«As coisas estão diferentes e posso dizer que hoje não temos um único caso social internado»

Vale a pena recuar alguns anos no tempo para recordar que o Hospital de Lagos começou por ser uma estrutura autónoma do Hospital de Portimão até que, em 2004, foi criado o Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio. Nessa altura, a equipa de MI de Portimão começa a dar apoio aos dois colegas que estavam em Lagos.

Em 2013, agregando o Hospital de Faro, forma-se o CH do Algarve. Mas, quando este já havia sido rebatizado como CH Universitário, o Hospital de Lagos ganha em 2022 novas instalações e passa a funcionar com alguma autonomia, separando-se do Serviço de Medicina Interna de Portimão.

Finalmente, em abril de 2025, voltou a ser integrado na Medicina 3, e é nessa altura que João Estevens se muda para Lagos, com a missão de coordenar aquele que, na prática, seria o Setor 3D do Serviço já então dirigido por Nuno Bernardino Vieira. Por uma questão de diferenciação, passa a ser chamado de Medicina Lagos.

João Estevens, que se deslocou a Portimão para ter esta conversa com a Just News, confirma que já conhecia a realidade de Lagos, até porque ele próprio era um dos elementos que anteriormente lá ia dar apoio. “Historicamente, pelo défice de internistas que sempre houve, tínhamos a lotação de camas reduzida e os doentes que iam para lá eram de fim de linha, ou já sem grande investimento clínico”, conta.

A MI tem 20 camas para doentes agudos e outras 8 para o chamado internamento de retaguarda, a que entretanto foi dado o nome de Unidade de Cuidados e Manutenção em MI (UCMMI), à semelhança do que sucedeu em Portimão. De referir que o Hospital de Lagos tem outras 10 camas que pertencem à Medicina Física e de Reabilitação.

 
João Estevens: “Vamos procurar pôr os nossos internos a rodar também por Lagos.”
 
Tendo em conta que a equipa de João Estevens também tem que assegurar, por exemplo, a Urgência interna, não se pode dizer que sejam muitos. A contar consigo e com uma colega que é prestadora de serviços, são quatro os assistentes de MI. “Também temos que fazer horas extraordinárias lá, tal como as fazemos aqui na Urgência de Portimão”, esclarece, adiantando:

“Entretanto, vamos procurar pôr os nossos internos a rodar também por Lagos. Apesar de estarmos geograficamente muito próximos, apenas 20 km, as realidades clínicas são completamente diferentes. Se aqui em Portimão se trabalha muito com pouca rede, lá há alturas em que se trabalha sem rede nenhuma por baixo. É importante os internos perceberem isso na sua formação, o que podemos e devemos fazer dependendo do contexto.”



HTA e risco vascular: a área de que mais gosta

“As camas da UCCMI são neste momento suficientes, mas nós deparámos com um cenário social catastrófico em Lagos!”, exclama João Estevens, quando questionado sobre se as 8 camas de retaguarda chegam para responder às necessidades. Três delas, aliás, estão neste momento desativadas, por avania dos motores elétricos.

“Conseguimos ter uma assistente social a tempo inteiro, que é uma pessoa fantástica e que trabalhou toda a vida na área, tendo um conhecimento do tecido social como ninguém. Tem um papel determinante, fundamental, sendo muito proactiva na procura de soluções. Reside em Lagos e até já tinha trabalhado no anterior hospital”, revela, esclarecendo que já a conhecia da Urgência de Portimão, pois, João Estevens foi, durante 6 anos, diretor desse Serviço, que também abrangia Lagos.

“As coisas não funcionavam muito bem, o que, como se sabe, faz dos internamentos sociais um problema grave que tem de se procurar resolver. Nós, devagarinho, lá conseguimos ir alterando um pouco a realidade. Felizmente, a situação está diferente, e posso dizer que à data de hoje não temos um único caso social internado na Medicina Lagos”, afirma.

Nascido a 23 de abril de 1968, João Estevens é natural de São Bartolomeu de Messines, concelho de Sines, “o centro geográfico do Algarve”, e onde continua a residir. Foi no início do Secundário que resolveu que haveria de ser médico, curso que fez em Lisboa, na FMUL. Tendo escolhido Torres Vedras para realizar o internato do Ano Comum, “por ser um hospital periférico”, rumou depois a Portimão para a especialização em MI.


Coordena a Consulta de Hipertensão e Risco Vascular, iniciada em 2008 por si e por uma colega que entretanto deixou o Algarve. É a área da MI de que mais gosta! Uma vez que a sua base de trabalho é agora em Lagos, desde a primavera de 2025, acompanha todos os doentes daquela zona, enquanto duas internistas de Portimão seguem os utentes que têm residência nesta área.

Quanto ao 32.º CNMI, em que assume as funções de tesoureiro, considera que a sua organização é “algo que dignifica o Serviço e a própria Região, sendo que vai acontecer num espaço de excelência”.


A reportagem completa aos serviços de Medicina Interna da ULS Algarve (unidades de Portimão-Lagos e de Faro) e à Unidade de Alvor do Grupo HPA Saúde pode ser lida na LIVE Medicina Interna 35 - Jan.-Abr. 2026.

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