Doença mental: «As pessoas em situação de vulnerabilidade têm que ter acesso a cuidados»
A psiquiatra Maria João Heitor não tem qualquer dúvida de que a “otimização das respostas” na área da Saúde Mental só será possível com o envolvimento articulado dos setores público, social e privado, tendo sublinhado isso mesmo ao intervir no XV Congresso de Psiquiatria S. João de Deus.
Diretora do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental da ULS de Loures-Odivelas, Maria João Heitor também integra a Direção do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, tendo participado na sessão de abertura do Congresso em representação do bastonário, Carlos Cortes.
A seu lado tinha o bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, Hélder Mota Filipe, o diretor de Serviços de Prevenção da Doença e Promoção da Saúde da Direção-Geral da Saúde, Miguel Arriaga, e ainda os representantes das duas entidades responsáveis pela organização do Congresso: Irmão José Paulo, presidente do Instituto S. João de Deus, e Irmã Blanca Guerrero, 3.ª conselheira geral das Irmãs Hospitaleiras.
Maria João Heitor, que já foi presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, achou por bem começar a sua intervenção por lembrar que as doenças mentais estão entre as patologias crónicas mais frequentes no mundo, não sendo Portugal exceção, com perto de uma em cada quatro pessoas a sofrer anualmente de uma experiência de doença mental.
“Seja a dita doença mental comum (ansiedade e depressão), seja a doença mental grave, com o paradigma da esquizofrenia. E mais uma multiplicidade de diagnósticos sindromáticos e nosológicos, como as perturbações do neurodesenvolvimento, nas quais se incluem as deficiências intelectuais”, referiu.
Maria João Heitor
“Mais do que fazer face à doença, nós estamos perante pessoas”
Contudo, fez questão de frisar que, “mais do que fazer face à doença, nós estamos perante pessoas, sujeitas a um conjunto de determinantes individuais culturais, económicos e ambientais”. Ora, para intervir e cuidar dessas pessoas, “isso implica implementar medidas de promoção da saúde mental e de prevenção da doença mental e dispor de um leque de respostas de tratamento, de reabilitação psicossocial e de reintegração na sociedade após a recuperação da doença, quando isso é possível”.
Sendo certo que “as pessoas em situação de vulnerabilidade têm que ter acesso aos cuidados de que necessitam”, é com convicção que Maria João Heitor afirma: “Só com uma adequada articulação e complementaridade, ou integração, entre o setor público, o SNS, o setor social e o setor privado é que conseguimos otimizar as respostas que é preciso dar”. E não deixou de sublinhar ser essa uma opinião pessoal, sustentada numa longa experiência profissional de ligação a esses três setores.
Constatando o facto de “vivermos numa era, simultaneamente, de transformação digital, de hiperconectividade, de desassossegos e solidão”, sendo a saúde mental “impactada de diferentes formas”, Maria João Heitor saudou os organizadores do Congresso, que desenharam um programa subordinado ao tema “Saúde mental e pós-modernidade: o analógico e o digital”:
“Pensar a ligação entre saúde mental, cérebro, ciência, digital, espiritualidade e hospitalidade, quais são os pontos em que todas estas dimensões se encontram, é um dos desafios sobre o qual este evento se debruça de uma forma brilhante.”
Irmã Blanca Guerrero, Irmão José Paulo, Miguel Arriaga, Hélder Mota Filipe e Maria João Heitor
A psiquiatra concluiria a sua intervenção destacando que a Ordem dos Médicos “assume um papel ativo na transformação digital da saúde em Portugal”. Contudo, acrescentou, “sem esquecer que o digital também pode ser uma ferramenta estratégica para devolver tempo aos médicos e aos outros profissionais, para um certo regresso ao essencial, que passa pela relação terapêutica, pela relação médico-doente”..jpg)
Luís Madeira
De referir que, antecedendo a cerimónia de abertura, o XV Congresso de Psiquiatria S. João de Deus, que decorreu em Lisboa, entre os dias 15 e 17 de abril, teve como protagonista da sua conferência inaugural o psiquiatra Luís Madeira. O atual presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatra e Saúde Mental apresentou uma comunicação intitulada “A modernidade e a tecnologia na Saúde Mental – Promessas e ameaças. Uma perspetiva multidisciplinar”, numa sessão que teve como moderador Joaquim Ferreira, diretor do Serviço de Neurologia da ULS de Santa Maria.


