«Corremos o risco real de exaurir a Medicina Interna»
“Sem uma reorganização profunda e urgente, corremos o risco real de exaurir a Medicina Interna, sem a qual o hospital tal como o conhecemos deixa de existir”, garantiu Luís Duarte Costa. A necessidade de concretizar essa reforma é, aliás, partilhada por Manuel Teixeira Veríssimo, que já presidiu à SPMI e que ontem participou na cerimónia na sua qualidade de presidente da Secção Regional do Centro da OM, em representação do bastonário da Ordem dos Médicos.
Contando com a presença de George Dalekos, presidente da Federação Europeia de Medicina Interna, a sessão solene serviu também para Nuno Bernardino Vieira, presidente do Congresso, dar as boas-vindas aos participantes.
Também Luís Encarnação, o autarca que preside à CM de Lagoa, se congratulou com a presença de tantos internistas na sua cidade, enquanto a secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, enviou uma mensagem em vídeo. Lembrando que a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna festeja, em 2026, o seu 75.º aniversário, Luís Duarte Costa referiu na sua intervenção que, ao longo do tempo, “a MI deixou de ser apenas uma especialidade de enfermaria para se tornar o pilar central da gestão do doente complexo e a espinha dorsal do Sistema Nacional de Saúde”.
“Nas décadas de 80 e 90 assistimos ao nascimento de inúmeras especialidades com origem na MI, mas mantivemos sempre a nossa matriz agregadora. Em paralelo, criámos núcleos de estudos para áreas específicas que são, há muito tempo, referências nacionais e internacionais”, afirmou, citando, nomeadamente, os casos das doenças autoimunes, da diabetes, da geriatria, dos cuidados paliativos ou da hepatologia. Entretanto, recordando a reação da MI à criação “por portaria”, em 2016, da Medicina Intensiva, referiu:
“A Medicina Interna reinventou-se e modernizou as unidades de cuidados intermédios médicos para responder aos doentes críticos, mas que não requerem ventilação invasiva, ou para situações específicas complexas, como as unidades de AVC, de insuficiência cardíaca ou de cuidados paliativos.”
Luís Duarte Costa
Segundo Luís Duarte Costa, “enquanto nos EUA e no norte da Europa se apressam a criar unidades para tratar os doentes complexos e com multimorbilidade, nós fazemo-lo desde sempre”. No seu entender, “ter uma MI com formação holística, baseada na fisiopatologia e no trabalho de equipa, confere aos internistas uma vantagem estrutural para resolver situações clínicas complexas ou com envolvimento multiórgão, ideal para os doentes que enchem os nossos hospitais. Isto tem que ser protegido”.
Entretanto, “trabalho em excesso, horas incómodas e falta de reconhecimento pelos nossos pares e pelas estruturas dirigentes” explicam, para o presidente da SPMI, as mais de 240 vagas para a especialidade de MI no internato médico que ficaram vazias só nos últimos três anos. E criticou fortemente que se “pague o mínimo aos médicos internistas que aguentam todo o sistema hospitalar e fazem a diferença para uma vida com saúde e uma morte com dignidade”.
“Defendemos uma gestão hospitalar eficaz, que não permita que haja vagas quando há doentes em maca nos serviços de Urgência ou na Medicina porque não se enquadram no perfil ideal de determinada especialidade ou porque esta argumenta já não ter ‘nada a oferecer’”, afirmou Luís Duarte Costa, concluindo:
“A prestação de serviços clínicos modernos é complexa e exigente, mas, acima de tudo, tem de ser humana e centrada no doente.”


