Reabilitação respiratória: Otimizar a prática de exercício físico em doentes com DPOC
Apenas 2% das pessoas com indicação para reabilitação respiratória (RR), em Portugal, tem acesso a este tipo de tratamento, segundo os dados do último relatório do Programa Nacional para as Doenças Respiratórias da Direção-Geral da Saúde.
Face a esta realidade e à dificuldade sentida no acompanhamento de pessoas com doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), o Serviço de Medicina Física e de Reabilitação (MFR) e o Serviço de Pneumologia do Hospital da Senhora da Oliveira, em Guimarães, candidataram-se ao Programa de Incentivo à Integração de Cuidados e à Valorização dos Percursos dos Utentes no SNS da Administração Regional de Saúde do Norte.
O objetivo é dar início a um projeto-piloto, já em 2018, que envolva uma equipa multiprofissional – fisiatras, pneumologistas, técnicos de Cardiopneumologia, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, médicos de Medicina Geral e Familiar, entre outros –, para que se avance com um programa de RR. Nos cuidados de saúde primários (CSP) foram escolhidas, numa primeira fase, a USF Vimaranes e a USF Ponte do ACeS do Alto Ave, por terem consultas organizadas e médicos dedicados à área respiratória.
Como explica Bárbara Moreira da Cruz, diretora do Serviço de MFR, os doentes com DPOC terão a possibilidade de ser acompanhados num programa de RR no hospital, com a duração de 12 semanas.
“O ideal é poder dar resposta das 8h às 20h, para que estas pessoas possam iniciar os exercícios adequados à sua condição clínica com segurança e sob a vigilância de um fisiatra, sabendo que, em caso de agudização, têm o apoio dos colegas da Pneumologia”, refere.
No fim dessas 12 semanas todos os casos controlados são encaminhados para as USF, para o seu médico de família com prescrição de reabilitação respiratória hospitalar, para continuarem, durante mais 12 semanas, o programa de reabilitação respiratória nos CSP em equipas de reabilitação com fisioterapeutas e supervisão hospitalar (MFR e Pneumologia). Na situação de alguma complicação têm a presença na USF do médico de família e a possibilidade de contacto com o fisiatra do hospital.
Pretende-se, no futuro, que exista um intercâmbio de local de atuação entre os fisioterapeutas deste programa nos CSP e no hospital. “Com o financiamento deste projeto vai ser possível realizar algumas obras nas USF, para que se tenha um espaço onde se possa praticar exercício físico em segurança e sob vigilância”, continua.
Terminando essas semanas nos CSP, as USF ficarão responsáveis pela criação de grupos de exercício, para que as pessoas continuem a praticar, por exemplo, fazendo caminhadas à volta de casa. “Estes utentes serão monitorizados, nessa fase, através de uma pulseira eletrónica, para que, na consulta, os médicos possam perceber como está a decorrer o treino e se há sinais de alerta”, explica Bárbara Moreira da Cruz.
"Tenho a sorte de trabalhar com uma equipa fantástica, bastante competente e humana", afirma Bárbara Moreira da Cruz
Sistema wireless
A diretora do Serviço de MFR diz mesmo que “o ideal seria ter um sistema wireless, para se conseguir controlar alguns sinais vitais à distância e para se evitar o abandono da prática do exercício, que é comum por desmotivação ou por alguma exacerbação, que leva o doente a ter medo de continuar.”
Além do trabalho em equipa multiprofissional, uma das principais vantagens deste projeto, segundo a especialista, é a agilização do circuito do doente que, face à gravidade da patologia, pode transitar do hospital para os CSP, ou vice-versa, várias vezes, sem demoras. “Qualquer discrepância nos valores vai ser avaliada, de imediato, em ambiente hospitalar”, garante.
Quanto ao papel específico da MFR, Bárbara Moreira da Cruz enaltece o facto de esta especialidade ter capacidade para dar apoio na RR, mas também noutras patologias que surgem com o envelhecimento nestes doentes: “Não basta adequar os exercícios à DPOC, à medida que a pessoa fica mais velha pode vir a ter problemas de outro foro, como o musculoesquelético, que também implicam reajustes.”
Além disso, salienta, “as equipas multiprofissionais fazem todo o sentido ou não estivessem previstas nas normas de orientação clínica nacionais e internacionais, as quais indicam que só desta forma se consegue uma redução de 24% de agudizações em doentes com mais de 2 exacerbações por ano”.
Projeto importante para todo o país
Maria Manuel Figueiredo, diretora do Serviço de Pneumologia, acrescenta, por sua vez, que o projeto-piloto vai ter um enorme impacto no Alto Ave. “Não temos números locais, mas a DPOC tem uma prevalência de 14% a nível nacional e de 11,7% a nível mundial; nesta região não contamos apenas com os casos de DPOC causados pelo tabagismo, mas também com os que são desencadeados pela poluição doméstica decorrente dos fumeiros e do fogão a lenha.”

Bárbara Moreira da Cruz e Maria Manuel Figueiredo
A médica pneumologista acredita que o projeto é importante também para todo o país, face às lacunas que existem em programas de RR, podendo mesmo vir a ser replicado. “A DPOC não tem cura, mas com o exercício físico adequado os doentes conseguem viver mais anos com qualidade de vida e com menos exacerbações e menos internamentos hospitalares”, aponta.
Maria Manuel Figueiredo frisou ainda que, com esta candidatura, se pretende ter o financiamento necessário para se ter mais recursos materiais e humanos, até porque “as recomendações da DGS são no sentido de estas equipas terem vários especialistas, logo temos de contratar mais pessoas”.
Um investimento que acabaria por ter retorno, já que se iriam evitar os episódios agudos mais graves e que exigem cuidados de saúde mais diferenciados. “Estas pessoas acabam por consumir muitos recursos quando esta patologia não está controlada. Não podemos esquecer que uma simples constipação pode agravar a função respiratória, que está já diminuída, colocando em risco a sua vida”, adverte.
Como frisa ainda, ”os custos para o SNS são, assim, muito elevados, por causa dos internamentos recorrentes, acabando por ser superiores aos da contratação de profissionais".
Apesar de se começar apenas por duas USF, ao fim de 10 anos, toda a população com DPOC do Alto Ave, a necessitar de programas de RR, teria resposta no hospital e nos CSP, segundo as diretoras dos dois serviços.
Neste momento, ainda se está a aguardar para se saber se conseguem financiamento, mas tanto Bárbara Moreira da Cruz como Maria Manuel Figueiredo realçam o facto positivo de se ter reunido os profissionais para se conseguir mudar a realidade dos programas de RR na região do Alto Ave.
A reportagem completa pode ser lida na última LIVE Medicina Física e de Reabilitação, onde são igualmente entrevistados outros profissionais.


