Infeção pelo VIH «tem de deixar de ser vista como uma doença do hospital»

"Não faz sentido que não haja uma verdadeira colaboração entre os cuidados de saúde primários e os hospitalares", afirma Teresa Branco, presidente da Associação Portuguesa para o Estudo Clínico da SIDA.

Em entrevista à Just News, publicada no Hospital Público, advoga que esta infeção tem deixar de ser vista como “uma doença do hospital”, embora sendo verdade que, por enquanto, só aí seja dispensada a terapêutica antirretroviral.

“É possível, neste momento, ter consultas presenciais e não presenciais, pois, se está tudo bem, o que eu faço é pouco mais do que ver análises, falar sobre o tratamento, as intercorrências...", refere a especialista de Medicina Interna, com um mestrado em SIDA tirado "já há muitos anos".

Acima de tudo, é preciso começar a pensar nisso, testar um modelo e ver se funciona, de forma a não sobrecarregar nem o SNS, com duplicação de cuidados, nem as próprias pessoas, com deslocações e exames múltiplos...”, considera Teresa Branco.

Infeciologia e Medicina Interna

Excetuando casos em que a terapêutica não é cumprida ou em que o estado da infeção é de tal forma avançado que já há mesmo uma situação de doença declarada (SIDA), “as pessoas são internadas num hospital porque têm um AVC, um enfarte, uma pneumonia… sendo encaminhadas para as enfermarias das respetivas especialidades”.


“Esta infeção entra cada vez mais na nossa rotina. Todas as especialidades têm que saber lidar com o VIH”, diz Teresa Branco, para quem a formação regular “é muitíssimo importante”.
Até porque, hoje em dia, “estamos perante uma doença sem qualquer sintoma, sem um sinal visível, se estiver tudo a correr bem”.


Teresa Branco: “Queremos envolver mais os enfermeiros nas atividades da APECS, mas também os farmacêuticos e até as pessoas que vivem com o VIH”

No entender da presidente da APECS, “é perfeitamente indiferente” se o médico dedicado ao VIH é infeciologista, internista, ou até, por exemplo, pneumologista. “No fundo, isto é uma competência. Gosto de lhe chamar competência porque implica que a pessoa recicle e mantenha a formação numa determinada área para ser considerada especialista”, diz.

A Medicina Interna “apareceu naturalmente envolvida porque no início da epidemia os doentes VIH/SIDA estavam nas nossas enfermarias e era preciso tratá-los”. 

Reconhece que nos últimos anos têm surgido mais serviços de Infeciologia, mas não tem dúvidas em afirmar que isso tem sucedido porque “a Infeciologia se afirmou como especialidade hospitalar, sendo muito mais do que do VIH. É a especialidade das doenças tropicais e das infeções, em particular das infeções hospitalares”.

A certa altura da epidemia, “como o VIH ocupava uma grande parte das enfermarias de Infeciologia, os colegas tiveram que se adaptar, mas os infeciologistas têm um campo muito grande de atuação”.

“O VIH especificamente, enquanto doença crónica, é cada vez menos uma infeção. O mais fácil de toda a nossa consulta é o VIH. É raro o doente que, cumprindo a terapêutica,
não tenha carga viral indetetável ao longo dos anos”, salienta Teresa Branco, frisando que “a adesão ao tratamento é algo que não se pode descurar e a retenção nos cuidados de saúde um dos principais desafios da doença”.



A entrevista completa pode ser lida na edição de abril do Hospital Público.

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