«Uma psicose não tratada é tóxica. A intervenção precoce muda a vida de doentes e famílias»

"A intervenção precoce na psicose é possível. Atualmente dispomos de armas, nomeadamente farmacológicas, cada vez mais eficazes", afirma o psiquiatra Nuno Madeira, que criou há 10 anos a Consulta do Primeiro Episódio Psicótico no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC).

Em declarações à Just News, o médico alerta para o impacto desta doença, lembrando que, "em cada ano, um em 3000 portugueses vai ter o seu primeiro episódio psicótico. Nalguns casos, será o primeiro de outros que surgem em consequência de uma patologia, sendo a mais frequente a esquizofrenia. Noutras situações, serão manifestações de diferentes doenças."

Adianta também que os primeiros períodos da doença ocorrem muitas vezes durante o ensino superior, sendo potenciados por "um conjunto de circunstâncias, como o stresse académico e, sobretudo, o facto de muitos se afastarem do seu meio sociofamiliar, o que favorece a eclosão do episódio psicótico".

Precisamente por este motivo, elementos da Psiquiatria deslocam-se semanalmente aos Serviços Médicos da Universidade de Coimbra – no âmbito da Consulta do Jovem Universitário –, onde são acompanhados estudantes com doença mental, alguns dos quais com patologia psicótica.


Nuno Madeira 

Danos colaterais para o doente

“Uma psicose não tratada é tóxica. Não só para a vida das pessoas, pois, conduz frequentemente a invalidez precoce, perda de rendimento e outros danos colaterais, mas também para o cérebro", refere o psiquiatra, que preside à Secção do Primeiro Episódio Psicótico, um grupo de trabalho integrado na Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental.

De acordo com Nuno Madeira, "há evidência de haver, de uma forma genérica, morte neuronal, nalgumas regiões maior do que noutras, grave ao ponto de se poder ver numa TAC”.

Verifica-se mesmo que "alguns doentes com esquizofrenia já com alguns anos de evolução, sobretudo aqueles que não fizeram tratamento antipsicótico, apresentam atrofia cerebral".

"A família já tinha praticamente desistido deles"

Nuno Madeira explica que, em 2010, a sua equipa decidiu realizar no CHUC um levantamento sobre os doentes que aí eram internados e os resultados foram preocupantes.

"Ao fim de um ano, apenas 40% estava em seguimento. Muitos dos outros 60% voltavam a entrar no hospital por via de internamento compulsivo, bastante descompensados", refere o psiquiatra.

Uma realidade com consequências complexas: "Os que tinham trabalho haviam-no frequentemente perdido, ou deixado os estudos. Em vários casos, a família já tinha praticamente desistido deles. Havia, portanto, muito menos a salvar, e a comparação com um processo oncológico é, infelizmente, muito válida. A doença já tinha metastizado para a sua vida."

Nuno Madeira achou então que o acompanhamento poderia ser outro se fosse possível ter uma intervenção mais atempada e marcar “de forma ágil” uma consulta a essas pessoas. E ser mais pró-ativo: “Se o doente não vem à primeira consulta, vamos tentar que venha à segunda. Ligamos, insistimos, marcamos! Persuadimo-lo a tomar a medicação, exploramos que motivos considera ter para não tomar a medicação." 

Em 2017 foi apresentada uma revisão da atividade da Consulta e verificaram que "já conseguíamos reter mais de 90% das pessoas ao fim de um ano”. No fundo, “os doentes estavam disponíveis para receber ajuda”.


Órgãos Sociais da Secção do Primeiro Episódio Psicótico: Tiago Santos, Vítor Santos e Nuno Madeira´(secretário, vice-presidente e presidente da Direção), Pedro Levy e Ricardo Coentre (presidente e secretário da Assembleia Geral)

Intervenção precoce "é um investimento que compensa”

Na sua opinião, as vantagens de uma intervenção precoce são de facto variadas e muito abrangentes, permitindo "mudar a vida de doentes e famílias".

Conforme explica: "Uma adequada intervenção na fase inicial da psicose terá como potenciais benefícios uma recuperação mais célere e evidente, com conservação de aptidões e funcionamento, suportes sociais e familiares, melhoria do prognóstico global, bem como das taxas de internamento e até redução da morbimortalidade."

Nesse sentido, destaca a importância da implementação de equipas nos Serviços de Psiquiatria e Saúde Mental que se dediquem à intervenção precoce na doença psicótica. “É um investimento que compensa”, afirma, explicando que a evidência recolhida nos países que já o fazem há alguns anos mostrou inclusive "uma clara redução de custos diretos e indiretos". 

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