Serviço de Endocrinologia do Hospital Garcia de Orta: 24 anos de ligação aos CSP

Há 24 anos, Jorge Portugal e Luísa Raimundo davam início ao Serviço de Endocrinologia do Hospital Garcia de Orta, em Almada. “Na altura, deparámo-nos com muitas primeiras consultas desta especialidade, tornando-se muito complicado dar resposta a todas”, relembra Jorge Portugal, diretor do Serviço de Endocrinologia do HGO.

Ao longo dos anos, a equipa foi crescendo, contra as limitações existentes nos primeiros tempos. “É natural que assim fosse, porque não existia a especialidade no Hospital”, salienta Luísa Raimundo.

Atualmente, o Serviço tem várias áreas, para além das consultas de Endocrinologia e de Diabetologia do Adulto, como consultadoria nas USF e UCSP da área de influência do Hospital; a Consulta de Hipertiroidismo com Iodo Radioativo, em articulação com o Serviço de Medicina Nuclear; Citologia Ecoguiada da Tiroide; Consulta de Oncologia Tiroideia; Consulta de Diabetologia/Grávidas; Consulta de Endocrinologia Pediátrica; Centro de Tratamento de Perfusão Subcutânea de Insulina na Idade Adulta e em Idade Pediátrica.

É também considerado, como refere Jorge Portugal, “um serviço de referência no tratamento de doenças hipotálamo-hipofisárias". Há ainda a realçar a estreita relação com o CIRMA (Centro de Infertilidade e Reprodução Medicamente Assistida) na avaliação endócrina dos doentes com distúrbios da fertilidade.



O Serviço de Endocrinologia do HGO é composto por seis especialistas com experiência em adultos, quatro dos quais realizam também atividade na área da Endocrinologia Pediátrica. Fazem ainda parte do Serviço três internos de especialidade e enfermeiros da Consulta Externa e do Internamento, além de se contar com o trabalho de dietistas do Departamento de Dietética. A atividade assistencial do Serviço divide-se pela Consulta Externa, Internamento de Endocrinologia, Hospital de Dia e Serviço de Urgência (apoio ao Serviço – adultos e pediatria e internamento de outras especialidades).

Ligação aos CSP acontece desde o início

A ligação à MGF é também um dos grandes marcos desde os primeiros tempos. Jorge Portugal relembra que “uma das razões para o elevado número de primeiras consultas se deveu à falta de formação nos CSP, que levava a referenciações menos corretas”. Uma situação que se alterou, rapidamente, com o início de formações dadas aos colegas da MGF e à possibilidade de estes realizarem estágios no Serviço.

“Desta forma, foi possível diminuir a lista de espera, mas também estabelecer um contacto muito profícuo com os profissionais dos CSP, que tem sido uma mais-valia ao longo destes anos”, segundo Jorge Portugal. E acrescenta: “Hoje em dia, continuamos a trabalhar em conjunto, temos ótimos profissionais nos CSP, com formação em Endocrinologia.”

Uma forma de manter o contacto permanente com os CSP foi destacar para cada unidade de saúde um médico especialista, que aí se desloca mensalmente. “O objetivo é efetuar uma triagem eficaz dos casos clínicos apresentados pelos colegas de MGF, a fim de se conseguir diminuir o tempo de espera de consulta e avaliar os casos de acordo com a gravidade clínica”, explica o diretor do Serviço.

Mais recentemente, após o despacho da Direção-Geral da Saúde (DGS) de 2013, esta interligação entre o Serviço e os CSP foi reforçada com a criação da Unidade Coordenadora Funcional da Diabetes (UCDF). “É mais uma forma de se poder prestar os melhores cuidados aos doentes, principalmente numa doença que está a crescer e que leva a tantas comorbilidades, que podem ser prevenidas e/ou minimizadas com uma boa ligação entre o médico de família e o endocrinologista.”



