Clínicos gerais estão «na primeira linha» do diagnóstico das doenças psiquiátricas

Portugal é dos países europeus com maior prevalência de doenças psiquiátricas. Em entrevista à Just News, publicada na edição de novembro do Jornal Médico, Maria Luísa Figueira, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), sublinha que os clínicos gerais estão "na primeira linha" do diagnóstico destas patologias e podem acompanhar muitos dos doentes.

A psiquiatra considera necessário que os departamentos de Psiquiatria estejam articulados com os cuidados primários e comunitários, de modo a “garantir um tratamento e referenciação adequados”. “Esta articulação pode ser feita de várias maneiras e em Portugal varia de região para região, o que não é favorável a uma organização eficaz dos cuidados de saúde”, afirma.

Segundo a especialista, pela exuberância das queixas dos doentes mais graves, o serviço de urgência é muitas vezes a porta de entrada no sistema e os problemas vão colocar-se na fase crónica, em termos da sua reabilitação e integração social. Para aqueles que têm patologias de outra natureza moderada a ligeira, refere, “é mais difícil terem um tratamento especializado e, em geral, são medicados em primeira mão pelo médico de família”.



Prevalência de perturbações ansiosas e depressivas "é preocupante"

Um estudo da Organização Mundial de Saúde revelou que Portugal e a Irlanda do Norte têm a prevalência mais elevada de doenças mentais da Europa, sendo no grupo das perturbações de ansiedade – que incluem várias síndromes ansiosas, desde as fobias isoladas ou específicas, a perturbação de pânico, a ansiedade generalizada, a fobia social, a perturbação pós stress traumático – que os dados de Portugal mais se destacam.

Já o único estudo epidemiológico feito na população portuguesa pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, em 2013, revelou que é nos mais jovens, entre os 18 e os 34 anos, que se verifica uma maior prevalência de doença mental, estimando-se que 50,1% tenham pelo menos uma perturbação psiquiátrica. Neste grupo etário, as entidades mais referidas são as perturbações da ansiedade, seguidas das afetivas e do abuso de álcool.

Tendo em conta estes dados, Maria Luísa Figueira considera que o mais preocupante são as dificuldades de acesso dos doentes considerados “menos graves”, isto é, com perturbações ansiosas e depressivas, aos cuidados médicos especializados ou não. “A elevada taxa de prevalência encontrada para estas perturbações é preocupante, apesar do estudo poder ter alguns enviesamentos metodológicos e as taxas poderem estar subestimadas. De qualquer modo, nestas considerações, estamos a deixar de lado os doentes mais graves, com patologia psicótica”, indica a psiquiatra.


Subordinado ao tema “Psiquiatria e Medicina: ligações e disjunções”, o XI Congresso Nacional de Psiquiatria, organizado pela Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), terá lugar entre os dias 19 e 21 deste mês, em Vilamoura.



A entrevista completa com Maria Luísa Figueira pode ser lida no Jornal Médico de novembro, editado pela Just News. O artigo faz parte de um Especial Psiquiatria, que conta com a colaboração de cerca de uma dezena de especialistas.

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