A tradição formativa da USF A Ribeirinha, na Guarda

Quatro anos após a criação da USF A Ribeirinha, integrada na Unidade Local de Saúde (ULS) da Guarda, a sua coordenadora, Isabel Coelho, faz um balanço positivo da atividade até agora desenvolvida. Sendo que o seu logótipo traduz o lema “Todos diferentes… todos abertos para o futuro”, a USF tem como meta próxima a passagem a modelo B.

Maria Pais Ribeira, conhecida pela alcunha de “A Ribeirinha”, foi uma nobre portuguesa. Destacou-se por ser amante de D. Sancho I, fundador da cidade da Guarda, de quem teve oito filhos. O rei dedicou-lhe algumas canções de amor para ela cantar nas suas ausências, como aconteceu por ocasião da fundação da cidade da Guarda: “Muito me tarda o meu amigo na Guarda.”

“Sendo a Ribeirinha uma figura histórica ligada a D. Sancho, considerámos que ‘A Ribeirinha’ seria um nome adequado para a USF. Ainda que a condição de amante não seja bem vista na sociedade atual, naquela altura, era de bom-tom”, justifica a nossa interlocutora.

Isabel Coelho recorda os primeiros passos da USF A Ribeirinha. “Quando ocorreu a reforma dos cuidados de saúde primários, do então ministro da Saúde Correia de Campos, altura em que foi criado o novo paradigma de os próprios profissionais se poderem organizar, embora ainda sem autonomia total, administrativa e financeira, era coordenadora da Sub-Região de Saúde da Guarda”, relata.

Neste contexto, e estando a par do que se passava a nível nacional dentro da área dos CSP, Isabel Coelho decidiu incentivar um grupo de pessoas que pertenciam ao Centro de Saúde da Guarda a formar uma USF. Integravam o CS da Guarda 26 médicos, sendo que sete eram assistentes convidados da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior (UBI), com habilitações específicas para ministrar formação aos alunos da mesma.

“Nos primeiros anos em que funcionou este novo sistema de ensino, diferente do das outras faculdades de Medicina, houve necessidade de nos reunirmos frequentemente, até por causa dos conteúdos e da organização, para receber os alunos no centro de saúde”, lembra, adiantando que foi a partir deste núcleo de sete médicos que nasceu a “semente USF”.

Apesar de o “embrião” da USF ter surgido em 2007, a unidade arrancou apenas a 13 de julho de 2009, com oito médicos (o oitavo elemento decidiu juntar-se à equipa por vontade própria), oito enfermeiros e sete secretários clínicos. Nestes quatro anos de funcionamento, os médicos mantiveram-se os mesmos e o número de enfermeiros também, apesar de terem sido efetuadas duas substituições.

Quanto aos secretários clínicos, passaram a ser seis, já que um pediu exoneração da função pública, mas, entretanto, com a alteração do número de horas dos funcionários, chegou-se à conclusão de que as cinco horas a mais que cada um teria no seu horário já compensariam a perda do referido elemento e, desta forma, já não seria necessária a vinda de mais um.

A unidade abrange a totalidade do concelho da Guarda. “Cada médico trouxe o seu ficheiro, que incluía já utentes das aldeias limítrofes”, refere, salientando, no entanto, que o grande “bolo” de utentes pertence às freguesias urbanas. Além da carteira básica de serviços, a USF decidiu passar a realizar também colheita de produtos biológicos (sangue, urina e fezes), há cerca de um ano. A unidade abre às 7.30 h, apesar de começar a funcionar em efetivo às 8.00h, encerrando às 20.00 h.



O que mudou em quatro anos?

A responsável acredita que a criação da USF trouxe vários ganhos para o utente. Em primeiro lugar, a acessibilidade. “O utente deixou de se deslocar para a porta do CS de madrugada para tirar a senha, como acontecia nos centros de saúde tradicionais”, afirma, salientando que, em menos de um mês, a unidade conseguiu que os utentes deixassem de estar à espera antes da hora da consulta.

Isabel Coelho entra na unidade meia hora antes do início das consultas (7.30h), um hábito que criou quando ainda era apenas médica de família. A verdade é que quando chega à USF não há utentes à espera, nem sequer para a consulta aberta.

“Conseguimos mentalizar os nossos utentes para que as consultas abertas fossem pedidas, de preferência, através do telefone”, indica. Além da acessibilidade, Isabel Coelho considera que o utente também teve um ganho psicológico (não mensurável), uma vez que deixou de ter medo de não ter consulta. “Quando um utente precisa de uma consulta com urgência, mesmo que o MF não esteja, há alguém para o substituir. Nas situações em que não necessita de consulta, há sempre alguém para lhe resolver o seu problema.”

Há também ganhos de saúde difíceis de quantificar e de mensurar. “Somos uma equipa coesa que pensa o doente como um todo. Temos protocolos para as doenças mais prevalentes. Conseguimos saber tudo sobre os nossos utentes online, mesmo que estes estejam na consulta de intersubstituição”, adianta, realçando que, além de favorecerem maiores ganhos em saúde, estes aspetos propiciam também menor despesa.


Resultados satisfatórios

Isabel Coelho admite que, nos primeiros dois anos de atuação (2009 e 2010), a unidade não foi “grande cumpridora” dos indicadores contratualizados. Contudo, no terceiro e quarto anos de funcionamento conseguiu cumprir a quase totalidade, tendo até recebido incentivos em 2011 e 2012. “Em 2012, apenas não cumprimos três indicadores”, adianta, justificando que dois dos indicadores não foram alcançados a 100% devido a um problema com o equipamento que realiza as mamografias de rastreio, que fez com que fossem rastreadas menos mulheres, assim como pela saída de dois elementos de enfermagem que, posteriormente, vieram a ser substituídos.

No que respeita aos indicadores económicos, a médica de família refere que a unidade tem ficado abaixo do valor contratualizado para medicamentos. No entanto, em termos dos custos com meios complementares de diagnóstico, os valores têm-se situado ligeiramente acima.

A coordenadora menciona que talvez devido ao facto de estar um pouco isolada no interior do País (é a única USF nesta região), a unidade tem sido muito solicitada para estudos de investigação que requerem a colaboração dos utentes. “Conseguimos ter uma grande adesão por parte dos nossos utentes àquilo que lhes solicitamos.”

Em termos de satisfação, os inquéritos efetuados todos os anos revelam que 85% das pessoas estão satisfeitas ou muito satisfeitas. “Sabemos que não podemos agradar a todos, no entanto, tentamos melhorar sempre”, aponta, desenvolvendo ter havido uma melhoria muito grande quando a unidade passou a realizar as colheitas dos produtos biológicos.


Instalações à medida das necessidades

As instalações da USF A Ribeirinha são arrendadas à Santa Casa da Misericórdia, tendo sofrido uma remodelação adaptada às necessidades da unidade. Anteriormente, pertenciam ao Serviço de Ortopedia do antigo Hospital da Guarda, antes de este ser transferido para a zona do Sanatório. São vários os aspetos que diferenciam as instalações desta USF de outras unidades de saúde do País, entre os quais se destacam a existência de uma sala de tratamentos fisicamente separada da zona de consulta e de uma casa de banho na sala de consulta de saúde da mulher (construída com o objetivo de possibilitar uma maior privacidade).

A coordenadora refere que, apesar de as instalações serem suficientes para o bom funcionamento da unidade, a existência de mais um ou dois gabinetes seria uma mais-valia, sobretudo devido ao elevado número de internos que recebe. No entanto, aponta, “desta forma, não há desperdício de um único cantinho”.



Reportagem publicada no Jornal Médico de janeiro 2014

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