USF Serra da Lousã: Uma aposta na qualificação da referenciação clínica e na felicidade e bem-estar dos seus profissionais

A qualificação da referenciação clínica, que implica a discussão dos casos clínicos em equipa e com um consultor hospitalar, e a felicidade e bem-estar dos profissionais são duas das apostas da USF Serra da Lousã. João Rodrigues é o coordenador e realça a importância destas duas vertentes, que contribuem para prestar melhores cuidados aos utentes e para ter profissionais satisfeitos e empenhados.

“Na nossa USF, nenhum médico referencia um doente para o hospital sem discutir o caso com os colegas, na reunião semanal. Esta é uma das vertentes mais importantes da governação clínica nos CSP.” Quem o afirma é João Rodrigues, coordenador da USF Serra da Lousã, distrito de Coimbra, e que, atualmente, também preside à Associação Nacional das USF (USF – AN). O objetivo é debater os casos clínicos em equipa, “o que vai permitir referenciar apenas quando é necessário e otimizar o conhecimento dos profissionais de saúde”. É o que, segundo João Rodrigues, se chama a qualificação da referenciação clínica.

A USF Serra da Lousã iniciou a atividade em 19 de novembro de 2007 e passou a modelo B em 1 de outubro de 2008. Está integrada no Centro de Saúde da Lousã e no ACES Pinhal Interior Norte, dando acompanhamento a 9759 utentes, dos quais 19,36% são idosos (9,48% têm 75 anos ou mais). A área de atuação engloba quatro freguesias do concelho: Lousã (União de Freguesias de Vilarinho) e Casal de Ermio, Gândaras e Serpins (União das Freguesias Foz de Arouce). A população ativa corresponde a 59,98% dos inscritos, o índice de envelhecimento é de 116,60% e 26,43% são mulheres em idade fértil.

Inicialmente, esta USF estava situada no centro da vila, mas, como o edifício pertencia à Santa Casa da Misericórdia, mudou de local. Nem todos os utentes estão satisfeitos com essa mudança, contudo, isso não impede que continuem a achar que são “muito bem atendidos”.



Referenciar apenas quando é mesmo necessário

A qualificação da referenciação clínica é uma aposta forte da USF Serra da Lousã. “É importante partilhar e debater os casos clínicos antes da referenciação e esta área nobre devia existir em todas as USF”, defende o seu coordenador. E acrescenta: 

“Um dos defeitos da MGF é o isolamento, devemos aproveitar esta reforma para tomar decisões em equipa, só assim se consegue evitar a referenciação mal feita e ter verdadeiros cuidados de proximidade.”

Existe assim uma ligação entre a governação clínica e a formação. “É inevitável esta interligação, que traz benefícios para os profissionais de saúde, para os internos na sua formação e para os doentes, que se sentem satisfeitos por verem o seu caso discutido por vários clínicos.”

A reunião para debate dos casos clínicos é semanal e começa, pelo menos, 24 horas antes, através da internet. “Participam médicos, internos e a equipa de enfermagem também já está a ser incluída.”


E a aposta nesta vertente está a ser ganha. “Somos uma das USF da região Centro que menos referencia para o hospital.” Os casos que mais exigem esta discussão estão ligados à Cardiologia, à Reumatologia, à Endocrinologia, à Pediatria e à Medicina Interna. No caso da Pediatria, existe um protocolo diferente com o Hospital Pediátrico de Coimbra. “Temos um consultor hospitalar, que também participa nas discussões.”

João Rodrigues é um grande defensor da figura do consultor hospitalar. “Esperemos que, dentro em breve, possamos ter esta ajuda nas mais variadas especialidades. Mais uma vez estou a falar em governação clínica, a vertente da reforma dos CSP que ainda não foi verdadeiramente implementada por ser necessário mudar mentalidades.”


