Oncogeriatria: ULS São João promove a Avaliação Geriátrica Global em doentes oncológicos mais velhos

A partir de 2013, altura em que começou a envolver-se na temática do cancro da mama na mulher mais velha, o cirurgião Fernando Osório procurou conhecer bons exemplos do que se fazia noutros países, acabando por chegar a uma conclusão: para conseguir desenvolver uma consulta verdadeiramente dedicada a esta faixa de doentes tão específica seria necessário formar uma equipa interdisciplinar constituída por profissionais de diferentes serviços hospitalares.

Quando, no verão de 2019, no âmbito do 60.º aniversário do Hospital de São João, o Conselho de Administração do CHUSJ, presidido na altura por Fernando Araújo, anunciou a abertura de um concurso de novas ideias, o médico do Centro de Mama – hoje Centro de Responsabilidade Integrado de Patologia Mamária – resolveu concorrer com um projeto que, no início de 2020, haveria de ser premiado.


Fernando Osório


À proposta que apresentou deu-lhe o nome de “Programa pGA > 70”, correspondendo as três letras agregadas a perioperative Geriatric Assessment. Ou seja, tratava-se de promover a avaliação geriátrica perioperatória em doentes com mais de 70 anos. A ideia consistia em criar uma estrutura que possibilitasse um apoio diferenciado, antes, durante e após a cirurgia, a mulheres com cancro da mama mais velhas e frágeis.

Obviamente, nessa altura, Fernando Osório já tinha percebido que a Medicina Interna “era a única especialidade hospitalar com capacidade para saber observar um doente na sua globalidade e, sobretudo, para implementar algo que eu já vira na literatura, a chamada Avaliação Geriátrica Global”.

De referir que o contacto que estabeleceu com a MI do hospital já se iniciara anteriormente, mas na altura em que o seu projeto recebe “luz verde” do CA para avançar, em outubro de 2020, é Jorge Almeida que dirige o Serviço de MI. E é este responsável que vem depois a entregar ao jovem internista Paulo Sousa Almeida a tarefa de montar a Consulta de Oncogeriatria, que arranca em março de 2021, apesar dos contratempos causados pela pandemia de covid-19.



Fernando Osório tem um óbvio orgulho naquilo a que o “Programa pGA > 70” deu origem e que em agosto de 2024 conheceu mais um capítulo na sua história quando o CA validou a criação formal da Unidade de Oncogeriatria, o que, para o seu coordenador, foi mais um reconhecimento da validade da sua ideia.

“A melhor decisão pode ser não operar, não fazer um determinado tratamento, ou, pelo contrário, recorrer à equipa que o Dr. Paulo Sousa Almeida lidera, para dar o suporte que uma doente precisa para fazer uma quimioterapia que é indispensável ou uma cirurgia absolutamente necessária. Um apoio de retaguarda que dê tranquilidade à doente, à família e à nossa própria equipa”, afirma.

Prevenir o denominado delirium pós-operatório, uma deterioração cognitiva que atinge particularmente a população mais velha quando é sujeita a permanecer fora do seu ambiente normal – o que acontece, por exemplo, quando ocorre um internamento hospitalar –, foi um objetivo até facilmente alcançado e que Fernando Osório faz questão de referir.

“Muitas das doentes que não queriam ser operadas, após insistência nossa, acabavam por admitir que era porque tinham medo de vir para o hospital, de sair de suas casas”, conta, adiantando que a solução encontrada foi relativamente simples:

“Passámos a implementar a cirurgia de ambulatório adaptada, em que a doente é operada de manhã cedo, faz o seu recobro anestésico e, se estiver tudo bem, a meio da tarde vai para casa. Fica depois sob a vigilância dos colegas da Hospitalização Domiciliária, cujo Serviço nos dá esse apoio de proximidade. Ou seja, anulámos o risco de delirium pós-operatório e ainda reduzimos os tradicionais internamentos.”

Perante o número crescente de casos de cancro da mama, o que está diretamente relacionado com o presente envelhecimento da população, o coordenador da Unidade de Oncogeriaria da ULS de São João salienta o facto de o programa de rastreio mamográfico promovido pelo SNS não incluir as mulheres com idade  superior a 74 anos, embora reconheça que, até muito recentemente, esse limite se situava ainda mais abaixo, nos 69 anos:

“Sabemos que o rastreio é extraordinariamente eficaz em permitir diagnosticar mais cedo uma situação de cancro da mama, o que vai possibilitar sermos mais eficazes no seu tratamento, mas ‘fechamos a porta’ a quem tem 75 ou 80 anos, está bem e vive ativamente, até, muitas vezes, a nível profissional. Não se percebe a razão pela qual essas pessoas não podem ser incluídas no programa de rastreio, sabendo-se a importância que o diagnóstico precoce tem nesta patologia.”

Nuno Teixeira Tavares, oncologista: “É transversal, na Oncologia, a convicção de que se torna necessária esta colaboração com a Oncogeriatria”

Quando Nuno Teixeira Tavares, 37 anos, concluiu o curso na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto a Oncologia já era uma das especialidades que mais o entusiasmavam. O seu interesse resultou do facto de “ser uma área onde a Ciência evolui de forma constante e muito rápida” e também “pela patologia em si, que é bastante relevante e muito frequente”.

Faz questão de dizer que foi “com muito gosto” que aceitou o desafio de ser o elo de ligação entre o seu Serviço e a Consulta de Oncogeriatria, numa fase inicial, em que ainda não havia sido formalmente criada a Unidade com o mesmo nome. Afinal, a ligação de Nuno Teixeira Tavares a Fernando Osório já existia, por via do Centro de Mama, que este cirurgião integra.


