Feridas e úlceras são o principal problema dos doentes apoiados em Chaves

O tratamento de feridas consome uma parte significativa dos recursos humanos e materiais das ECCI das UCC Chaves 1 e Chaves 2. “As úlceras de pressão, úlceras de perna venosas, úlceras arteriais e outras que resultam de complicações tardias da diabetes são as mais frequentes”, refere o enfermeiro João Luís Pereira, coordenador da ECCI da UCC Chaves 1.

No caso da ECCI da UCC Chaves 2, a sua coordenadora, Maria José Portela, salienta também as feridas relacionadas com doenças crónicas, assim como as de alteração da funcionalidade e alguns casos do foro oncológico.

Quanto à realidade atual de cada equipa, a ECCI da UCC Chaves 1 dá resposta a 20 utentes numa área aproximada de 400 km2 do concelho e a ECCI da UCC Chaves 2 apoia uma zona de 200 km2, tendo uma taxa de ocupação de 80,85% (menos de 20 doentes). De realçar que as duas ECCI acompanham doentes muito idosos – sente-se bastante a problemática do aumento do envelhecimento nos últimos anos –, as pessoas vivem em regiões muito frias e, por vezes, distantes, e num contexto socioeconómico complexo.

Ambos os coordenadores concordam que as feridas são as situações clínicas, no âmbito dos cuidados domiciliários, que mais implicam “custos elevados para os utentes, famílias e sociedade”. Esta é uma realidade sentida todos os dias pelas duas equipas, que apoiam doentes acamados que necessitam de muitos cuidados, “nomeadamente, tratamentos mais complexos e diários, nos processos adaptativos”.

“Os enfermeiros, que são o pivô de uma equipa que é obrigatoriamente multidisciplinar, contribuem para a integração do utente com mais dependências no seio familiar, mas também dotam os cuidadores de competências e habilidades, para que o doente possa ter mais qualidade de vida”, como menciona João Luís Pereira.

A formação do cuidador é, de facto, um dos pontos essenciais na intervenção dos cuidados domiciliários. O enfermeiro da ECCI da UCC Chaves 1 reforça que “os profissionais que trabalham nesta área têm a sua razão de ser encontrada na família, procurando, acima de tudo, melhorar a qualidade de vida de quem está dependente.”



Maria José Portela, da UCC Chaves 2, concorda: “Não é fácil para o cuidador, por isso, na nossa ECCI, temos sempre o telemóvel ligado, para situações mais emergentes e para esclarecer determinadas dúvidas.”

Independentemente da doença que levou a pessoa a ficar acamada, nas ECCI, é preciso ter sempre uma visão holística. “A equipa é multidisciplinar precisamente por essa razão, porque é preciso perceber que outros problemas podem pôr em causa o tratamento e a aquisição da maior autonomia possível, para se poder dar alta”, observa Maria José Portela.

E acrescenta: “A situação económico-financeira tem de ser trabalhada pela assistente social, as situações de ansiedade, depressão e stress pelo psicólogo e as necessidades nutricionais pelos nutricionistas.” João Luís Pereira refere mesmo que o sucesso das equipas domiciliárias só é possível se se vir o utente “de um ponto de vista holístico, como um ser biopsicossocial, de forma a que cada profissional dê apoio a todos os problemas multifatoriais.”

No controlo das feridas, tanto a ECCI Chaves 1 como a Chaves 2 apostam em aportes dietéticos para facilitar a cicatrização. “É conhecida, há muito tempo, a importância destes produtos em caso de feridas e quando existem alterações no estado nutricional. Hoje em dia, a Nutrição tem vindo cada vez mais a revelar-se uma pedra basilar na cicatrização das feridas”, salienta João Luís Pereira.

Na sua equipa, a ECCI Chaves 1, tem-se conseguido uma “elevada taxa” de sucesso na cicatrização. “Estes resultados assentam, sobretudo, numa abordagem e intervenção multidisciplinar, no uso de meios adequados para o alívio de pressão, na correção de défices nutricionais, no uso de materiais de penso adequados e na preparação e capacitação dos cuidadores.”

Na ECCI Chaves 2, Maria José Portela alerta, por sua vez, que “nem todas as situações são superadas com os melhores resultados, porque a cicatrização depende de diferentes fatores, uns controláveis, outros não.” Afinal, as equipas estão motivadas e são competentes, mas nem sempre têm as condições de trabalho mais aconselháveis, como salienta a responsável.



“Existem muitos cuidadores exaustos - a maioria são idosos a cuidar de idosos -, sem suporte social e emocional, e os recursos da comunidade são insuficientes para as necessidades identificadas, como a higiene pessoal, os posicionamentos, as transferências, a alimentação, a limpeza da casa, o tratamento de roupas, com flexibilidade de horários ajustados às necessidades individuais de cada doente/família.”

É, assim, preciso apostar mais nos cuidados domiciliários, para que mais pessoas recebam cuidados em casa, junto dos familiares, e de forma “humana e digna”.

Apesar das barreiras que se possam vir a sentir no terreno, tanto João Luís Pereira como Maria José Portela acreditam que o seu papel é essencial para doentes e familiares, marcando-os, de forma especial, “a quantidade e a riqueza das histórias de doentes e familiares e a sua resiliência e capacidade de se transcenderem perante situações adversas”.

Os desafios futuros das duas ECCI passam por “continuar a garantir a continuidade e a qualidade de cuidados de saúde e o apoio social ao utente dependente/família/cuidador, no seu domicílio, através de ações de âmbito preventivo, curativo, reabilitação e paliativo”.



Artigo publicado no Jornal Médico de dezembro.

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