«Dez anos da Secção de Intervenção Precoce na Psicose : intervenção precoce, continuidade e futuro»
Luís Madeira
Presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM)
Assinalar os dez anos da Secção de Intervenção Precoce na Psicose da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental é mais do que recordar uma data institucional. É reconhecer um percurso coletivo que ajudou a transformar a forma como pensamos, organizamos e defendemos os cuidados em saúde mental para pessoas em fases iniciais de doença psicótica.
A criação desta Secção, então com outra designação, foi oficializada na Assembleia-Geral do Congresso Nacional de Psiquiatria, em novembro de 2016. O seu primeiro Encontro enquanto Secção realizou-se em junho de 2017, em Coimbra, embora tenha sido designado como 3.º Encontro Nacional de Intervenção Precoce na Psicose, em continuidade com duas iniciativas anteriores que já tinham reunido profissionais em torno desta área.
Esse detalhe histórico é significativo. A Secção nasceu formalmente em 2016, mas emergiu de uma dinâmica científica, clínica e humana que a precedia. Nasceu porque já existia uma comunidade de profissionais empenhada em melhorar respostas, criar conhecimento e afirmar a importância da intervenção precoce.
Ao longo destes dez anos, a SIPP contribuiu para consolidar em Portugal uma área fundamental da Psiquiatria contemporânea. A intervenção precoce na psicose trouxe para o centro da prática clínica uma evidência decisiva, o tempo importa. Importa o tempo que decorre entre os primeiros sintomas e o acesso a cuidados especializados.
Importa a qualidade do encontro inicial com os serviços. Importa a forma como se escuta o sofrimento da pessoa e da família. Importa a capacidade de oferecer tratamento sem reduzir a pessoa ao diagnóstico. Importa, também, construir respostas que preservem projetos de vida, vínculos, estudo, trabalho e participação social.
Esta perspetiva tem obrigado a Psiquiatria a mudar a forma como via a psicose, que deixou de ser pensada apenas a partir das suas formas estabelecidas ou das suas consequências crónicas. Passou a ser compreendida também no seu início, na sua vulnerabilidade, na sua incerteza clínica, no seu impacto biográfico e familiar.
A intervenção precoce não é apenas uma estratégia terapêutica. É uma posição ética e organizacional. Afirma que o sofrimento mental grave deve ser reconhecido cedo, acompanhado com competência e tratado com esperança realista. Afirma que as trajetórias podem ser modificadas quando os serviços são acessíveis, integrados, diferenciados e atentos à singularidade de cada pessoa.
A história da SIPP é, por isso, inseparável da história de muitos profissionais que, em diferentes contextos do país, foram permitindo criar investigação, formação e espaços de debate. Os Encontros Nacionais de Intervenção Precoce na Psicose tornaram-se momentos importantes dessa construção. Permitiram partilhar experiências, aproximar equipas, discutir modelos assistenciais, atualizar conhecimento científico e manter viva uma comunidade clínica exigente e colaborativa.
O 11.º Encontro Nacional de Intervenção Precoce na Psicose, que tem lugar nas Caldas da Rainha, inscreve-se nessa mesma trajetória. A inclusão, nesta revista, de artigos assinados por palestrantes do Encontro reforça a ligação entre memória institucional e reflexão científica atual. Celebrar dez anos não significa apenas olhar para trás. Significa perguntar que respostas queremos construir para a próxima década.
Luís Madeira
Os desafios na psicose persistem e vão desde desigualdades no acesso a cuidados especializados à duração do episódio não tratado. A articulação entre cuidados de saúde primários, serviços de urgência, psiquiatria comunitária, pedopsiquiatria, famílias, escolas e estruturas sociais precisa de ser aprofundada. A transição entre adolescência e idade adulta continua a exigir modelos mais flexíveis.
A integração de intervenções psicossociais, psicoterapia, apoio familiar, reabilitação, estratégias digitais e cuidados culturalmente competentes permanece essencial. Ao mesmo tempo, a investigação deve continuar a ajudar-nos a distinguir risco, vulnerabilidade, sofrimento transitório e formas iniciais de doença, evitando tanto o atraso terapêutico como a medicalização precipitada.
Como presidente da SPPSM, quero sublinhar o reconhecimento da Sociedade pelo trabalho desenvolvido pela SIPP ao longo destes dez anos. A Secção representa uma das expressões mais relevantes da vitalidade científica e clínica da nossa Sociedade. Mostra como uma área específica pode gerar formação, investigação, reflexão ética e melhoria concreta dos cuidados. Mostra, também, que a Psiquiatria portuguesa tem capacidade para criar comunidades profissionais comprometidas com a inovação responsável e com a defesa dos doentes e das suas famílias.
Que esta edição especial da LIVE Psiquiatria seja, por isso, um gesto de memória e compromisso futuro. Memória de um percurso iniciado antes da formalização da Secção e consolidado desde 2016 e compromisso com o futuro da intervenção precoce na psicose em Portugal, para que cada pessoa em início de doença possa encontrar, no momento certo, cuidados competentes, próximos e humanamente significativos.
Nota: Este artigo de opinião de Luís Madeira foi publicado na LIVE Psiquiatria e Saúde Mental - Especial 10 anos SIPP-SPPSM maio 2026.


