«Há alturas do ano em que o nosso internamento chega a ter uma taxa de ocupação de 200%»

Catarina Mendonça está convencida de que internar doentes em casa pode, de facto, ajudar a lidar com o problema da falta de camas no Serviço de MI da Unidade de Faro da ULS Algarve. Aliás, a hospitalização domiciliária é uma das áreas em que a articulação com o Serviço de MI de Portimão existe de facto. “Vamos crescer ao mesmo tempo”, afirma. Quanto ao envolvimento na organização do 32.º CNMI, aceitou de imediato o desafio lançado por Nuno Bernardino Vieira.

Diretora da Medicina Interna de Faro desde janeiro de 2024, um ano depois dos dois serviços de MI então existentes terem sido convertidos num único (entre 2012 e 2019 chegaram a ser três), Catarina Mendonça, 52 anos, gere uma equipa com duas dúzias de especialistas. Em termos de internamento, dispõe de duas enfermarias (uma no piso 8 e outra no andar de baixo) e mais umas quantas camas noutros locais do hospital, cujo número varia consoante as necessidades da altura.

Natural de Lisboa, foi viver para o Algarve com 7 anos. Resolveu depois fazer o curso de Medicina em Coimbra, tal como o internato Geral, logo regressando ao sul do país. Iniciou a especialização em 2001, no então Hospital Distrital de Faro, naquele que era o único Serviço de MI, instalado no último andar do edifício principal. No ano seguinte, seria criado um segundo Serviço, para responder à necessidade de reforçar o internamento de MI.


Catarina Mendonça

Catarina Mendonça lembra-se que foi exatamente há 25 anos, enquanto interna do 1.º ano, que viu os colegas mobilizarem-se na organização daquele que seria o 7.º Congresso da SPMI. Agora, integra ela própria a CO do 32.º CNMI, com outros três elementos a representarem também a MI de Faro: Carlos Cabrita e Cristina Sousa, com mais anos de especialidade, e Pedro Gomes Santos, um jovem internista.


A falta de espaço que existe no Hospital de Faro também é um problema no próprio Serviço de Medicina Interna. O facto de o ecógrafo estar “arrumado” no próprio gabinete da diretora é sinal disso mesmo. E, independentemente dos recursos humanos serem limitados – “houve alturas ainda mais complicadas do que agora porque, felizmente, alguns dos internos têm acabado por ficar connosco” --, a falta de camas é mesmo o grande problema.



Com um total de 82 camas distribuídas pelas duas áreas de internamento – que, segundo Catarina Mendonça, deveriam ser pelo menos entre 120 e 130 --, não admira que a MI acabe a ocupar as vagas existentes noutros serviços da instituição, para além das 16 camas de contingência existentes no hospital. Basta dizer que, nos últimos anos, a taxa média de ocupação de camas tem sido de 156%, com picos de 200% em determinadas alturas.

“Em janeiro de 2025 internámos perto de 450 doentes, o que dá uma média de pelo menos 14 por dia. De qualquer forma, nos restantes meses, esse número não é muito inferior, pois, temos diariamente cerca de 11 novos doentes para internar”, regista a médica.

Confrontada com o facto de alguns deles prolongarem o seu tempo de internamento por não terem para onde ir, responde de imediato:

“Mais uns dias é um eufemismo! Estamos a falar de meses. No piso 7, na semana passada, 50% aguardavam uma resposta por parte da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados! Há situações sociais altamente complexas, incluindo cada vez mais casos de cidadãos estrangeiros muito dependentes.”



“Internar doentes em casa pode ser um caminho a seguir…”

Compreende-se que Catarina Mendonça defenda que se deve continuar a investir na hospitalização domiciliária, em cuja criação no Hospital de Faro esteve diretamente envolvida. Projeto que se viria a concretizar em maio de 2019, após dois anos de esforços para reunir as condições para tal, assegurando desde então a sua coordenação.

“Entretanto, na altura da pandemia, aqui em Faro, passámos de 5 para 10 camas em HD e eu penso que agora existe a perceção, a nível nacional, de que a HD pode ser um caminho a seguir. Já que não há camas suficientes no hospital, temos que procurar internar em casa os doentes que reúnem as condições para tal. Eu penso que, tanto aqui como em Portimão, poderemos ir até às 50 camas neste regime. É evidente que, para o concretizar, temos que desviar médicos e enfermeiros para a HD”, afirma Catarina Mendonça, acrescentando:

“Inclusive, estamos os dois serviços de MI da ULS Algarve a trabalhar em conjunto no sentido de, em ligação com os cuidados de saúde primários e os lares, evitarmos que os doentes que obedeçam a critérios específicos estabelecidos para se poder aplicar a hospitalização domiciliária sejam encaminhados para o Serviço de Urgência, indo nós ter com eles. É evidente que este aumento de 10 para 50 doentes em HD vai ser gradual, mas vamos crescer ao mesmo tempo em Faro e Portimão.”



A diretora garante que a articulação entre as duas estruturas é uma realidade, mesmo até ao nível, por exemplo, da própria Urgência. Existe, nomeadamente, a vontade de realizar uma reunião conjunta periódica para promover a discussão de casos clínicos, ideia que só ainda não avançou porque “a atividade assistencial, nos dois lados, é tão grande que tal ainda não foi possível”.

E diz considerar importante que estejam, juntamente com os internistas do setor privado, “unidos na organização do 32.º CNMI, até porque há colegas que trabalham nos dois lados e o SNS também tem que contar com a assistência privada para dar resposta à população que precisa de cuidados”.


A reportagem completa aos serviços de Medicina Interna da ULS Algarve (unidades de Portimão-Lagos e de Faro) e à Unidade de Alvor do Grupo HPA Saúde pode ser lida na LIVE Medicina Interna 35 - Jan.-Abr. 2026.

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