Contos Clínicos: histórias fictícias ajudam «pessoas em sofrimento a pedir apoio psicológico»

"Levar as pessoas em sofrimento a descobrirem o potencial da Psicologia, sabendo que existe ajuda para o seu problema”. Este é o principal objetivo de “Contos Clínicos”, um projeto criado pelo psicólogo clínico Michael Dickinson.

A ideia surgiu no verão de 2018, as publicações tornaram-se regulares em janeiro de 2019. “Inicialmente não sabia muito bem o que partilhar, mas acabei por escrever uma história fictícia, com base nos sintomas de determinada patologia, e percebi como isso despertou a atenção das pessoas. Acabei por criar o site e já vou em 53 contos”, diz.

Cada conto relata o que se sente perante determinada situação clínica – depressão, perturbação da ansiedade, fobia, etc. -, "mas sem nunca se focar no psicólogo", sublinha Michael Dickinson. “O objetivo é contar uma história, permitindo à pessoa reconhecer que também precisa de ajuda".


Michael Dickinson

“Infelizmente, do que tenho visto, em Portugal não é habitual pedir-se apoio (se compararmos com o Brasil, por exemplo). Talvez porque, para muitas pessoas, o papel da Psicologia ainda não é muito claro. É com a esperança de clarificar esse papel que escrevo estas histórias."

Em suma: “No conto alguém mostra como se começou a sentir, como pediu ajuda e como melhorou após iniciar a terapia. E não há qualquer enfoque no nome ou na técnica e metodologia utilizada pelo psicólogo.” Michael Dickinson realça que “nunca gostei da ideia de um guru que acaba por criar a ilusão de que existe apenas uma maneira de ajudar”.

Pedir ajuda "sem precisar de estar num estádio avançado"

Apesar de o site acabar por ser uma forma de dar a conhecer o seu trabalho, garante que “o mais importante é saber que a pessoa vai pedir ajuda a algum profissional sem precisar de estar numa fase avançada, como por exemplo não sair de casa por causa de ataques de pânico”.

Desta forma, acrescenta, “previnem-se casos patológicos mais graves ao procurar-se apoio numa fase precoce”.

Questionado se os pedidos de consulta têm aumentado durante o tempo de pandemia, afirma que apenas tem sentido que mais pessoas querem desabafar e contar a sua história. Contudo, “nem todos dão o passo de iniciar a terapia.”

No futuro, Michael Dickinson pondera editar um livro com os vários contos, mas “ainda há tempo para pensar nisso”.



"Fascínio pela compreensão de cada caso… contando Contos"

Com formação de base em Psicologia Clínica através do ISPA-IU, Michael Dickinson conta com uma experiência heterogénea, de distintas realidades. Tendo acompanhado doentes em internamento hospitalar prolongado com doença crónica (Psicologia da Saúde), foi também formador e dinamizador de grupos e trabalho clínico em meio empresarial, bem como coordenador no acolhimento residencial para jovens e crianças em situações de risco.

Tem particular experiência na formação em desenvolvimento infantil/juvenil, implementando uma gestão de dinâmicas de grupo em contextos de elevada tensão emocional, no acompanhamento de jovens e crianças na criação de projectos de vida, na aquisição de competências de modo a lidar com situações de trauma emocional, com supervisão/intervisão regular no desenvolvimento destas funções.

Tem ainda acompanhado casos individuais em Psicologia Clínica em consultório privado. 

Contos Clínicos surge assim como "uma forma de partilhar a experiência e conhecimentos, de partilhar este fascínio pelas histórias, pela compreensão de cada caso… contando Contos".


Alguns excertos de dois contos:




Toxicidade herdada - Uma história sobre destruir tudo aquilo que se ama


Já alguma vez tiveste uma amiga que fosse uma cabra? Azeda, rancorosa, zangada, com um sorriso na cara a dizer-se boa pessoa? 
Dizem-me para não ser tão autocrítica, mas eu era essa pessoa.


Não sabia que era, claro que não. Eu sofria de uma grande mal-estar, eu queria imenso divertir-me, soltar-me e aproveitar a vida a cada momento, mas… olha, acontecia que um dia ou uma noite que começasse bem, acabava sempre num tom negativo, cansativo, sentindo-me insatisfeita.

Aos 21 anos senti-me perdida, eu ia ao ginásio, tinha o corpo como queria, sempre que partilhava fotos, tinha centenas de likes, não passava despercebida. Mas quando eu arranjava namorado, aquilo acabava sempre mal. Eles afastavam-se de mim muito zangados comigo, irritados, não queriam saber mais de mim. Isso magoava-me sempre tanto! Mas parece que acontecia sempre.

