«Os clínicos transformaram-se em engenheiros da Medicina, ou em economistas da Saúde»

Como quem escreve uma carta a um filho ou a um neto, num modelo propositadamente intimista, que se estende por mais de 300 páginas, o livro Ser Médico, do cardiologista Carlos Ribeiro, alerta os jovens médicos para as dificuldades que vão encontrar no desempenho da profissão e pede, veementemente, que se lembrem que o mais importante de tudo é o doente.

O livro é dedicado aos estudantes de Medicina e aos jovens médicos, mas pretende-se que interesse a todos. Tem alertas, conselhos e pequenas críticas, mas a intenção nunca foi fazer ciência ou política. “Ser Médico – Cartas aos Jovens Médicos” é, antes de mais, a defesa da “reimplantação do humanismo no ato médico”, explica o autor.

“O objetivo desta publicação é fundamentalmente pugnar com veemência para que os jovens clínicos coloquem os doentes no centro das preocupações”, afirma Carlos Ribeiro nas primeiras páginas de um livro onde faz “a defesa do médico de família como maestro do Serviço Nacional de Saúde” e lembra que, em caso algum, os meios auxiliares ou complementares de diagnóstico “podem ser eleitos como o primeiro desígnio do ato médico”.

Em entrevista à Just News, o cardiologista clarifica ainda que não foi sua intenção deixar uma visão desencantada da Medicina atual, mas sim chamar a atenção para os paradoxos que enxameiam a prática clínica e para o risco que os profissionais correm quando se entusiasmam em demasia com as técnicas que podem resolver a doença.

“A doença pode não ser o único problema do doente. A Medicina atual praticada no SNS é ótima para as doenças graves, mas não é realizada atempadamente para as chamadas minudências, como as cataratas, as hérnias, as varizes ou as cáries dentárias. Pode resolver a doença, mas arrisca-se a perder o doente. Quando este não sente apoio, recorre à medicina alternativa, vai à bruxa”, argumenta. A seu ver, é preciso ouvir o doente e perceber todo o contexto que o envolve.



A necessidade de criar o “médico novo”

A obra pretende ser ainda um alerta para os que hoje fazem a gestão da Medicina e um estímulo “na procura de consensos entre os diversos setores responsáveis pela saúde em Portugal”. Isto porque “a relação médico-doente atingiu um índice de qualidade que não agrada a qualquer uma das partes”. A imagem que fica é a de que “os clínicos transformaram-se  em engenheiros da Medicina ou em economistas da Saúde”.

Para Carlos Ribeiro, “a consulta médica passou a ser considerada um serviço a que se atribui um tempo de duração, um preço e um valor estatístico”. O médico, por seu lado, “é obrigado a responder mais às exigências do gestor do que às interrogações do doente”. Ou seja, o médico dialoga mais com o computador do que com o doente, pelo que é necessário criar o “médico novo”, “reestruturar o modus faciendi do ato médico”.

Mas o paradoxo do atual Serviço Nacional de Saúde, que resolve os problemas mais complexos e é ineficiente nos mais simples, não é único. Carlos Ribeiro aponta outros:

“Há falta de médicos de família, contudo, os existentes ainda são ocupados com tarefas adicionais no computador, a gerir listas de espera, a serem simpáticos ocultadores das realidades, ou solicitadores de improvisações a montante nos hospitais…”

Refere ainda que, da Medicina liberal de meados do século passado - de "responsabilidade única e inatacável do clínico, sem o indispensável e desejável controlo técnico - passou-se para um policiamento feroz, que obriga à uniformização, temporização, programação e regulamentação do ato médico”.

Na sua opinião, torna-se necessário encontrar pontos de equilíbrio, desfazer os paradoxos e pedir aos jovens médicos para que “não deixem que a tempestade que se aproxima destrua os seus sonhos de acesso a um exercício profissional digno”, nem “a visão poética que tinham quando escolheram esta profissão”.

E sublinha que, ao longo das cartas que compõem o livro, procurou manter-se fiel ao pensamento de Agostinho da Silva, quando o filósofo, poeta e ensaísta afirmava que todo o homem era diferente dele, único no universo e que, por isso, não seria ele a refletir, a pensar e a escolher caminhos por ninguém, mas que tinha o direito e o dever de o ajudar a ser ele próprio, a procurar “Ser mais do que Ter, mais Dar que Receber”.



100 mil atos médicos

Carlos Ribeiro é um homem apaixonado pela Medicina. Uma paixão que o mantém na profissão aos 89 anos. Mas o médico e professor catedrático jubilado da Faculdade de Medicina de Lisboa – casado, com sete filhos e 16 netos – tem outros interesses: a literatura, a história, a filosofia e a pintura.

Segue não só a máxima de Abel Salazar, que diz que “O Médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe”, como a dos ingleses, que defendem a lifelong learning. É por isso que ainda estuda todos os dias, apesar de um saber acumulado e alicerçado por mais de 100 mil atos médicos. “Quem não estuda para no tempo”, argumenta.

Foi a admiração e o respeito que sentia pelo clínico, investigador e professor Arsénio Cordeiro que o levou a enveredar pela especialidade de Cardiologia, depois de ter concluído a licenciatura, em 1951. Ainda hoje conserva uma fotografia do seu mestre na secretária do consultório. Mais tarde, viria a ser diretor da Unidade de Tratamento Intensivo para Coronários (UTIC) no Hospital de Santa Maria, criado e liderado por Arsénio Cordeiro.

Antes disso, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e vice-presidente da Sociedade Europeia de Cardiologia. Depois da UTIC, foi bastonário da Ordem dos Médicos e membro da Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida e do Conselho Económico e Social da União Europeia. Condecorado e homenageado em diversas ocasiões, integra várias sociedades científicas nacionais e internacionais e tem mais de três centenas de trabalhos científicos publicados.




Artigo publicado na LIVE Cardiovascular.

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