Consulta Multidisciplinar de Geriatria dá apoio diferenciado a idosos frágeis no Curry Cabral

Albino Duarte Teixeira tem 81 anos e na altura em que esta reportagem foi realizada era acompanhado há um ano na Consulta Multidisciplinar de Geriatria que funciona no Hospital Curry Cabral, uma das unidades do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central (CHULC). Os problemas cardíacos, osteoarticulares e respiratórios obrigam-no a ser visto com alguma regularidade pela equipa.

“Sou muito bem tratado e veem tudo. Também os ajudo não comendo coisas muito salgadas. Deixei de beber álcool há alguns anos e agora é só água”, diz, informando que também é poeta e que, apesar da sua condição de saúde, ainda apoia a esposa.


Albino Duarte Teixeira com a sua esposa durante a consulta

“Escrevo poemas. A Dr.ª sabe bem isso”, faz questão de esclarecer.  A médica a quem se refere é Heidi Gruner, internista com competência em Geriatria, coordenadora da Consulta. “No Dia dos Namorados, escreveu um poema lindo à esposa e até lhe pedimos para tirar uma foto. Ficámos invejosíssimas”, reconhece a especialista de Medicina Interna. Tendo acompanhado sempre a luta pela afirmação da Geriatria em Portugal, Heidi Gruner foi responsável pela criação da Consulta, em maio de 2018.

“Esta é das poucas consultas em Lisboa"

Além de médicos internos, integra farmacêuticos, enfermeiras, uma nutricionista, uma assistente social e alunos de Medicina da Nova Medical School. "Não se dispensa o apoio de outras especialidades sempre que necessário", como a Psiquiatria de Ligação ou a Medicina Física e de Reabilitação, particularmente a Consulta de Posturologia.


Heidi Gruner: "Não faz sentido a ideia de que a partir de certa idade, e face a determinadas condicionantes, se tenha que sobreviver em vez de viver"

“Esta é das poucas consultas, em Lisboa, que se dedica à orientação de doentes idosos com mais de 75 anos, em situação de fragilidade, mas ainda com algum grau de independência, nos seus vários aspetos. Pretende-se a promoção do envelhecimento saudável e ativo, preferencialmente em ambiente familiar, de modo a que se potencie a reabilitação funcional e cognitiva, nunca esquecendo os apoios sociais”, observa Heidi Gruner. Atualmente, estão também a avaliar os que estiveram internados com covid.

Para o efeito, recorre-se à avaliação geriátrica global: “O objetivo é perceber qual o estado intelectual e emocional, o comportamento nutricional, o equilíbrio e a qualidade da marcha, a autonomia para as atividades de vida diária, o estado de saúde do idoso na sua globalidade. Contamos, assim, com diferentes grupos profissionais para otimizar os cuidados prestados a pessoas com mais de 75 anos, polimedicadas.”

Estas consultas fazem cada vez mais sentido pelo aumento da esperança média de vida, mas não só: “Portugal é o 3.º país mais envelhecido do mundo e os idosos são muitas vezes o suporte e a estabilidade económica dos filhos e dos netos. Temos que aprender a envelhecer bem, mesmo com determinadas patologias. Há sempre truques para que se possa ser feliz.”


Elementos da equipa

Enfermagem: “É a nível cognitivo que se notam melhorias mais significativas”

Vida é o que não falta no piso 1 do Pavilhão das Consultas Externas do Curry Cabral. “Por causa da pandemia, apenas fazíamos teleconsulta (a consulta presencial foi reativada na segunda metade do mês de julho de 2020). Esta população é de alto risco e obviamente que evitámos qualquer vinda ao hospital”, diz Heidi Gruner.

O espaço tinha, nessa altura, novos “vizinhos”, já que a covid-19 obrigou à deslocalização da Consulta de Transplante Hepático para a zona onde se encontra a Geriatria. Percebe-se que os doentes chegam sorridentes, como quem mata saudades de algo que fazia mesmo falta...

Como o tempo escasseia, os profissionais de saúde procuram otimizá-lo ao máximo, havendo sempre utentes nalgum dos gabinetes. “No da Enfermagem consegue-se ter uma visão global do que se passa com o idoso, sendo aplicadas escalas que monitorizam a qualidade de vida, as atividades diárias e o estado intelectual, assim como a capacidade da marcha, para se perceber o grau de dependência de cada um”, explica a enfermeira Manuela Luís Barão, que está há 30 anos no Curry Cabral e que deu o seu importante contributo para o arranque da Consulta de Geriatria, em 2018.


