Opinião

Demências: O papel da Clínica Geral

Vítor Oliveira

Presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia. Professor da FMUL

Vítor Oliveira
Presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia. Professor da FMUL.

As demências correspondem a entidades clínicas associadas aos grupos etários mais avançados.

A sua incidência e prevalência aumentam acentuadamente com a idade, com nítida inflexão a partir da sétima década de vida. Aqui, também as comorbilidades aumentam, pelo que se torna comum a associação com diabetes mellitus, hipertensão arterial, dislipidemia, patologia cardíaca, vascular cerebral e aterosclerose generalizada, as quais têm influência no funcionamento cerebral.

Igualmente se verifica, nestas idades, um declínio cognitivo e modificações do comportamento que se consideram normais.

Surge assim uma dificuldade na abordagem destas pessoas, pois, existe muitas vezes uma continuidade entre o declínio cognitivo considerado “normal” para a idade e o início de um processo demencial.

A fronteira é imprecisa, pois, um processo de envelhecimento dito “normal” para um indivíduo pode ser bastante diferente de outro. As comorbilidades atrás enunciadas pesam significativamente na balança da deterioração cognitiva. Mais ainda: vários fatores sociais podem levar a situações de depressão.

A depressão é frequente e pode resultar de fatores sociais envolventes: isolamento resultante de viuvez, abandono pelos filhos, morte de outros familiares ou do seu círculo de amizades, dificuldades de autonomia motora de causa osteoarticular própria da idade, etc.

Estas últimas podem levar a que um idoso fique isolado, como que preso na sua própria casa, se habitar num andar sem elevador, tornando penoso ou mesmo impossível utilizar as escadas.

O nível de escolaridade e de atividade intelectual são importantes, pelo que não se deve ignorar este fator na avaliação do doente idoso. Sabe-se que pessoas com maior escolaridade e um nível de atividade intelectual mais elevado estão mais resguardadas da deterioração cognitiva, sendo por isso recomendável a sua estimulação.

Sabemos, também, do baixo nível de escolaridade da nossa população idosa, o que dificulta ou mesmo impossibilita esta via.

É, por isso, difícil ao médico de família lidar com estas situações e separando as que são próprias de um envelhecimento normal das de um processo de demência em início.

A abordagem destas situações implica não só a avaliação clínica global como também da estrutura social em que o doente se insere, sem descurar a estrutura psíquica.

A avaliação neuropsicológica é útil em caso de dúvida, pois, permite a avaliação das múltiplas funções cognitivas e também confirmar a presença de uma depressão, a qual, se tratada, pode melhorar muito a situação.

Finalmente, é de salientar que os casos atípicos devem merecer uma avaliação mais aprofundada, a qual deverá ser feita por um neurologista.



Artigo publicado na edição de julho do Jornal Médico.

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