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Opinião

«Obesidade e doença pulmonar: DPOC, o paradoxo do peso»


Ana Raquel Freitas

Assistente hospitalar de Medicina Interna



A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) é uma das 3 principais causas de mortalidade em todo o mundo, uma causa major de morbilidade crónica e um importante problema de saúde pública, potencialmente prevenível e tratável. Na maioria dos doentes, associa-se a outras doenças crónicas, que contribuem para o aumento da morbimortalidade.

A associação positiva entre excesso de peso/obesidade e mortalidade cardiovascular e por todas as causas está bem estabelecida. No entanto, estar acima do peso ou ser obeso tem sido associado a um melhor prognóstico em indivíduos portadores de algumas doenças crónicas.

O termo “Obesity Paradox” surgiu, pela primeira vez, em 2002 (Gruberg et al.), quando se verificou um maior risco de complicações e mortalidade em doentes com doença arterial coronária submetidos a revascularização percutânea que estavam abaixo do peso, ou mesmo que apresentavam Índice de Massa Corporal (IMC) normal. Posteriormente, foram realizados vários estudos para avaliar o impacto da obesidade em outras doenças crónicas.

Especificamente na DPOC, tem-se demonstrado uma associação inversa entre IMC e mortalidade; este “paradoxo” é mais evidente em indivíduos com obstrução brônquica grave (volume expiratório forçado no 1.º segundo mais baixo), enquanto em condições leves-moderadas a mortalidade relacionada ao peso apresenta um comportamento semelhante ao observado na população geral. A diminuição do peso corporal por si só, independentemente do IMC, é também identificada como um fator de mau prognóstico nos doentes com DPOC.

O estado nutricional nos doentes com DPOC está comummente associado à desnutrição, fruto de vários mecanismos próprios da doença. Entre as causas da desnutrição e caquexia no doente com DPOC estão a
diminuição do apetite, dispneia para o ato alimentar, aumento da taxa de degradação da proteína muscular, ingestão de corticosteroides sistémicos que levam a depleção de massa muscular, diminuição da capacidade para a realização de atividade física, aumento do trabalho dos músculos respiratórios pela anormal mecânica ventilatória, internamentos frequentes associados a exacerbações agudas e, finalmente, o efeito da inflamação sistémica crónica. A ineficiência mecânica e metabólica e a inflamação sistémica são determinantes de um estado hipermetabólico, não equilibrado pela ingestão dietética.


Ana Raquel Freitas

Apesar de demonstrado o paradoxo do peso na DPOC, a relação entre peso corporal e risco de mortalidade não é unidirecional. A obesidade é relativamente comum entre indivíduos com DPOC, com uma prevalência de 20 a 35%. Também a prevalência média geral de síndrome metabólica em doentes com DPOC é elevada (cerca de 34%).

Então, enquanto analisamos que a presença de obesidade demonstrou trazer uma vantagem de sobrevivência em doentes com DPOC mais grave, nos estágios iniciais da doença, a inflamação sistémica de baixo grau relacionada com a presença de obesidade visceral, provavelmente, representa um dos principais fatores que contribuem para o aumento do risco de comorbilidades e complicações cardiovasculares nestes doentes. Além disso, a obesidade extrema (IMC > 40 Kg/m2) foi significativamente associada ao aumento da mortalidade por complicações respiratórias em doentes com DPOC.

Tal como o tratamento da patologia de base, também o das complicações nutricionais associadas é fundamental para atrasar a progressão da doença e melhorar a qualidade de vida do doente. As diretrizes nutricionais atuais para o tratamento de doentes com DPOC não fornecem nenhuma orientação específica, exceto no sentido de evitar a perda de peso.

Assim, será consensual o benefício da avaliação e apoio nutricional para manter ou aumentar a disponibilidade de energia e promover a síntese de proteína muscular em doentes com DPOC que apresentam baixo peso.

Contudo, mais estudos são necessários para entender o possível papel protetor do excesso de peso, para melhor adequar a intervenção nutricional. É necessário perceber se há ganhos efetivos em ganhar peso e se isso pode modificar a morbilidade e mortalidade da DPOC.

No que respeita ao tratamento da obesidade, este baseia-se nas modificações do estilo de vida, que englobam a intervenção nutricional e a modificação comportamental, com vista ao balanço energético negativo.

A intervenção farmacológica está recomendada principalmente para situações de IMC ≥ 30 Kg/m2 ou IMC ≥ 27 Kg/m2 associado a comorbilidades, sem resposta adequada às modificações do estilo de vida e sempre como adjuvante destas. Por fim, a abordagem cirúrgica do doente obeso será uma opção a considerar em casos selecionados.

Dadas as especificidades da DPOC, é imprescindível atingir e manter um adequado estado nutricional do doente capaz de contrariar as alterações fisiológicas, fruto do curso da doença. A intervenção terapêutica deve ser adaptada à condição do doente, bem como às suas necessidades nutricionais específicas.



O artigo pode ser lido na LIVE Medicina Interna de maio/agosto 2022.

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