Manuela Luís Barão

A profissional garante que é notória a diferença entre a primeira consulta e as seguintes: “As pessoas não chegam tão deprimidas. Penso que a nível cognitivo é onde se notam melhorias mais significativas, o que se deve ao facto de os idosos se sentirem acompanhados, mas também a todo o trabalho de revisão e ajuste terapêutico, adoção de estilos de vida mais saudáveis, etc.”


Nutrição: “Bom senso e equilíbrio”


Após a primeira consulta, os doentes são reavaliados de três em três ou de quatro em quatro meses, mas não têm de passar sempre por todos  os elementos da equipa. É o caso específico da Nutrição. Maria Saldanha, nutricionista, com uma pós-graduação em Geriatria, explica que, excetuando os casos que assim o exigem, muitos utentes podem apenas ser observados semestralmente nesta especialidade.

“Numa primeira consulta, é avaliado o estado nutricional e, em função dos resultados obtidos, são tomadas as medidas terapêuticas necessárias”, explica.

O problema transversal a estes doentes é a baixa ingestão hídrica, porque o reflexo da sede se encontra diminuído. “É preciso compreender o que está por detrás de certos comportamentos para se conseguir encontrar soluções. Além da diminuição do reflexo da sede, é frequente sofrerem de incontinência urinária ou de urgência miccional, agravada pela própria medicação”, refere Maria Saldanha.

Nesses casos, o melhor é ir ao encontro das dificuldades e dar sugestões: “É uma forma de não deixarem de beber água e de se sentirem motivados a sair de casa e a caminhar porque, se ficarem parados, a sua saúde global vai deteriorar-se.”


Maria Saldanha

A nível da alimentação, predomina também a falta de apetite, além dos erros há muito enraizados. Mas, mesmo aí, é preciso “bom senso e equilíbrio”: “Temos que estabelecer prioridades porque se trata de uma faixa etária com certas particularidades.

Por exemplo, se tenho um doente desnutrido com problemas cardiovasculares não posso insistir tanto na diminuição do sal porque correr-se-á o risco de ainda comer menos.”

Maria Saldanha prossegue: “Os alimentos acabam também por ser um consolo emocional, daí que todas as decisões tenham que ser muito ponderadas. Outra das limitações prende-se com o poder económico dos utentes. As reformas são baixas e a alimentação é cada vez mais dispendiosa.”

Nos casos mais extremos, a nutricionista recorre a suplementos alimentares, mas também aí há um senão: “São caros, embora o bom suporte familiar tenha sido muitas vezes uma ajuda nestas situações.”




Farmácia: “Por ser natural, não quer dizer que seja inócuo”

Se o poeta Albino toma apenas 4 fármacos por dia, há outros doentes que necessitam de quatro vezes mais medicamentos. Ricardo Silva, também desde o primeiro dia na equipa, é um dos quatro farmacêuticos que faz a revisão terapêutica de cada doente, vendo quando é necessário um reajuste da mesma ou até a desprescrição.

“Pedimos sempre para trazerem as caixas de todos os medicamentos que tomam para percebemos quais as possíveis interações ou identificarmos os fármacos que não são adequados. Muitas vezes, as pessoas recorrem a várias especialidades, acabando por sobrepor terapêuticas, ou então mantêm tratamentos que foram importantes em determinada situação, mas que já deviam ter sido descontinuados”, afirma o farmacêutico.


Ricardo Silva

Relativamente à desprescrição, os casos mais frequentes referem-se a benzodiazepinas e a inibidores da bomba de protões. “Quanto aos primeiros, face à probabilidade de existir dependência, é necessário que a redução da dose seja progressiva.

Contudo, temos sempre que pensar no bem-estar da pessoa. Por exemplo, passar a fazer essa medicação apenas em SOS é uma possível solução”, diz Ricardo Silva.

A circunstância de as caixas de genéricos terem cores diferentes, inclusive quando a substância ativa é a mesma, também é uma fonte de confusão, sobretudo para quem tem menos escolaridade. Por isso, “identificamos cada uma das embalagens, de maneira a que facilmente se saiba qual é o seu conteúdo e quando é que determinado medicamento deve ser tomado”.

