Opinião

A depressão está «altamente correlacionada» com maior risco de doença cardiovascular


Pedro Zuzarte

Psiquiatra. Professor de Medicina (Psiquiatria e Saúde Mental) da FMUL. Doutorado em 2019 pela FMUL com a tese “Fisiopatologia de Perturbações de Humor e Vias Comuns com Insuficiência Cardíaca”



Apesar do coração e da mente, no sentido poético e popular, serem descritos muitas vezes como tendo “vontades opostas”, do ponto de vista clínico e fisiopatológico esta ideia não podia estar mais longe da verdade. É bem conhecido que a depressão está altamente correlacionada com o aumento de risco e/ou de pior prognóstico para a doença cardiovascular.

Este dado é especialmente verdade na insuficiência cardíaca, onde a prevalência de sintomas de depressão pode chegar aos 45%. Ter depressão em comorbilidade com insuficiência cardíaca aumenta o uso dos serviços de urgência e a taxa de hospitalizações por episódios de descompensação aguda cardiovascular.

A depressão aumenta, de forma independente, o risco de mortalidade cardiovascular nesta população, além de piorar todos os seus indicadores de qualidade de vida (físicos e psicológicos).


Pedro Zuzarte

Embora estes dados sejam bem conhecidos do ponto de vista clínico, a associação entre estas patologias não está tão bem esclarecida do ponto de vista fisiopatológico.

A alta prevalência (e impacto clínico) da depressão em doentes com insuficiência cardíaca não é uma consequência estritamente atribuível a uma vulnerabilidade psicológica reativa à existência da doença cardíaca.

Existem alterações fisiopatológicas no organismo dos doentes com esta comorbilidade que contribuem para o agravamento clínico, progressão da doença e pior prognóstico, incluindo, aumento da mortalidade.

Estudos de investigação original do nosso grupo de trabalho encontraram não só uma associação significativa entre sintomatologia depressiva e biomarcadores de mau prognóstico na insuficiência cardíaca, dado já descrito na literatura, mas também uma associação entre sintomas depressivos e pior função cardíaca sistólica (fração de ejeção reduzida), evidência pouco relatada até agora.

Doentes com insuficiência cardíaca e sintomas de depressão apresentam maiores níveis de NT-proBNP e menor fração de ejeção, o que os estratifica como doentes em maior risco de progressão da doença e de mortalidade.

Enquanto outros estudos contribuíram para a clarificação das associações entre depressão e fração de ejeção, e entre depressão e NT-proBNP, de forma independente, o nosso trabalho sugere uma associação entre as três variáveis que aparentam partilhar vias fisiopatológicas interligadas com destaque para um papel mediador do NT-proBNP nesta relação.
 

Pedro Zuzarte foi um dos oradores no XIV Congresso Nacional de Psiquiatria, onde abordou precisamente o tema da depressão

É crucial não ignorar o impacto da depressão

Segundo a OMS, a depressão atinge este ano o primeiro lugar nas causas de incapacidade global (medida contabilizada através do número de anos perdidos conjugado com o número de anos vividos com incapacidade - DALY ). Paralelamente, a doença cardiovascular é a primeira causa de mortalidade a nível mundial.

É crucial não ignorar o impacto da depressão na progressão da doença cardiovascular e vice-versa. A boa prática em Psiquiatria deverá incluir nas avaliações clínicas um despiste consistente dos fatores de risco cardiovasculares e a procura da sua resolução, tal como, paralelamente, na Cardiologia, não se deverá negligenciar a existência e tratamento de sintomas depressivos se queremos melhorar o outcome de ambas as patologias.



Artigo publicado no Jornal do XIV Congresso Nacional de Psiquiatria.

seg.
ter.
qua.
qui.
sex.
sáb.
dom.

Digite o termo que deseja pesquisar no campo abaixo:

Eventos do dia 24/12/2017:

Imprimir