Serviço de Oncologia Médica do CHP é referência para quatro tipos de cancro

O Centro Hospitalar do Porto (CHP) é, desde 2016, centro de referência para quatro tipos de tumores sólidos de adultos: do testículo, hepato-bilio-pancreático, do reto e sarcomas ósseos e tecidos moles. A Just News foi até ao Hospital de Santo António conhecer o Serviço de Oncologia Médica, sob a direção de António Araújo desde março de 2014.

O especialista em Medicina Interna e em Oncologia Médica, que coordenou a Clínica de Patologia do Pulmão do Instituto Português de Oncologia, entre 2006 e 2012, e que foi diretor do Serviço de Oncologia Médica do CH de Entre o Douro e Vouga, lembra que, quando assumiu o cargo, o Serviço estava subdimensionado em termos físicos e de recursos humanos. Estava voltado apenas para dar resposta às solicitações do interior do hospital.

“O repto que me foi lançado  pelo Conselho de Administração da altura foi de o tornar uma referência a nível nacional e internacional que fosse compatível com a existência de um centro hospitalar universitário”, diz o também presidente da Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos.

No que respeita à vertente assistencial, António Araújo conta que foi possível recrutar mais médicos (hoje são 11, incluindo o próprio) e cinco internos, tendo sido feito um forte investimento na diferenciação da equipa médica.



“Criámos consultas de grupo multidisciplinar por patologia, que envolvem as especialidades médicas e cirúrgicas, que interferem ou que colaboram no seu tratamento. Abrimos o Serviço à referenciação do exterior e, hoje em dia, qualquer médico nos pode referenciar doentes”, conta.

Assim, além da Consulta de Oncologia Geral, neste momento, existem consultas de grupo de vários tipos de cancro: mama, digestivos, urológicos, hepato-bilio-pancreáticos, cabeça e pescoço, ginecológicos, sistema nervoso central, pulmão, neuroendócrinos, sarcomas ósseos, e tecidos moles.

Nestas consultas, que estão dispersas pelo CHP (por exemplo, a de Ginecologia funciona no Centro Materno-Infantil do Norte, junto à Maternidade Júlio Dinis), estão envolvidos, pelo menos, um oncologista médico, o cirurgião da área afim, a Imagiologia (na maior parte delas), a Anatomia Patológica, a Radioncologia (sempre que possível) e as especialidades afins.


Elementos da equipa do Serviço de Oncologia Médica

Atualmente, são realizadas, em média, por ano, cerca de 4600 primeiras consultas e aproximadamente 14.500 subsequentes. Dá apoio ao Serviço de Urgência das 8h00 às 20h00 e ocupa seis camas de internamento no Serviço de Medicina.

"Elevar a fasquia de exigência"

O CHP é, desde 2016, reconhecido pela Direção-Geral da Saúde como centro de referência para quatro tipos de tumores sólidos de adultos – testiculares, hepato-bilio-pancreáticos, sarcomas ósseos e tecidos moles e cancro do reto.

É, adicionalmente, membro da EURACAN, rede europeia para cancros raros de tumores sólidos em adulto. De acordo com António Araújo, este facto tem permitido ao Serviço estar ao nível dos melhores centros europeus, por “elevar a fasquia de exigência do trabalho”.

E é exatamente no âmbito das boas práticas que o Serviço realiza reuniões cujo teor incide, de forma estruturada, em três áreas. Na vertente científica, são apresentados o journal club, revisões, palestras ou trabalhos feitos pelo Serviço. A nível administrativo, são comunicados ou agregados os assuntos de âmbito administrativo (nomeadamente, os serviços de permanência, as escalas e as ordens que vêm do conselho de administração).

Por último, na área clínica, onde se inclui a Consulta de Grupo de Oncologia Médica, são discutidos os casos mais problemáticos em termos de tratamento médico de todas as áreas, "bem como os doentes internados ou que estão na urgência à espera de o serem".



Ensaios clínicos: doentes com "acesso às terapias mais avançadas"

O Serviço de Oncologia Médica do CHP realiza investigação clínica, tendo sido recrutados três coordenadores de ensaios a tempo inteiro. Neste momento, estão a decorrer múltiplos estudos de fase 2 e 3, nas áreas do pulmão, da cabeça e pescoço, da próstata, colorretal, bexiga, gástrico e do ovário.

O Serviço caracteriza-se também pela alta taxa de recrutamento que consegue para os estudos em que se envolve. “Acreditamos que a participação nos mesmos dos nossos doentes lhes garante os melhores cuidados de saúde: os médicos são auditados naquilo que fazem e os doentes têm acesso às terapias mais avançadas que existem a nível mundial”, realça António Araújo.

Ainda no que respeita à investigação, foi criado um laboratório de investigação básica, sediado nas instalações do Instituto de Genética Jacinto Magalhães, a UnIO – Unidade de Investigação em Oncobiologia, ligado ao ICBAS e onde, neste momento, colaboram alunos de mestrado e de doutoramento.



Serviço quer ser centro compreensivo de tratamento oncológico

Uma das aspirações é conseguir criar condições para ser considerado um centro compreensivo de tratamento oncológico em que, para além das várias facetas médicas e cirúrgicas da terapêutica oncológica, o Serviço possa igualmente fornecer cuidados de radioterapia e cuidados paliativos de referência também equiparados ao que de melhor se efetua atualmente.

Quer, ainda, continuar a apostar na diferenciação dos recursos humanos. O Serviço de Oncologia Médica tem vindo a exercer também alguma influência, no sentido de contribuir para a atualização do próprio centro hospitalar.

“Junto do Conselho de Administração, temos insistido na necessidade de desenvolvimento de algumas áreas, nomeadamente Pneumologia,  Anatomia Patológica e Imagiologia, para que os nossos doentes tenham exames em tempos certos e com relatórios discriminados segundo o que é necessário”, aponta.

O médico destaca que o hospital tem feito um forte investimento na área da Pneumologia, esperando-se que, a breve prazo, esteja apetrechado com um equipamento de EBUS, de modo a que se possa dar um salto na qualidade do diagnóstico da patologia pulmonar. O Serviço tem vindo também a trabalhar com o Conselho de Administração para que possa existir, a médio prazo, um aparelho de PET no hospital. 

"Não é fácil conviver com os sentimentos de morte e perda"

Para António Araújo, “a Oncologia Médica é bastante sui generis e diferente da maior parte das especialidades, porque convivemos muito com a vida e com a morte. Sempre houve a noção de que ter um cancro equivalia praticamente a uma sentença de morte. Tal já não corresponde à verdade, mas essa noção sempre se manteve até aos dias de hoje”, refere.



O médico reconhece que “muitas vezes não é fácil conviver com os sentimentos de morte e perda, o que isso implica para a família e a carga psicológica negativa que o conhecimento do diagnóstico traz às pessoas”.

Foi por acreditar que é importante “despender algum tempo da nossa vida para a sociedade” que António Araújo decidiu, há alguns anos, fundar a Pulmonale - Associação Portuguesa de Luta Contra o Cancro do Pulmão, da qual foi presidente.

Esse sentimento também o levou a caminhar na “vida política”. Há muito tempo que está ligado aos corpos dirigentes da Ordem dos Médicos, sendo, atualmente, o presidente da Secção Regional do Norte.




A reportagem completa pode ser lida no Hospital Público de março.

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