«Maioria dos médicos dentistas não consegue referenciar para consulta hospitalar»

A falta de acesso à história clínica do doente é um dos problemas dos médicos dentistas dos serviços públicos, segundo Manuel Nunes, presidente da Associação Portuguesa dos Médicos Dentistas dos Serviços Públicos (APOMED-SP), fundada no final do ano passado.

“Os doentes nem sempre sabem bem que medicação estão a tomar e isso pode ter repercussões graves na sua saúde quando temos de dar uma anestesia, por exemplo”, alerta.

A APOMED-SP, criada em dezembro de 2018, tem como membros fundadores os médicos dentistas Manuel Nunes, José Frias Bulhosa e Ricardo Viveiros Cabral, estando sediada, provisoriamente, em Castelo Branco.

Melhores condições para "serviço com qualidade e segurança"

Em declarações à Just News, Manuel Nunes, professor na Universidade da Beira Interior, indica os principais objetivos da Associação, que assentam na melhoria das condições de trabalho dos médicos dentistas dos serviços públicos e numa melhor acessibilidade dos utentes.


Manuel Nunes: dificuldade na referenciação para consulta hospitalar “não faz qualquer sentido"

“Não estamos a pensar apenas nos médicos dentistas, mas sobretudo, na população, porque com melhores condições, mais facilmente se consegue prestar um serviço com qualidade e segurança”, defende.

Um dos pontos que ilustra esta afirmação do médico dentista na ULS Castelo Branco é precisamente o acesso à história clínica e aos sistemas de informação no geral. E dá um exemplo:

“A maioria dos médicos dentistas não consegue referenciar o doente para uma consulta hospitalar de Estomatologia ou de Maxilo-Facial, é preciso que a pessoa volte a marcar uma consulta com o seu médico de família – que já o tinha encaminhado para nós – e pagar nova taxa moderadora para que o colega estabeleça a interligação com o hospital.”

Uma situação que, na sua opinião, “não faz qualquer sentido, quer para o médico dentista, como para o utente".

A falta de condições não se fica por aqui. Manuel Nunes apela a uma mudança no estatuto profissional destes especialistas. “Atualmente não se pode considerar que existam médicos dentistas nos cuidados de saúde primários (CSP), porque, apesar da sua formação base em Medicina Dentária e das suas funções na área, são contratados como técnicos superiores de carreira geral, ou seja, como administrativos.”

E acrescenta: “Outros são contratados por empresas externas, obrigando à prestação de serviços com falsos recibos verdes.”

Manuel Nunes relembra que “o Ministério da Saúde aprovou a carreira especial de Medicina Dentária em novembro de 2017, estando esta a aguardar o parecer do Ministério das Finanças”.


APOMED-SP empenhada em "apostar na formação dos profissionais"

Médicos dentistas com capacidade "para se coordenarem a eles próprios"

O presidente da APOMED-SP lamenta ainda o facto de os projetos-piloto de Saúde Oral do Governo serem coordenados, sobretudo, por médicos de Saúde Pública ou de outras áreas: “Não tendo formação específica em Medicina Dentária acabam por levar a estas situações que mencionei, chegando também a adquirir materiais de consumo que já estão, por vezes desatualizados."

Assim, sublinha: "É urgente perceber que os médicos dentistas têm formação e capacidade para se coordenarem a eles próprios.”

Apesar das críticas, Manuel Nunes faz questão de frisar que a APOMED-SP está disponível para ser “parceira de todas as entidades que querem lutar por uma boa Saúde Oral nos serviços públicos”, fazendo questão de salientar também o empenho da equipa que lidera em "apostar na formação dos profissionais".


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