Unidade de Ortogeriatria do Beatriz Ângelo otimiza resposta a idosos com fratura do fémur

São muitos os idosos que dão entrada no Serviço de Urgência do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, com uma fratura da extremidade proximal do fémur decorrente de uma queda.

Para se otimizar a resposta a estes doentes, complexos, com múltiplas patologias e várias síndromes geriátricas, exatamente há um ano, em janeiro de 2019, foi formalizada a criação da Unidade de Ortogeriatria, sob a coordenação de Lia Marques, especialista de Medicina Interna com competência em Geriatria, e Armando Pereira, ortopedista.



As mais valias de uma "abordagem multidimensional"

“Somos uma equipa interdisciplinar, envolvendo a Medicina Interna, a Ortopedia, a Anestesiologia, a Medicina Física e de Reabilitação – incluindo a Fisioterapia e a Terapia Ocupacional, a Nutrição, a Farmácia Clínica, a Enfermagem, o Serviço Social e a Gestão”, enumera Lia Marques.

Para a internista, este tipo de abordagem é a mais adequada para estes doentes, que têm uma situação clínica de elevada morbimortalidade.

“A queda e a fratura da extremidade proximal do fémur são apenas manifestações da enorme complexidade destes doentes, que têm frequentemente uma associação de várias patologias e síndromes geriátricas, como défice cognitivo, instabilidade da marcha, desnutrição, isolamento social e fragilidade. É esta complexidade e propensão a eventos adversos nefastos que exige a abordagem multidimensional e integrada de uma equipa interdisciplinar”, acrescenta.


Lia Marques e Armando Pereira

A criação da unidade permitiu "agilizar todo o processo"

A Unidade de Ortogeriatria começou por dar os primeiros passos ainda em agosto de 2018, mas apenas numa fase experimental. “O objetivo era perceber quais as necessidades da população e dos próprios profissionais de saúde, para que se conseguisse criar o circuito mais adequado”, recorda Armando Pereira.

Após algumas arestas limadas, deu-se então o arranque oficial em janeiro de 2019. Como refere, “desde 2012, quando abriu o hospital, que dávamos especial atenção a estes doentes mais complexos, tentando incorporar várias áreas, mas com esta Unidade agiliza-se todo o processo”.

E especifica: “Para um ortopedista, a fixação de uma fratura deste tipo é um procedimento habitual e simples, mas o problema é que este episódio agudo é apenas a manifestação de outras patologias pré-existentes. É fundamental envolver vários profissionais para se tratar os problemas de saúde que levaram àquela queda, caso contrário, vão voltar a cair e a situação vai piorando cada vez mais.”



Sinalizados na Urgência para avaliação multifatorial


Tudo começa precisamente na Urgência, onde se identificam e se sinalizam os doentes que devem ser acompanhados na Unidade de Ortogeriatria, que tem a sua principal intervenção já no internamento em enfermaria. “Por norma, são observados pelo ortopedista, que faz o internamento, e também por um médico internista, sendo depois feita uma avaliação multifatorial por toda a equipa da Unidade”, explica Lia Marques.

Essa avaliação não se cinge à saúde física e baseia-se na Avaliação Geriátrica Global. “São colocadas várias questões que permitem identificar problemas cognitivos e psicológicos, além de se terem em conta as condições sociais e económicas”, diz.

E continua: “Realço o papel da assistente social, que verifica se a pessoa vive sozinha, se tem apoio da família ou de terceiros, quais são as condições habitacionais e os obstáculos que podem conduzir a nova queda. Enfim, faz um diagnóstico social, já que o mesmo tem um forte impacto na recuperação.”


 “Bed is bad”


Após o internamento, o doente é operado, sempre que possível, em menos de 48 horas. “É o que está preconizado internacionalmente, embora nem sempre seja possível, por motivos de logística e de recursos humanos. Contudo, com esta Unidade, temos conseguido diminuir o tempo de espera para cirurgia”, aponta.

Cada passo dado tem em conta a máxima “Bed is bad”, como refere Lia Marques. “A avaliação multifatorial vai permitir a otimização logo no pré-operatório, não apenas para se conseguir diminuir as complicações no intra e no pós como para se iniciar a reabilitação o quanto antes.”



Outro objetivo é diminuir o tempo de internamento: “Os hospitais, como funcionam atualmente, não estão adaptados aos doentes idosos e às suas necessidades, o internamento hospitalar deve ter o tempo mínimo necessário ao tratamento da situação aguda e à definição de um plano terapêutico integrado. É particularmente importante a ocorrência de delirium durante o internamento, com uma incidência de 28 a 61% nesta população.”

“Quer o idoso, quer os seus familiares são parte integrante da nossa equipa, embora não seja nada fácil, já que o doente apresenta muitas vezes défices cognitivos e a família nem sempre aceita as suas limitações prévias, sendo necessário ajustar expectativas e traçar planos de intervenção conjuntos,” indica Lia Marques.


Uma das várias reuniões de trabalho que a equipa realiza periodicamente


A médica diz mesmo que este é um dos momentos mais difíceis: “Muitas vezes, é neste evento agudo que se confrontam com o estado de fragilidade daquela pessoa. Até aí achavam que ela não estava assim tão mal.”

"As razões por detrás da queda"

Como acrescenta o ortopedista Armando Pereira, “é muito complicado gerir as suas expectativas por acharem que tudo se resolve no hospital, mas devem entender o que realmente aconteceu, as razões por detrás da queda e as limitações a que vai ficar sujeito aquele idoso”.

Armando Pereira diz mesmo que “é a altura de pensarem que vão ter de ajudar, de ter uma participação mais ativa, para que se possa proporcionar a melhor qualidade de vida, prevenindo-se novas quedas”.



Lia Marques concorda e remata: “Na maioria dos casos são pessoas que viviam já no limite da sua estabilidade biológica e social, sem o apoio de que necessitavam, e neste momento percebe-se que essa situação vai ter que mudar.”

No momento da alta, o papel do Serviço Social e da Equipa de Gestão de Altas é fundamental, como reconhece a internista: “A pessoa não pode ficar sozinha em casa, logo é preciso acionar todos os meios necessários para que haja uma continuidade de cuidados, nunca se descurando a reabilitação. Nesse sentido, é indicada fisioterapia no domicílio, ou em ambulatório, no hospital, ou então referencia-se para a Rede de Cuidados Continuados e Integrados.”


As situações de isolamento e de fragilidade social extrema são as mais complicadas e com pior prognóstico em termos de recuperação funcional, levando muitas vezes à permanência prolongada dos doentes no hospital.


Alguns do elementos da Unidade de Ortogeratria

O principal objetivo da Unidade de Ortogeriatria é, como resume Lia Marques, “a partir de um episódio agudo, colocar em prática um plano de cuidados interdisciplinares de continuidade, que não se ficam pela Urgência e pelo Internamento”.



A reportagem completa, que inclui entrevistas com mais oito profissionais de diferentes áreas, pode ser lida na edição de janeiro do Hospital Público.

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