«Enfermeiros do setor social: uma dualidade sem critérios»


Luís Filipe Barreira

Bastonário da Ordem dos Enfermeiros



Portugal mantém atualmente um dos índices de envelhecimento mais elevados da União Europeia, com um aumento consistente da população com mais de 80 anos e uma elevada prevalência de doença crónica. O setor social tornou-se, por isso, uma componente estrutural da resposta assistencial do país.   

Os enfermeiros que nele exercem funções são determinantes para garantir continuidade de cuidados, prevenção de complicações, gestão terapêutica e acompanhamento clínico regular. No entanto, as condições laborais dos enfermeiros do setor social colocam-nos em clara desvantagem face aos seus pares que trabalham nos setores público e privado, o que tem alimentado um sentimento de desvalorização profissional.

Estas discrepâncias entre setores acarretam consequências óbvias, desde logo a perda de atratividade do setor social e a dificuldade de retenção de enfermeiros. Menores perspetivas de progressão na carreira, fraco reconhecimento profissional e salarial, carreiras estagnadas e um volume elevado de trabalho constituem fatores decisivos para que os enfermeiros optem por abandonar o setor social.

Paradoxalmente, trata-se de um setor onde a necessidade de cuidados de enfermagem é cada vez maior, em consequência do envelhecimento da população e do aumento da prevalência de doença crónica.


Luís Filipe Barreira

Movida pelo objetivo de conhecer a realidade atual da enfermagem no setor social, a Ordem dos Enfermeiros decidiu promover, ao longo do mês de março, o Fórum de Enfermeiros do Setor Social.

Este ciclo nacional de encontros presenciais dirige-se aos enfermeiros que exercem neste setor, nomeadamente em ERPI, unidades da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) e serviços de apoio domiciliário, entre outras respostas sociais.

A iniciativa, que irá decorrer em Lisboa, Porto, Coimbra, Funchal e Ponta Delgada, pretende identificar constrangimentos estruturais, recolher contributos diretamente dos profissionais e mapear necessidades concretas que condicionam o exercício da enfermagem nestes contextos. Os contributos recolhidos servirão de base à formulação de propostas concretas e sustentadas para o desenvolvimento da enfermagem no setor social.



Garantir condições equitativas para profissionais com iguais competências não é apenas uma questão laboral; é uma condição essencial para assegurar a continuidade, a qualidade e a segurança dos cuidados prestados às populações mais frágeis.

Ignorar esta dualidade é comprometer a capacidade de resposta do sistema no seu todo. Reconhecê-la e corrigi-la é um passo necessário para um setor social mais justo, mais robusto e mais preparado para os desafios demográficos e de saúde que o país enfrenta.


Nota: Este artigo de opinião foi escrito para a edição de março 2026 do Jornal Médico, no âmbito da colaboração bimestral de Luís Filipe Barreira.

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