Eczema atópico: desmistificar conceitos para facilitar a abordagem diagnóstica e terapêutica

Na opinião da alergologista do Centro Hospitalar de Setúbal, é, portanto, “fundamental que estes profissionais saibam acompanhar os doentes com eczema atópico até porque, às vezes, com as medidas mais básicas, consegue alcançar-se o bom controlo das manifestações”. Igualmente importante é que os doentes sejam educados sobre os cuidados essenciais de higiene e hidratação da pele.

O problema, aponta a especialista, é que, por falta de informação, são, frequentemente, instituídas medidas desnecessárias na abordagem do eczema atópico. Referindo-se a algumas restrições alimentares impostas aos doentes, Elza Tomaz entende que, na maior parte dos casos, tal não se justifica. Aliás, essas medidas só se aplicam quando há alguma IgE especial, porém, “isso só ocorre numa pequena percentagem de doentes”.

Com o objetivo de desmistificar estes e outros conceitos em torno do tratamento da patologia alérgica, “temos de assumir o papel de esclarecer os colegas da MGF sobre as medidas que são realmente benéficas e aquelas que, de facto, não se
justificam”.

Relativamente ao diagnóstico do eczema atópico, Elza Tomaz reconhece que, geralmente, é muito simples de confirmar a presença da doença, “sobretudo quando há história familiar de patologia alérgica ou quando a criança surge com outra situação de atopia coexistente, nomeadamente, uma rinite alérgica”.

Ainda assim, “havendo dúvidas, a referenciação é a solução mais segura”. O mesmo deve acontecer quando, face à implementação de terapêutica adequada, o doente não responde.

Em qualquer uma destas circunstâncias, justifica-se que a avaliação do doente seja feita no contexto da Alergologia, pelo que
cabe ao médico de família referenciar o seu doente para uma consulta da especialidade.

A articulação entre os dois níveis de cuidados “depende de fatores locais”, todavia, tendo em conta a experiência pessoal de Elza Tomaz, no Centro Hospitalar de Setúbal, “o tempo médio de espera por uma consulta de Alergologia é de 34 dias, o que me parece bastante razoável”. Além disso, acrescenta, “temos também um modelo de contacto telefónico perfeitamente programado. Contudo, não sei se esta realidade pode ser generalizada a outras regiões do país”.

Apesar do importante papel que os profissionais dos CSP podem desempenhar no diagnóstico e tratamento dos doentes com eczema atópico, Elza Tomaz considera que há ainda outros critérios de referenciação:

“Penso que não deverão ficar encarregues de um doente que precisa de tratamento sistémico frequente. Uma coisa é o doente necessitar dele uma vez por ano, para controlar uma agudização, aí não me parece grave que seja o MF a controlar a evolução
do problema. No entanto, nos doentes que precisam de tratamento sistémico mais frequente, deve haver intervenção do alergologista.” Nestes casos, o MF deve referenciar, até porque “a abordagem de um doente com este perfil implica a utilização de terapêutica imunossupressora, nomeadamente, os inibidores da calcineurina”.

Por outras palavras, “desde que o doente seja controlado com cuidados gerais, como a hidratação, com corticoides tópicos, ou seja, terapêutica local, com um recurso eventual a corticoide sistémico, pode ser acompanhado nos CSP. Os casos que exigem outros tipos de cuidados devem ser referenciados, sobretudo se houver suspeita de alergia alimentar, que implique avaliação específica, ou
alergia respiratória, que exija terapêutica continuada.


A referenciação para a especialidade não significa, contudo, que o MF “perca o rasto do seu doente”. Muito pelo contrário, “idealmente, depois de devidamente controlado, na Alergologia, o doente deve retornar aos CSP com o respetivo plano terapêutico”, sublinha Elza Tomaz.

Este retorno nem sempre é simples, “não por culpa da Alergologia, mas sim dos CSP, pois, não são raros os casos em que o doente deixa de ter MF ou é encaminhado para uma consulta de recurso pela qual tem de esperar muito tempo”. Ora, face à dificuldade de resposta por parte dos CSP, muitos destes doentes acabam por voltar à Alergologia, pois, precisam de terapêutica que deve ser prescrita com regularidade.

Imprimir



Siga-nos no Instagram