Opinião

Choosing Wisely: «uma importante tendência internacional»

Luís Pisco

Presidente do Conselho Diretivo da ARS de Lisboa e Vale do Tejo

Com o objetivo de reduzir o desperdício no sistema de saúde e promover a segurança dos doentes, a American Board of Internal Medicine Foundation (ABIM Foundation) lançou, em 2012, a campanha Choosing Wisely. A ideia é avaliar o que é necessário ou não para proporcionar cuidados de saúde mais seguros e efetivos.

De acordo com a ABIM Foundation, mais de 70 sociedades médicas em todo o mundo já publicaram 400 recomendações de exames e tratamentos que devem ser rediscutidos quanto à sua efetividade clínica.

Muitos países participam na campanha, como a Alemanha, o Canadá, a Inglaterra e o Japão. No Brasil desde 2015, o Choosing Wisely já tem a adesão da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) e em Espanha a Sociedade Espanhola de Medicina de Família e Comunidade (semFYC) é uma apoiante entusiasta da campanha.

Recomendações

Em artigo publicado a 2 de agosto de 2017 no jornal The Commonwealth Fund, Wendy Levinson e Karen Born comentam sobre o crescimento exponencial da iniciativa Choosing Wisely no mundo, desde o seu lançamento, em 2012.

Nesse artigo, as autoras divulgam a lista de 10 recomendações da Choosing Wisely International, numa campanha a nível mundial de combate à sobreutilização de recursos médicos.

Estas são as 10 recomendações a nível internacional:

1. Não proceda à solicitação de exames de imagem para a dor lombar nas primeiras seis semanas, a menos que sinais de alarme estejam presentes.

2. Não prescreva rotineiramente antibióticos para a sinusite aguda leve a moderada, a menos que os sintomas durem sete dias ou mais, ou os sintomas piorem após uma melhora clínica inicial.

3. Não use benzodiazepinas ou outros sedativos-hipnóticos em idosos como primeira escolha para a insónia, agitação ou delírio.

4. Não mantenha terapia com inibidores de bomba de protões a longo prazo para sintomas gastrointestinais sem uma tentativa de os suspender ou reduzir pelo menos uma vez por ano, na maioria dos doentes.

5. Não realize imagens cardíacas de esforço ou estudos não-invasivos avançados na avaliação inicial de pacientes sem sintomas cardíacos, a não ser que marcadores de alto risco estejam presentes.

6. Não use antipsicóticos como primeira opção para tratar sintomas comportamentais e psicológicos da demência.

7. Não realize exames pré-operatórios de rotina antes de procedimentos cirúrgicos de baixo risco.

8. Não use antimicrobianos para tratamento de bacteriúria assintomática em adultos mais velhos, a menos que existam sintomas específicos do trato urinário.

9. Não utilize sondas vesicais para incontinência, conveniência ou monitorização em pacientes com doença não-crítica.

10. Não realize testes de imagem cardíaca de esforço como parte do seguimento de rotina em doentes assintomáticos.



A SBMFC disponibilizou 25 recomendações clínicas aos seus associados, que votaram as que acharam mais relevantes. Entre elas:

1. Não fazer de rotina PSA ou toque retal para rastrear cancro da próstata
2. Não prescrever inibidores de bomba de protões continuamente
3. Não solicitar exame de vitamina D em adultos de baixo risco
4. Não solicitar exame de sangue anual de rotina, exceto se indicado pelo risco individual
5. Não prescrever antibióticos para infeções respiratórias superiores, que têm alta probabilidade de ser virais.

A Sociedade Brasileira, à semelhança da Sociedade Espanhola, pretende produzir recomendações administrativas que, para quem trabalha nos cuidados primários, são muito importantes e interessantes.

Não têm evidência científica como as recomendações clinicas, mas são indicações administrativas elaboradas a partir de consenso do que ‘não devemos fazer’. O semFYC elaborou este ano recomendações sobre “o que não fazer” no Serviço de Urgência.

É uma importante tendência internacional que visa proporcionar cuidados de saúde mais seguros, efetivos e eficientes e, por isso, deve merecer a nossa especial atenção.




Artigo publicado na edição de dezembro do Jornal Médico.

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