Opinião

A imortalidade da relação médico-doente

Miguel Guimarães

Bastonário da Ordem dos Médicos

O futuro é hoje e o mundo digital renova-se diariamente para benefício de todos. Muito se tem falado do progresso digital e consequentes ganhos em saúde. A valorização das rotinas e a otimização de resultados está cada vez mais dependente do virtuosismo tecnológico. A computação cognitiva já é uma realidade. E a capacidade de colocar os computadores e a informação global ao serviço das pessoas e da Medicina, tornando-se insubstituíveis por permitirem ‘pensar’ mais longe e mais rápido, traz, naturalmente, inequívocas vantagens. Mas e o real relacionamento entre as pessoas? Como se preserva o essencial da relação entre médicos e doentes?

Numa capa da revista Time de 2011, já Lev Grossman antecipava que 2045 seria o ano em que o Homem atingiria a imortalidade. Recordava então a história de Raymond Kurzweil que, em 1965, apresentara no programa de televisão norte-americano ‘I’ve Got a Secret’ uma belíssima peça de piano. Detalhe fulcral: ninguém adivinhou que a música, aparentemente interpretada ao piano por um ser humano, era reproduzida, afinal, por um computador. Um computador que o próprio adolescente de 17 anos criara.

O futuro é hoje mas já vem a galope desde ontem. O mundo digital há muito que se tornou ‘imortal’. E vai conquistando espaço pelo seu caráter de indispensabilidade e tremendo input que traz para as ciências médicas e melhoria da vida dos doentes.



A evolução capacitou a memória digital de maiores recursos, encurtou processos, aumentou a sua qualidade e velocidade. Na área da Oncologia, por exemplo, existem até ferramentas tecnológicas capazes de observar o genoma humano e sugerir as terapêuticas mais indicadas de acordo com as especificidades de cada organismo, em conformidade com a ficha clínica individual de cada doente. A própria capacidade do cérebro humano tem vindo a desenvolver-se e os jovens têm hoje, eles próprios, uma memória e desenvolvimento neurológico mais ajustado ao mundo atual.

A tecnologia é indispensável, sim. Mas não substitui o Homem. São incontornáveis as conquistas que potenciam a capacidade de cura de um doente e a sua qualidade de vida. Mas há que adaptar essa evolução às boas práticas e associá-la à Humanização da Medicina, na otimização da saúde dos nossos doentes.

Há também o revés da medalha. No dia a dia profissional, o médico jamais pode deixar que o computador, e todos os procedimentos informáticos inerentes, fragilize a sua relação com o doente. É preciso tempo para olhar o doente que está à nossa frente, conhecê-lo, falar com ele e entender as várias dimensões da saúde e da doença, para servi-lo com o máximo de qualidade e humanismo.

Constitui missão de todos os médicos defender a humanização da medicina. Por isso também a Ordem dos Médicos se associou ao projeto de candidatura da relação médico-doente a Património Imaterial da Humanidade da UNESCO. O propósito desta candidatura, além do reconhecimento do bem cultural e social desta relação, passa por defender a relação médicodoente das ameaças a que está sujeita, resultantes de “pressões administrativas, tecnológicas, económicas e políticas, entre outras”.

Futurologia à parte no que respeita à imortalidade de pessoas ou de máquinas, há o essencial que deve ser infinitamente preservado: a Humanização da Medicina. Para que todos tenhamos uma vida melhor, mais longa... ainda que mortal.



Artigo publicado na edição de dezembro do Hospital Público.

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