Ainda a nível da governação, o coordenador da USF salienta os protocolos estabelecidos, que permitem trabalhar com uma nutricionista e com uma psicóloga clínica, sem que para isso haja contratação a tempo inteiro destas duas especialistas. “A Nutrição e a Psicologia são essenciais nos CSP, mas as necessidades existentes, atualmente, nesta USF não implicam a sua contratação a tempo inteiro.” E continua: “Quando estamos à frente de uma unidade é preciso analisar, de forma crítica e realista, as necessidades existentes e, se for caso disso, pode-se trabalhar apenas com protocolos. Não se deve temer esta forma de prestar cuidados.”

E foi com base nesta forma de trabalhar que se estabeleceu um protocolo com o Gabinete de Intervenção Familiar da Câmara Municipal da Lousã, para onde são encaminhados os casos que necessitam de apoio familiar. Ainda no âmbito deste acordo, às quartas e sextas, os utentes têm disponível uma psicóloga que se dirige à USF.


João Rodrigues exemplifica: “No caso da obesidade, os doentes podem ter um acompanhamento semanal ou quinzenal – que faz toda a diferença na mudança de estilos de vida –, em vez de irem ao hospital a cada seis meses.” O mesmo acontece com a depressão. “É mais fácil ajudar estas pessoas quando se tem cuidados de proximidade, ou seja, na zona de residência.

Os CHUC ficam apenas a 20 minutos de carro, mas sabe-se que é importante dar apoio no local onde se vive.” No fundo, o que se pretende é “criar autoestradas com portagens qualificadas de discussão clínica”. E a MGF tem este potencial. “Só assim se consegue prestar os melhores cuidados.”



Núcleo da Felicidade para evitar o burn-out

Para se prestar bons cuidados é preciso que todos os elementos que integram a USF – médicos, enfermeiros, secretários clínicos, assistentes operacionais – se sintam bem. “Realizamos várias atividades ao longo do ano, como caminhadas pela serra, jantares, almoços, atividades desportivas, vídeos, para que as pessoas se conheçam fora daqui e possam carregar baterias, evitando-se as situações de burn-out.”

O Núcleo da Felicidade existe quase desde o início da USF. “Começámos a perceber que era essencial apostar nesta via, tendo em conta a exigência e responsabilidade do nosso trabalho.” 

Trabalhar "mesmo em equipa"

Este Núcleo revela ainda outra faceta da USF Serra da Lousã. “É um dos núcleos facilitadores, porque não temos interlocutores, trabalhamos todos mesmo em equipa.“ João Rodrigues explica: “Nesta unidade, não existe uma hierarquia pré-estabelecida, mas três grupos de profissionais, mais um, o dos assistentes operacionais.


Todos têm direito a votar nas questões relacionadas com a USF no seio do Conselho Geral.” O próprio coordenador é eleito para um mandato de um ano, além de existir o Conselho Técnico, representado por uma médica e um enfermeiro.

“Cada USF deve saber como se organizar e, como somos poucos, verificamos que esta é a melhor forma de trabalhar em equipa. Inevitavelmente que se escolhe um representante para cada área, mas, na prática, todos exercemos diferentes tarefas.”

Além do Núcleo da Felicidade, existem ainda os da Contratualização, Monitorização e BI da USF, Instalações e Humanização da USF, Processo de Acreditação (@Acredita) e Auditorias Internas, Gestão do Material Clínico, Viaturas (limpeza, utilização, combustível, etc.), Jornal da USF, Página Web da USF e Informática. 

O plano de ação atual está a terminar e já se encontra em discussão o dos próximos dois anos. “Ainda estamos a debater várias questões, porque discutimos também com parceiros da comunidade para estabelecer articulações. Já é certa a criação de uma consulta de avaliação dos jovens na área do desporto, ou seja, todos os que estão a praticar atividade física nos clubes da região vão ser seguidos nesta consulta”, refere João Rodrigues. Espera-se ainda otimizar a articulação com os CHUC, especialmente na área da Cardiologia e da Pedopsiquiatria.

Afinal, a governação clínica não deve ser descurada, porque “é uma das vertentes mais importantes da reforma dos CSP”.


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