Há mais de 20 anos a tratar os doentes autoimunes em Trás-os-Montes e Alto Douro

Elisa Serradeiro é assistente graduada do Serviço de Medicina Interna do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD)/Hospital de S. Pedro, ao qual está ligada desde 1988, sendo responsável pela Unidade de Doenças Autoimunes, que viu nascer.

Em entrevista à Just News, a médica explica que tudo começou com uma Consulta de Conetivites, em 1996, iniciada no Serviço de Medicina Interna do Hospital de S. Pedro, em Vila Real, por Álvaro Ferreira e depois continuada, em 1998, por Elisa Serradeiro.

A partir de 1998, passou a designar-se Consulta de Doenças Autoimunes e, em 2010, dado o volume de doentes e de especialistas que já com ela colaboravam, passou a denominar-se Unidade de Doenças Autoimunes, altura em que se inscreveu na Direção-Geral da Saúde como centro prescritor de biológicos.

Hoje, além da Consulta do Hospital de Vila Real, assegurada por cinco médicos, o CHTMAD dispõe de uma Consulta de Doenças Autoimunes no Hospital Distrital de Chaves e outra no Hospital de Proximidade de Lamego.



Elisa Serradeiro relata que o início da consulta foi também uma “mudança de atitude” dentro do Serviço de Medicina Interna, dado que, até essa época, não havia consultas especializadas, ou seja, os doentes estavam dispersos pelas várias consultas de Medicina.

Os doentes mais complexos e aqueles que são propostos para iniciar tratamento com biológicos são discutidos numa consulta de grupo que tem lugar semanalmente, à quarta-feira, em que participam os internistas que integram a Unidade de Doenças Autoimunes.

Esta consulta de grupo conta ainda com a colaboração regular de outras especialidades, em particular, de Nefrologia, Pneumologia, Dermatologia e Reumatologia.

Hospital de Dia evita internamentos 

Em 2017, foram seguidos na Unidade 1293 doentes, tendo sido realizadas 3147 consultas, das quais 290 foram primeiras. Do total, para as patologias mais frequentes, uns 200 doentes tinham artrite reumatoide, cerca de 150 espondilartrites, aproximadamente 100 tinham lúpus. Na data em que foi realizada a reportagem, em meados de março de 2018, havia 106 doentes registados a fazer biológicos.

A gestão do Hospital de Dia de Doenças Autoimunes, onde são feitos os tratamentos, é da Unidade. “A existência do Hospital de Dia permite-nos avaliar os doentes com mais regularidade e evitar que sejam internados por uma descompensação menos grave relacionada com a sua doença autoimune”, menciona Elisa Serradeiro.

A resposta a um pedido de consulta pode ocorrer na semana seguinte, ou seja, as vagas de 1.ª consulta (sete por semana) estão sempre ocupadas, mas não há tempo de espera. 


Alguns dos elementos da equipa: Nuno Silva (médico), Paula Arribada e Catarina Oliveira (enfermeiras), Elisa Serradeiro, Joana Cunha (médica), Alice Garrote (enfermeira), Cristiana Pinto (médica), Filomena Carvalho (enfermeira) e Fernando Salvador (médico)

Capilaroscopia é uma mais-valia

Cabe a Joana Cunha realizar capilaroscopia, método utilizado na Unidade desde 2013, depois de a internista ter feito formação na área. Até aí, os doentes faziam o exame no Hospital de Santo António, no Porto.

A internista sublinha a importância do exame: “É um método simples e não invasivo de avaliar a microcirculação in vivo e é a forma mais eficaz para observar as alterações microvasculares dos doentes com doenças autoimunes e do tecido conjuntivo.”

Prosseguindo, Joana Cunha explica que a capilaroscopia ajuda a distinguir o fenómeno de Raynaud primário, que, no fundo, é funcional, daquele que é secundário e normalmente está associado a patologia autoimune. Adicionalmente, permite avaliar alguns padrões patológicos específicos de determinadas doenças seguidas na Unidade, como, por exemplo, a esclerose sistémica.



O exame é feito, habitualmente, aos doentes com esclerose sistémica, com doença mista do tecido conjuntivo, com lúpus e em todos aqueles indivíduos que tenham atingimento vascular periférico.

O maior constrangimento que existe atualmente prende-se com o facto de a Unidade não ter ainda um aparelho de capilaroscopia próprio. É usado um videocapalaroscópio portátil, cedido pela indústria farmacêutica (Actelion) três a quatro vezes por ano, ficando durante um período de duas a três semanas.

Na Unidade há um aparelho mais simples, que permite visualizar alterações mais grosseiras e que auxilia numa fase inicial. Joana Cunha está ligada ao Serviço de Medicina Interna do CHTMAD/H. de São Pedro há 10 anos, desde o Internato do Ano Comum.

As doenças autoimunes desde cedo a atraíram e o interesse foi aumentando com o tempo. “É uma área da Medicina Interna por excelência. São doentes complexos”, salienta.


Joana Cunha e Fernando Salvador 

Bomba elastomérica implementada há cinco anos

Fernando Salvador fez o internato de Formação Específica no Serviço de Medicina Interna do CHTMAD, onde é assistente hospitalar há cinco anos. Desde o último ano do internato que faz a Consulta de Doenças Autoimunes.

Desde há cerca de cinco anos que foi instituído na Unidade o tratamento por bomba elastomérica, um procedimento pelo qual Fernando Salvador ficou responsável.

“Na nossa Unidade seguimos um número considerável de doentes com Fenómeno de Raynaud. Um dos tratamentos para estes doentes é o iloprost, que previamente era feito em bomba perfusora no Hospital de Dia.



O tratamento por bomba elastomérica permite que o doente faça o tratamento em casa, com um débito e uma perfusão sempre mantida, com o contacto da enfermeira do Hospital de Dia e com menos efeitos adversos”, explica o médico, natural de Peso da Régua.

No Hospital de Dia da Unidade, localizado no Hospital de São Pedro, em Vila Real, fazem o tratamento os doentes não só seguidos naquela unidade hospitalar como também dos hospitais de Chaves e Lamego. Atualmente, há entre 15 a 20 doentes em tratamento ativo e regular com bomba elastomérica.


Joana Cunha, Fernando Salvador, Rita Queirós e Andreia Costa (médicas internas de Medicina Interna), Elisa Serradeiro e Nuno Silva (médico especialista em Medicina Interna)

Trabalhar na área das doenças autoimunes "é desafiante e gratificante" 

Elisa Serradeiro recorda que “as doenças autoimunes são diversas e com manifestações diferentes em cada doente” e, nesse sentido, afirma:

“Podemos ter um grande impacto na vida destes doentes. São doentes muitas vezes jovens que acabamos por ver crescer, continuamos a acompanhar ao longo da sua vida e percebemos o impacto que a nossa intervenção teve nas suas vidas. É, por isso, desafiante e gratificante trabalhar na área das doenças autoimunes.”



No futuro, Elisa Serradeiro quer investir na realização de reuniões temáticas multidisciplinares para clínicos gerais, projeto que foi iniciado em 2016, tendo sido abordado o tema da artrite reumatoide. O objetivo é, refere, “sensibilizar estes profissionais de saúde para este tipo de patologia, para os critérios de referenciação e sinais de alerta”.

Em anos anteriores foi sendo feita divulgação da consulta e de critérios de referenciação através de reuniões nos próprios centros de saúde. A médica gostaria, ainda, que pudesse haver espaço para o desenvolvimento de mais alguma investigação.  

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