«A Hospitalização domiciliária tem um potencial indiscutível que se encontra ainda subaproveitado»


Rita Nortadas

Coordenadora da Unidade de Hospitalização Domiciliária do Hospital Garcia de Orta



A palavra “hospital” tem origem no latim “hospes” e significa casa para hóspedes. O conceito de hospital terá surgido no século VII, sob a designação de “Hôtel-Dieu”, em Paris, e teria como missão albergar doentes, caminhantes e peregrinos.

No século XX, acompanhando a revolução tecnológica, os hospitais cresceram e proliferaram, dando lugar a grandes centros especializados e diferenciados, proporcionando à população o acesso generalizado aos cuidados de saúde e a uma Medicina de alto valor.

A melhoria das condições higiénico-sanitárias e os avanços científicos contribuíram para o aumento da esperança média de vida. O doente crónico – e, sobretudo, o doente crónico complexo – tornou-se um grande consumidor de recursos de saúde, frequentador habitual das instalações hospitalares, representando uma percentagem elevada do internamento nos serviços de Medicina Interna.

Como resposta a uma sobrelotação dos hospitais, surgiu uma série de alternativas ao internamento convencional, como os hospitais de dia, a cirurgia de ambulatório e a hospitalização domiciliária (HD).

A HD tem, como princípio base, tratar o doente agudo ou crónico agudizado que requer cuidados de nível hospitalar, mas que reúne condições para ser tratado no seu domicílio.


Rita Nortadas

A literatura descreve vantagens, como a redução das infeções nosocomiais, da síndrome confusional aguda e da desnutrição, bem como a diminuição das taxas de reinternamento hospitalar e benefício custo-efetivo.

De acordo com a experiência da nossa equipa da Unidade de Hospitalização Domiciliária (UHD) do Hospital Garcia de Orta, em Almada, a HD oferece também uma maior dedicação ao doente e/ou cuidador, desempenhando um papel fundamental na educação e na literacia para a saúde, bem como na reconciliação terapêutica.

Também no atual contexto de pandemia da covid-19, a HD tem tido um papel preponderante, contribuindo para a libertação de camas hospitalares para doentes de maior gravidade, mas também na prestação de cuidados a doentes covid no seu domicílio.

A impregnação da era digital nos novos modelos de saúde e nas UHD, nomeadamente através da telemonitorização, vem acrescentar mais-valias a este cenário, permitindo uma maior proximidade entre a equipa e o doente, maior vigilância, facilidade de comunicação e de transmissão de dados e conferindo uma maior segurança no seguimento global dos doentes.

A HD tem um potencial indiscutível na hierarquia do sistema sanitário que se encontra ainda subaproveitado, sendo expectável, por isso, o crescimento destas unidades a longo prazo. A HD demonstrou ganhos diretos e indiretos significativos para a população global, representando, para além disso, o ponto de união entre a Medicina ultramoderna e tecnológica e a Medicina humanizada e empática, que tem a capacidade de se ajustar, adaptar e respeitar as características individuais e familiares de cada pessoa doente.



Artigo publicado na edição de 29 de agosto do Jornal do Congresso de Medicina Interna, distribuído aos participantes da reunião.

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