Nuno Teixeira Tavares

“O meu envolvimento relaciona-se, em parte, com a patologia que esteve na origem do projeto, o tumor da mama, cabendo-me identificar no meu Serviço doentes que pudessem vir a beneficiar deste tipo de avaliação geriátrica. Ao mesmo tempo, competia-me dar a minha visão em termos de opções terapêuticas e de prognóstico para cada caso em concreto”, explica o oncologista, esclarecendo:


“A esmagadora maioria dos doentes acaba por ser encaminhada para a Consulta de Oncogeriatria logo numa fase inicial, quando é feito o diagnóstico de tumor. Há um segundo momento importante, especificamente na Consulta do Grupo Oncológico de Patologia Mamária, quando nos confrontamos com a necessidade de tomar uma decisão terapêutica numa doente com uma idade já relativamente avançada e recorremos ao apoio da Oncogeriatria para modular essa decisão.”


E de onde mais podem surgir os casos, independentemente da patologia em causa? “Quando um doente tenha ultrapassado esses dois crivos, quando a dúvida concreta sobre a exequibilidade de um tratamento surge mais a jusante, ou até na circunstância de alguém que já seguíamos e uma recidiva da sua doença oncológica ou uma determinada progressão da mesma origina uma situação de potencial fragilidade.”

“Eu penso que, hoje em dia, na Oncologia, é absolutamente transversal a convicção de que, havendo uma grande proporção de doentes com idade acima dos 65 ou 70 anos com diagnóstico de cancro, torna-se necessário ter esta colaboração com a Oncogeriatria para podermos fundamentar as nossas decisões da melhor maneira possível”, conclui Nuno Teixeira Tavares.

De referir que os cancros da mama, colorretal e peritoneal são aqueles a que este especialista mais se dedica, tendo igualmente uma ligação estreita com a Oncogenética.




“A nossa atividade clínica tem sido muito promovida pela procura de formação em Geriatria”

Se no arranque do projeto Paulo Sousa Almeida era o único médico a assegurar a Consulta de Oncogeriatria, ao longo do ano de 2025 já pôde contar com a colaboração de Helena Hipólito Reis, interna do 5.º ano de MI: “Sendo equiparada a especialista, começou a fazer a consulta autonomamente, tornando-se possível começarmos a partilhar os doentes, o que permite, desde logo, que consigamos ter mais colegas a estagiar connosco.”


Aliás, reconhece, “a nossa atividade clínica tem sido muito promovida por esta procura de formação em Geriatria, pois, o facto de sermos pioneiros na área faz com que as pessoas queiram conhecer a nossa experiência, levando-nos a falar sobre o cancro nos adultos mais velhos em vários fóruns”.

Sendo certo que a maioria dos doentes continuam a ser mulheres com cancro da mama, a neoplasia do pulmão é já a segunda mais frequente, surgindo igualmente situações de cancro colorretal e da próstata, por exemplo, encaminhados “por colegas da Oncologia, como o próprio Dr. Nuno Teixeira Tavares, que integra a Unidade de Oncogeriatria”.

De referir que o ano de 2025 terminou com a Consulta de Oncogeriatria a registar mais de duas centenas de doentes avaliados, cerca de 90 dos quais em seguimento.


Paulo Sousa Almeida

“É muito importante sensibilizar a Oncologia e toda a comunidade médica para que o adulto mais velho seja visto de uma forma diferenciada, porque isso é uma vantagem e, principalmente, uma necessidade. Nós temos doentes que nos dizem que se sentem melhores após os tratamentos oncológicos, mesmo funcionalmente, e isso deve-se ao trabalho que realizamos na reversão e tratamento da fragilidade”, sublinha Paulo Sousa Almeida, prosseguindo:

“É preciso perceber que não é só por causa do cancro que o doente tem fragilidade, esta aparece porque há um envelhecimento patológico em curso, que nós procuramos travar com a nossa intervenção. Ele melhora após a cirurgia ou a radioterapia, mas são tratamentos bastante agressivos, com consequências que podem ser relevantes no caso de uma pessoa mais velha e frágil, nomeadamente, com deterioração funcional, cognitiva e nutricional. A nossa abordagem traz vantagens que os próprios doentes e os seus familiares acabam por conseguir observar.”


“Os doentes mais velhos têm mais risco de cancro e apresentam particularidades clínicas que exigem uma avaliação especializada, holística e individualizada”, conclui.


“Então mas vamos querer tratar só os pacientes de 40 ou 50 anos e esquecer os mais velhos?”


“O cancro é uma doença associada à idade avançada e, portanto, como a população está a envelhecer, vamos tendo, naturalmente, cada vez mais casos. A questão é que temos doentes com 70, 80, 90 e quase 100 anos com cancro da mama e não podemos usar os protocolos definidos para mulheres com 40 ou 50 anos, que são os que existem”, observa Fernando Osório, acrescentando:

“Há ainda outro problema, que se prende com o facto de estarmos a treinar os jovens médicos para a prática de uma medicina muito tecnológica, em que se pedem exames e determinados testes bastante precisos, cujos resultados são acessíveis através da consulta do processo clínico eletrónico, mas em que não têm a pessoa à sua frente. Conhecê-la muito bem, verificando, por exemplo, se é perfeitamente autónoma ou se é dependente, torna-se fundamental para decidir o que fazer em relação à sua doença.”

O cirurgião chama ainda a atenção para o idadismo, o preconceito da idade, tanto por parte do doente como do próprio profissional, quando se considera “já não valer a pena” fazer seja o que for! O desabafo é imediato: “Isso é terrível. Então mas vamos querer tratar só os pacientes de 40 ou 50 anos e esquecer os mais velhos?”


A reportagem completa pode ser lida na edição de fevereiro 2026 do Jornal Médico.

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