isso, um espaço e tempo de treino do afeto, da comunicação, da interação, do dar e do receber.
É importante colocarmos o foco na promoção da regulação das emoções e dos comportamentos. É importante que os modelos educativos sejam isso mesmo, modelos
positivos de empatia e de autorregulação.
Vamos conseguir prevenir a violência em contexto escolar, que, muitas vezes, pelo carácter repetitivo e intencional, passa a bullying e a ciberbullying, de uma semana para a outra, se apostarmos na valorização de comportamentos positivos, não deixando de lado um olhar sobre os antecedentes dos comportamentos inadequados – estes antecedentes têm na sua essência dificuldades no desenvolvimento de competências socio-emocionais e de autocontrolo do comportamento.
No final, a solução para o “problema matemático” passa por somar competências que ajudem a subtrair a violência, para que não se torne repetitiva e não constitua uma ameaça para o desenvolvimento saudável das crianças e dos jovens.
Nota: Este artigo de opinião foi escrito para a edição Especial 25.º Congresso Nacional de Pediatria do Jornal Médico.


