Ortogeriatria do CHVNG/E: Via Verde do Colo do Fémur reduz internamento e mortalidade

Um estágio no Hospital Ramón Cajal, em Espanha, mudou a vida de Rafaela Veríssimo, mas também a dos idosos com fratura da anca da região de influência do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho. A especialista em Medicina Interna e corresponsável, juntamente com o diretor do Serviço de Ortopedia, pela Via Verde da Fratura do Colo do Fémur fez, assim, parte da equipa que propôs a criação da primeira Unidade de Ortogeriatria do SNS, que haveria de arrancar em outubro de 2015.

"Particularidades que não podem ser esquecidas”

A funcionar na Unidade III do CHVNG/E, em Espinho, tem à sua disposição seis das 24 camas da Unidade de Medicina, com uma vocação geriátrica reconhecida e em que está integrada. Ali se assistem doentes idosos que sofreram fratura do fémur proximal (colo do fémur, trocantéricas e subtrocantéricas) e que precisam de cuidados especiais, tendo em conta as comorbilidades pré-existentes.

“São pessoas com 75 ou mais anos, com multipatologia (hipertensão, diabetes, problemas renais, doenças cardíacas, demência, etc.), que precisam de cuidados geriátricos”, explica Rafaela Veríssimo.



A responsável realça que “os idosos têm particularidades que não podem ser esquecidas”. Deste modo, para prevenir as possíveis complicações pós-operatórias e as associadas às várias patologias que apresentam quando dão entrada no hospital, na Unidade de Ortogeriatria aposta-se numa equipa multidisciplinar.

“Além de dispormos de internistas, ortopedista e fisiatras, temos o apoio de outras especialidades como, por exemplo, das áreas da Nutrição, da Psicologia ou da Psiquiatria, consoante as necessidades”, esclarece Rafaela Veríssimo.

A assistente social também está presente para dar resposta aos problemas socioeconómicos, até porque, muitas vezes, “é preciso dar apoio no domicílio após a alta clínica”. Também é “essencial saber se, em casa, o idoso tem barreiras que podem levar a nova queda, se precisa de produtos de apoio, se a família pode ajudar, ou se vive com pessoas também de muita idade e com uma saúde debilitada”.



Via Verde do Colo do Fémur

Tudo tem início no Serviço de Urgência, quando o idoso ali dá entrada na sequência de uma fratura do colo do fémur, uma das principais causas de morte neste escalão etário. De imediato, começa a funcionar a Via Verde do Colo do Fémur, ou seja, é feita uma avaliação do caso clínico por um internista, um ortopedista e um anestesiologista.

“Sendo necessária a cirurgia, o objetivo que se pretende é realizá-la nas primeiras 48 horas, como recomendam as guidelines”, indica Rafaela Veríssimo.

A especialista aponta ainda que, caso a recuperação pós-cirúrgica decorra sem problemas, o idoso que apresenta várias comorbilidades é encaminhado para a Unidade de Ortogeriatria.

“É uma mais-valia muito grande porque, numa equipa multidisciplinar, conseguimos resolver os mais variados problemas logo numa fase inicial, diminuindo bastante a taxa de mortalidade e melhorando o estado funcional”, afirma.

Taxa de mortalidade intra-hospitalar residual

Uma das principais vantagens deste projeto consiste, precisamente, na diminuição das taxas de mortalidade e de morbilidade, como salienta Agripino Oliveira, diretor da Unidade de Medicina – Espinho:

“Comparando com o que se verificava anteriormente, conclui-se imediatamente que, com este esquema de funcionamento, se consegue obter uma baixíssima taxa de mortalidade, com muito menos complicações.” O nível de satisfação dos doentes e dos seus familiares também é elevado, até porque, em regra, regressam mais cedo a casa.


Agripino Oliveira.

É por isso que aquele responsável não tem dúvidas em afirmar que se justifica, mais do que nunca, a existência de unidades geriátricas, que respondem assim às especificidades dos problemas apresentados pelos mais idosos. Sendo dos poucos profissionais com competência em Geriatria pela Ordem dos Médicos, Agripino Oliveira defende a criação destas unidades em todo o País, inclusive nos hospitais dos grandes centros urbanos.


Uma equipa empenhada em continuar o projeto, cujas principais vantagens são a diminuição das taxas de mortalidade e de morbilidade.

Tratamento atempado, "com uma recuperação eficaz"

Para Joaquim Lebre, diretor do Serviço de Ortopedia do CHVNG/E, a Unidade de Ortogeriatria tem representado uma enorme mais-valia no tratamento global do idoso com fratura do colo do fémur. “O tratamento destes doentes, após estabilizada a situação pelo cirurgião ortopédico, exige cuidados diferenciados que só é possível disponibilizar com a intervenção de equipas multidisciplinares, nas quais a Medicina Interna tem um papel muito importante, face às comorbilidades destas pessoas.”


Joaquim Lebre.

A criação da Via Verde e da Unidade de Ortogeriatria tem possibilitado, assim, oferecer “um tratamento atempado e de qualidade, com uma recuperação eficaz”. O médico indica que “tem permitido, inclusive, proporcionar níveis de qualidade de vida sobreponíveis à pré-fratura”.

Fazendo um rápido balanço, é com grande satisfação que o ortopedista olha para este ano e meio de trabalho:

“Estes doentes acabavam, na maioria das vezes, por sofrer com o aparecimento de escaras ou úlceras de pressão, originando, até, alguns casos de pneumonia, afetando o seu bem-estar geral e aumentando a taxa de mortalidade em casos de fratura do colo do fémur proximal na fase do pós-operatório e de recuperação.”



Redução do tempo de internamento

Quem também está muito satisfeito com os resultados da Via Verde da Fratura do Colo do Fémur e com a criação da Unidade de Geriatria é o próprio diretor do Serviço de Medicina do CHVNG/E, Vítor Paixão Dias.



“Felizmente, temos uma boa equipa, foi fácil atrair os diversos profissionais de saúde para ajudarem neste projeto. Também foi importante estarmos todos cientes das especificidades dos doentes mais velhos”, admite Vítor Paixão Dias. No seu entender, a Medicina Interna tem, inevitavelmente, um papel de destaque na equipa multidisciplinar.

“É uma especialidade que, pela sua natureza, exige olhar para o doente e não para a doença, podendo dar uma resposta mais global às necessidades das pessoas.”

E apresenta o exemplo simples de uma infeção urinária, que “pode ser controlada logo desde o início, prevenindo-se outras complicaçõe e evitando que o internamento se prolongue por causa desse quadro infecioso”.

Acrescenta ainda que, na prática, não houve custos, apenas poupança: “Não contratámos ninguém e apenas se têm gerado ganhos para o hospital e, por conseguinte, para o próprio Serviço Nacional de Saúde, com a diminuição da taxa de mortalidade, com a solução mais eficaz das complicações e com a redução do tempo de internamento.”


A reportagem completa sobre a Unidade de Ortogeriatria do CHVNG/E pode ser lida na primeira edição de Hospital Público.



Hospital Público é uma publicação da Just News, de periodicidade mensal, particularmente dirigida aos profissionais de saúde das unidades hospitalares do SNS, incluindo as de gestão privada.

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