O uso de produtos de ervanárias é outro hábito enraizado e que tem que ser bem analisado, daí que se queira sempre saber se o doente toma suplementos ou chás. “Por ser natural, isso não quer dizer que seja inócuo e que não haja quaisquer interações. É preciso desmistificar essa ideia”, frisa Ricardo Silva.

“Tem sido muito gratificante vermos que diminuiu o uso de medicamentos não necessários, assim como as interações”, conclui o farmacêutico.



Serviço Social: “Não sabem aquilo a que têm direito”

Como o ambiente que rodeia o doente também afeta a sua saúde, na Consulta Multidisciplinar de Geriatria conta-se com o apoio da assistente social Maria da Luz Ramires, que afirma: “Analisamos as diferentes situações sempre que os médicos referenciam um caso.”

A resposta pode ser a mais variada, entre ativar o apoio domiciliário ou encaminhar para a Segurança Social e/ou a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. “Analisamos ainda toda a rede de suporte formal e informal, de forma a envolvermos sempre a comunidade para ajudar o idoso”, afirma Maria da Luz Ramires.

Na Consulta dá-se apoio, maioritariamente, a utentes da região de Lisboa, que, ao contrário do que se possa pensar, não têm problemas de solidão: “Muitos deles chegam acompanhados por familiares, amigos ou vizinhos, ou com o próprio cônjuge.”


Maria da Luz Ramires

O mais comum é o desconhecimento dos apoios sociais existentes. “As pessoas não têm noção dos seus direitos, quer por motivos de saúde ou da própria idade, e acabam por ficar sem
ajuda”, indica Maria da Luz Ramires. E é assim, em equipa multidisciplinar, que se consegue o objetivo que tanto é defendido: “viver e não sobreviver” quando se tem mais de 75 anos e multipatologia.

Que o diga o poeta Albino, que nunca larga a mão da sua esposa, com demência, e que, por detrás da máscara, não deixa de sorrir e de agradecer, talvez já a pensar num poema a dedicar a todos os profissionais da Consulta Multidisciplinar de Geriatria do CHULC.

"Dar provas do nosso valor e formar novos colegas"

Heidi Gruner é natural de Lisboa. A paixão pela Medicina Interna, em particular a área das doenças autoimunes, e pela Geriatria já vem desde pequena. É fácil perceber porquê: foi o seu pai, o internista alemão Wolfgang Gruner, a criar, juntamente com a internista Maria Antónia Santos, uma das primeiras consultas de Geriatria, em 1996, em Almada, onde Heidi Gruner viria a estagiar em 1998. “Não me via a fazer outra coisa. Gosto mesmo muito! Tanto que acordo todos os dias de manhã a sorrir e com vontade de vir trabalhar”, confessa.

Após a licenciatura em Medicina pela FMUL, o objetivo era integrar a equipa de doenças autoimunes do Hospital Curry Cabral e conseguiu, nunca deixando de lutar pela Geriatria. Daí que muitos doentes seguidos na Consulta Multidisciplinar, criada em 2018, tenham a particularidade de ser imunodeprimidos.



É assistente convidada da Nova Medical School e contribuiu também para a criação do Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, em 2008, e para que esta área fosse aceite como competência pela Ordem dos Médicos, em 2016, fazendo atualmente parte da Direção.

E não parou. Como membro da European Union of Geriatric Medical Societies, acredita que, “no futuro, a Geriatria será uma especialidade”. Explica porquê:

“Compreendo que tal possa ainda ser visto pelos restantes internistas e outros especialistas como uma ameaça, já que temos uma Medicina Interna de excelência, que consegue dar resposta às mais variadas situações, como uma pandemia. Contudo, a nossa atuação é específica, pretendendo abordar idosos em risco de fragilidade que necessitam e possam beneficiar de cuidados geriátricos, por um período variável de tempo.”

A médica afirma ainda que o “caminho difícil” que a Geriatria tem feito em Portugal, comparativamente com o que tem sucedido noutros países, acaba por ser uma oportunidade: “Aproveitamos este compasso de espera para consolidar conhecimentos, dar provas do nosso valor e formar novos colegas, como já acontece nesta Consulta. Recebemos internos de Medicina Interna e de Medicina Geral e Familiar, que estão muito empenhados em dar seguimento a esta área.”



Reportagem publicada no jornal Hospital Público 29.

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