Saúde mental: articulação no HFF «facilita a transição dos jovens para a Psiquiatria de Adultos»

É crucial apostar na proximidade entre a Psiquiatria de Adultos e a Psiquiatria da Infância e Adolescência. Esta foi a principal mensagem do 8.º Simpósio do Serviço de Psiquiatria – Departamento de Saúde Mental do Hospital Fernando da Fonseca (HFF), que decorreu em 18 e 19 de outubro, em Lisboa. Como referiu a diretora, Teresa Maia, “as duas especialidades ainda continuam, no geral, distantes, o que tem implicações para os utentes e familiares”.

No simpósio, subordinado ao tema “A pessoa em criação – Infância, Adolescência e Vida Adulta”, participaram vários profissionais de saúde com ligação a cuidados de saúde mental, quer a nível hospitalar como dos cuidados de saúde primários (CSP).


Teresa Maia

Em declarações à Just News, Teresa Maia defendeu uma maior articulação entre a Psiquiatria de Adultos e a Psiquiatria da Infância e Adolescência, com base no sucesso do trabalho desenvolvido no HFF. “Este ano foi possível criar um departamento que congrega as duas especialidades, tendo sido o corolário de um percurso que permite dar uma melhor resposta às crianças, jovens e suas famílias. Quisemos assim dar a conhecer a nossa experiência neste evento.”

A psiquiatra realçou que a proximidade entre ambas as áreas não põe em causa a sua importância. “Obviamente que cada especialidade tem a sua própria especificidade e identidade, que devem ser preservadas, mas, simultaneamente, devemos trabalhar mais em conjunto para se conseguir ter cuidados de proximidade.”

Como acrescentou: “Desta forma evita-se que a transição para a Psiquiatria de Adultos deixe de ser apenas um momento e passe a ser uma fase, um processo de continuidade.”



Apesar dos bons resultados do HFF, Teresa Maia relembrou que “os modelos a adotar dependem sempre da realidade local, nomeadamente do número de técnicos da Psiquiatria da Infância e Adolescência – que continuam a ser escassos”.

Mas, defendeu, “acima de tudo os serviços devem estar articulados nas suas várias áreas - internamento, ambulatório – para se garantir a discussão da família ao longo da vida e para se evitar que a transição para a de Adultos seja apenas um momento”.

Quem também integra o Departamento de Saúde Mental é Catarina Pereira, responsável pela Psiquiatria da Infância e Adolescência. Para a médica, este modelo faz todo o sentido. “A transição para os Adultos é muito difícil e com esta articulação e proximidade facilita-se todo esse processo”, comentou.

Na sua opinião, é também uma forma de prevenir alguns riscos associados à faixa etária entre os 15 e os 25 anos. “É nestas idades que existe uma maior emergência no que diz respeito a doenças psiquiátricas que se prolongam para a vida adulta. Sem integração corre-se o risco de se perder estes jovens que estão muito fragilizados.”



Marco Ferreira, Teresa Maia e Catarina Pereira

O sucesso do modelo de cuidados do HFF também foi enaltecido por Marco Ferreira, diretor clínico do hospital, na sessão de abertura, tendo deixado um alerta:

“Nos últimos anos fala-se muito de cuidados integrados, mas, paradoxalmente, esquecemo-nos de pensar na integração que deve existir entre os vários serviços, unidades e departamentos dentro dos nossos hospitais. É absolutamente fulcral que se aposte na articulação, mesmo sendo um enorme desafio.”



Prevenção em saúde mental é “uma questão ética”

À Just News, Teresa Maia destacou ainda o trabalho do HFF na área da prevenção. “Apostamos numa visão de saúde pública, ou seja, se os serviços são responsáveis por uma determinada região não podem ficar passivamente à espera que as pessoas vão às consultas. É preciso fazer programas de parceria com os cuidados de saúde primários, IPSS e ONG, a fim de se detetar a população de risco e se introduzir fatores protetores.”

E destacou o projeto “Semente”, apresentado no simpósio, que tem como enfoque os filhos das pessoas com doença psiquiátrica. “Além da carga genética, são crianças e jovens que tendem a viver toda essa situação de forma isolada e envolta num grande estigma, o que gera sofrimento.”

A psiquiatra disse mesmo que este tipo de intervenção é, sobretudo, “uma questão de ética”.


Catarina Pereira e Teresa Maia

Relativamente à articulação com os CSP, Teresa Maia sublinhou que “mais que a consultoria e a articulação, é necessário ter uma visão conjunta”.

Além destas temáticas, no evento falou-se ainda do primeiro episódio psicótico, de autismo e perturbação da hiperatividade e défice de atenção, das mudanças no conceito de família, comportamentos auto lesivos, encefalites autoimunes e identidade e género.


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