Defender a Endocrinologia “como uma especialidade independente da Medicina Interna”

O “nascimento” do Serviço no HGO foi também uma forma de mostrar as mais-valias da especialidade, como indica Luísa Raimundo. “Foi um enorme desafio fazer entender que a Endocrinologia tem uma enorme importância num hospital e que deve ser uma especialidade independente da Medicina Interna.”

Para a especialista, “foi necessário definir a sua identidade, tendo em conta que os problemas de saúde abrangidos pela Endocrinologia não estão muito ligados às urgências, mas ao ambulatório”.

A noção da importância da especialidade foi crescendo e, atualmente, é um Serviço com idoneidade formativa que recebe muitos internos “de excelente qualidade”, como frisa Luísa Raimundo. Jorge Portugal também está satisfeito com os internos e é com grande entusiasmo que vê a evolução de um Serviço “que começou do nada e que passou a ser uma referência, nomeadamente para quem está em início de carreira”.

Luísa Raimundo só tem pena que “se tenham perdido tantos destes jovens, nos últimos tempos, pois, os concursos não permitem que o nosso Serviço fique com os internos que ajudámos a formar e que já estavam tão bem integrados na cultura do HGO”.

Quanto ao futuro, a endocrinologista vê-o com alguma incerteza, por causa da saída dos internos. Jorge Portugal, por sua vez, está confiante, “porque a equipa está bem preparada”.

Enfermeiros enfrentam desafios de população multiétnica

Isabel Simões é enfermeira na Consulta Externa da Diabetes no HGO desde 2007. Há oito anos que também integra a equipa da Endocrinologia, dando assistência a uma área “muito sensível como é a Diabetologia”.

“Ao todo, somos nove enfermeiras, mas apenas três têm dedicação exclusiva. É um trabalho muito desafiante, pois, não ficamos apenas pela avaliação de dados antropométricos ou pela comparação dos registos de glicemia no livro com os do glicómetro.”

A enfermeira realça o papel importante que a Enfermagem tem na educação para a saúde: “Tenta-se sempre levar o doente a aderir à terapêutica, a elogiá-lo quando faz bem, a alertá-lo para o que não faz tão bem, e para dar atenção aos alimentos, aos cuidados com os pés, entre outros aspetos essenciais para um bom controlo da doença.”

Uma tarefa desafiante, tendo em conta que o Serviço abrange uma população muito vasta, multiétnica e com condições socioeconómicas que nem sempre são as mais favoráveis. “Há doentes que não têm dinheiro para os medicamentos, nem para fazer uma boa alimentação”, lamenta.

O idioma e as diferenças culturais também são outros dois pontos marcantes para quem faz a Consulta Externa de Diabetes do Serviço de Endocrinologia do HGO. “Temos pessoas dos mais variados países, com costumes alimentares e de estilos de vida diferentes e que nem sempre falam (bem) o Português. “Há quem venha acompanhado à consulta, para que se lhe possa traduzir o que vamos dizendo. Mas isso nem sempre é possível e a maneira que temos de dar a volta à situação é recorrer aos gestos e a quem no Serviço fale Inglês ou Francês.”

Para os enfermeiros, são situações “delicadas, que exigem um grande esforço mental para se saber se a pessoa entendeu a mensagem”. Nada que não se ultrapasse com boa vontade. Isabel Simões relembra um caso particular de um casal surdo-mudo. “Neste caso, não se trata de questão de cultura, mas também é preciso adaptar-nos. Com gestos e falando muito devagar, olhos nos olhos, conseguimos passar a mensagem e as coisas têm corrido bem.”

Olhando para o futuro, Isabel Simões espera que não haja uma redução no número de enfermeiros e que se continue a apostar na formação. Esperando muitos mais 24 anos, todos os membros da equipa do Serviço de Endocrinologia do HGO acreditam que o caminho vai passar inevitavelmente pela ligação do Serviço aos CSP e pela luta diária para se fazer um trabalho de qualidade.




A reportagem foi publicada no Jornal das 10as Jornadas de Endocrinologia e Diabetes do HGO, editado pela Just News e distribuído aos participantes da reunião.

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