Comunidades adormecidas: a urgência de empoderar para um sono saudável


Pedro Melo

Doutor em Enfermagem Professor adjunto na Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Porto



Dormir é uma necessidade humana básica. Sabemos que influencia o crescimento, a aprendizagem, a memória, a regulação emocional, a saúde mental e o bem-estar geral. Apesar disso, o sono continua frequentemente remetido para o espaço privado das pessoas, como se fosse uma questão estritamente individual e dependesse apenas da vontade de quem se deita à noite.

Mas será mesmo assim?

Quando uma criança chega à escola cansada, sonolenta ou com dificuldade de concentração, a tendência é procurar explicações centradas nela própria. Falamos dos seus hábitos, do tempo passado em frente aos ecrãs ou da sua rotina antes de adormecer. Embora estes aspetos sejam importantes, esta perspetiva pode ser insuficiente. Na verdade, poucas decisões relacionadas com o sono infantil são tomadas pelas próprias crianças.

São os adultos que definem horários, organizam rotinas familiares, regulam o acesso aos dispositivos eletrónicos, escolhem atividades extracurriculares e estabelecem prioridades no dia a dia. É também a escola que influencia ritmos, exigências e oportunidades de educação para a saúde. Por isso, o sono das crianças é muito mais do que um comportamento individual: é o resultado de dinâmicas familiares, organizacionais e comunitárias.

Esta constatação tem emergido com particular relevância num projeto de investigação que estamos a desenvolver no âmbito do MAIEC Lab, integrado no RISE-Health, na Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Porto. O estudo procura compreender de que forma a utilização do Modelo de Avaliação, Intervenção e Empoderamento Comunitário (MAIEC) pode contribuir para a promoção da higiene do sono em comunidades escolares do 1.º ciclo do ensino básico.

Os dados recolhidos até ao momento conduzem-nos a uma reflexão importante: embora existam aspetos a melhorar nos conhecimentos e comportamentos das crianças, as principais fragilidades parecem localizar-se ao nível da própria comunidade escolar. Encontrámos défices de conhecimento em áreas específicas da higiene do sono, ausência de experiências formativas prévias, dificuldades de comunicação sobre a temática, fraca perceção de estruturas organizativas existentes e reduzido reconhecimento de parcerias que apoiem a promoção da saúde nesta área.

Curiosamente, a maioria dos participantes reconhece que o tema é importante e demonstra vontade de se envolver. O problema não parece ser a falta de interesse, mas a ausência de oportunidades, recursos, estratégias e estruturas que permitam transformar essa motivação em ação.
 

Esta diferença é fundamental.

Durante décadas, a promoção da saúde desenvolveu-se frequentemente através de intervenções centradas nas pessoas individualmente ou centradas nas crianças em sessões de intervenção formativas, sem robustez diagnóstica. Ensinar, informar e sensibilizar constituíram estratégias predominantes. Contudo, quando os problemas de saúde têm origem em determinantes sociais, culturais e organizacionais, a informação, por si só, raramente produz mudanças sustentadas.

O sono é um excelente exemplo desta realidade.

Uma criança pode saber que não deve utilizar um telemóvel antes de dormir. Pode compreender que necessita de um determinado número de horas de sono. Pode até identificar comportamentos favoráveis ao descanso. No entanto, dificilmente conseguirá traduzir esse conhecimento em ação se a sua família não estiver sensibilizada para o problema, se as rotinas domésticas forem incompatíveis com horários adequados de descanso ou se a própria comunidade escolar não reconhecer o sono como uma prioridade de saúde.

É precisamente aqui que o conceito de empoderamento comunitário assume particular relevância.

Empoderar uma comunidade não significa apenas transmitir informação. Significa criar condições para que as pessoas se organizem, identifiquem problemas, mobilizem recursos, desenvolvam lideranças, estabeleçam parcerias e participem ativamente nas decisões que afetam a sua saúde. Significa passar de uma lógica em que a comunidade é destinatária das intervenções para uma lógica em que a comunidade é protagonista da mudança.

No contexto escolar, esta transformação implica olhar para docentes, não docentes, pessoas encarregadas de educação e crianças como parte de um mesmo sistema. Significa compreender que a promoção do sono saudável não depende exclusivamente da criança que se deita, mas também da comunidade que a acompanha todos os dias.

Talvez por isso seja tempo de alargar a pergunta que habitualmente fazemos. Em vez de questionarmos apenas como ajudar as crianças a dormir melhor, talvez devamos começar a questionar como ajudar as comunidades a otimizar o sono das suas crianças.

Num momento em que a saúde mental infantil ocupa um lugar cada vez mais central nas agendas de saúde e educação, esta reflexão parece particularmente pertinente. Porque antes de falarmos de diagnósticos complexos, terapêuticas inovadoras ou programas especializados, existe um determinante essencial que continua muitas vezes esquecido: a qualidade do sono.

E talvez a maior lição seja esta: mais do que crianças que precisam de aprender a dormir, encontramos frequentemente comunidades que precisam de despertar. A Enfermagem em geral e particularmente a Enfermagem de Saúde Comunitária e de Saúde Pública, a Enfermagem de Saúde Familiar, a Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica e a Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica unidas podem ser imprescindíveis para o concretizar.

Porque, quando uma criança não dorme, a questão raramente é individual. A qualidade do sono é um produto social, organizado comunitariamente e sustentado pelas decisões dos adultos que a rodeiam.

Imprimir


Próximos eventos

Ver Agenda