O mesmo acontecia-me com amigos e amigas, tirando uma ou duas pessoas mais próximas, parecia que não conseguia manter-me perto das pessoas por muito tempo. Comecei a aperceber-me disso e a ficar aflita, não queria ficar sozinha, não queria ser alguém de quem os outros não gostam.

Eu sentia-me vazia, sem propósito, quando gostava de alguma coisa, fartava-me depressa, não me conseguia comprometer, parecia que não sabia gostar nem das pessoas, nem das coisas a sério.

(...)

A coisa mais importante que percebi em terapia foi que estava furiosa, zangada, para além de qualquer outra zanga, com ela. Uma fúria incandescente que iria arder para sempre, viesse a água que viesse. Era assim que me sentia. Eu tinha destruído tanta coisa para lhe “fazer a vontade”!! Abdiquei de tanta coisa para não a deixar sozinha, aceitei tantas críticas aos meus amigos só para não a contrariar. Aprendi a ver defeitos em tudo para não sentir que a traía de alguma forma.

Discutimos tantas vezes depois disso, ela começou a acusar-me de ser igual ao meu pai, que a deixou, que todos a maltratam. Eu tentei explicar-me mil vezes e mais algumas, mas ela não quer ouvir, ela quer continuar naquele negrume, quer continuar a ser a “vítima” que destrói tudo à sua volta. Acredito que ela sofra com isto tudo, mas tive que me afastar pela minha sanidade.

Fui viver com umas amigas. Comecei a dar-me melhor com as pessoas. Comecei a identificar em mim quando eu ia começar a criticar, a destruir, consegui começar a travar-me. Foi tão libertador.

Comecei a ir ver o meu pai, íamos às vezes almoçar fora. Conversar, começámos a reparar os estragos. Ele não está rancoroso, isso surpreendeu-me. Ele aceitou há muitos anos que a minha mãe é como é, que não podia fazer mais nada. De facto, traiu-a, por vingança. Só se arrepende de me ter magoado. A grande tristeza que ele carregava era não ter uma relação comigo, depois de começarmos a falar ele disse que já se sentia em paz, que estava muito feliz por mim por estar a refazer a minha vida, a libertar-me daquele fado.

O conto "Toxicidade herdada" pode ser lido na íntegra aqui.


 

De olhos fechados para o abismo - Uma história sobre deixar de odiar



Nunca teria pedido ajuda. Nunca me tinha passado pela cabeça que poderia estar mal de alguma forma. A vida era assim, eu tinha bons dias e depois havia dias em que alguém fazia m*rda e estragava-me o dia. Acordava ok, na minha, vivia sozinho, depois a caminho do trabalho havia alguém nos transportes que cheirava mal, depois alguém no café que me passava à frente no balcão, depois quando entrava via que alguém tinha mandado de volta o meu email sem tratar daquilo que eu tinha pedido para tratar.

Eu não pensava nisto, não pensava em mim, como é que eu estava. Só sabia que estas coisas me irritavam imenso e não sabia propriamente como é que me sentia o resto do tempo. Namorei com uma miúda e depois outra que me diziam que eu andava sempre chateado, nem liguei, achei que era conversa para começarem a tentar mandar na minha vida, despachei-as ao fim de pouco tempo.

Naquele tempo acontecia-me uma coisa, eu nem ligava, achava que toda a gente teria alguma coisa mais ou menos assim a vir ao pensamento: quando passava por multidões imaginava que de repente um carro se despistava e batia naquelas pessoas todas, imaginava com imensos pormenores, os sons, as cores, os cheiros, chegava a emocionar-me, a querer ir ajudar, depois passava.

Dormia mal, inquieto, sempre a pensar que me tinha esquecido de alguma coisa. A minha vida não era má, era só neutra, eu achava que era mesmo assim, nunca tinha conhecido outra coisa.

Depois vi o filme, Matrix, com o Keanu Reeves, e a cena em que o patrão está a implicar com ele, mas ele só consegue olhar para o homem que limpa o vidro do outro lado da janela, ficou comigo. Estava sempre no meu pensamento. Sentia que vivia num aquário, isolado, a nadar em círculos.

Nessa altura eu transpirava imenso, tinha que escolher a roupa com cuidado para não se notarem as manchas, tinha que andar sempre com uma muda de t-shirt ou camisa, evitava abraçar as pessoas, não fosse alguém notar. Depois do filme comecei a isolar-me mais, a irritar-me mais, mas nunca parei para pensar nisso, era como se só conseguisse olhar para fora e não para dentro.

O conto "De olhos fechados para o abismo" pode ser lido na íntegra aqui.



Todos os contos podem ser lidos na íntegra em https://contosclinicos.pt/

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