«A gestão da ansiedade e da depressão no hipertenso»
Daniel Rodrigues Machado
Assistente hospitalar de Psiquiatria, ULS de Braga
A depressão e a ansiedade, frequentemente comórbidas entre si, são duas das perturbações mentais mais prevalentes, com um impacto pessoal, social e de saúde pública muito significativo em todo o mundo. De facto, segundo a Organização Mundial de Saúde, a depressão é nos nossos dias o terceiro fator com maior impacto negativo à saúde, prevendo-se que poderá ocupar o primeiro lugar em 2030.
A comorbidade entre a díade depressão-ansiedade e a doença hipertensiva encontra-se também bem estabelecida. Por exemplo, sabe-se que existe uma maior prevalência de depressão entre os doentes diagnosticados com hipertensão arterial e que esta parece contribuir para o agravamento da perturbação depressiva e ansiosa. A coocorrência das duas patologias associa-se a uma menor qualidade de vida e a maior mortalidade.
Apesar da sobreposição frequente e aparente associação bidirecional entre as perturbações do foro ansioso-depressivo e da HTA, os mecanismos e as vias patofisiológicas que interligam ambas as patologias não se encontram totalmente esclarecidas.
Na verdade, considera-se que os fatores etiológicos vão muito para além de uma mera disfunção do sistema neuroendócrino e envolvem fatores genéticos, ambientais, psicológicos e até comportamentais e sociais, o que, se, por um lado, oferece um vislumbre do colorido patofisiológico do triângulo ansiedade-depressão-hipertensão, por outro, coloca um desafio clínico complexo e que obriga a uma abordagem multidisciplinar do problema.
Uma vez que a dinâmica ansiedade-depressão-hipertensão se alicerça na intersecção de vários sistemas fisiológicos, psicológicos e mentais, não é raro que nos tenhamos de socorrer do apoio de várias especialidades médicas para um tratamento adequado.
Daniel Rodrigues Machado
Aqui, não importa apenas o tratamento das patologias de base mas também tratar os problemas de saúde que surgem recorrentemente associados, tais como, por exemplo, as dissónias, com destaque para a insónia e a síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS); o excesso de peso e obesidade, e a DPOC, entre muitos outros. Naturalmente, não podemos esquecer os próprios hábitos e o contexto de vida, como o sedentarismo, o consumo de tóxicos e a qualidade da dieta, mas também a exposição à poluição, a precariedade social e laboral e o envelhecimento.
Perante a rede intrincada dos problemas descritos, é essencial que se procure uma abordagem precisa, mas com uma visão de largo espectro, de modo a tratar cada um dos problemas de forma eficaz e sem esquecer os contributos de outras áreas da saúde.
Por fim, e no que concerne à saúde mental, é essencial que se tome consciência do problema nas suas várias ramificações, o que deve incluir uma optimização da medicação antidepressiva para menorizar o seu impacto cardiovascular, um correto tratamento do sono, uma exploração do consumo de tóxicos e uma imprescindível articulação com outras áreas da Saúde.
Artigo publicado no Jornal Médico de abril, no âmbito de um Especial dedicado ao 20.º Congresso Português de Hipertensão e Risco Cardiovascular Global.


