Hospital de São João: Especialistas vocacionados para prestar apoio aos doentes autoimunes

Carlos Dias coordena a Unidade de Doenças Autoimunes do Hospital de São João/CH de São João, no Porto, integrada no Serviço de Medicina Interna, dirigido por Paulo Bettencourt. O internista destaca a importância de ter um grupo de especialistas vocacionados para tratar as patologias autoimunes, sublinhando que, dada a diferenciação, trata-se de médicos que estarão melhor preparados para tratar estes doentes.

De acordo com Carlos Dias, tudo começou há cerca de 10 anos, com a criação de uma Consulta de Doenças Autoimunes, que era feita pelo próprio e por outro médico e que, nessa época, decorria dentro da Consulta de Medicina Interna.

No ano seguinte, o Grupo de Doenças Autoimunes, integrado no Serviço de Medicina Interna, conseguiu autonomizar-se, tendo passado a ter uma consulta própria, integrada na Unidade de Doenças Autoimunes. A partir daí, passou a ter um registo informático, que permite ver doentes na Consulta de Medicina Interna com patologia autoimune e registá-los como doentes de Medicina Interna.


Segundo Carlos Dias, a principal missão desta Unidade é prestar apoio aos doentes autoimunes na Consulta Externa. Além disso, faz investigação científica, estando integrada em alguns ensaios clínicos, sobretudo na área do lúpus. “São selecionados alguns centros do país para fazer estudos multicêntricos internacionais”, conta.

“Estes ensaios têm de ser desenvolvidos por centros com determinadas características“, acrescenta, desenvolvendo que é necessário ter laboratórios de apoio adequados, um requisito que é cumprido pela Unidade: “Temos um laboratório de Imunologia muito bom no hospital e, além disso, uma relação muito boa com a Imunologia Clínica e isso é fundamental”.



A formação é outra das apostas da Unidade de Doenças Autoimunes. “Além dos internos que frequentam a consulta diariamente, há internos que são estimulados a ir para o estrangeiro para fazer mestrados, doutoramentos e para continuar a sua formação”, indica. 

“Semanalmente, temos cerca de 10 internos de formação contínua. Alguns mantêm-se na consulta mais tempo e outros estão por períodos mais curtos (três ou seis meses)”, relata.



Coordenação com outras especialidades do hospital

Outra das missões da Unidade é ter uma boa coordenação com as outras especialidades do hospital e apoiá-las. Tem uma reunião semanal, que decorre na biblioteca do Serviço de Medicina Interna, à sexta-feira, com várias especialidades do hospital, na qual são discutidos os doentes da consulta, incluindo a Imunologia Clínica.

Nesta reunião, estão presentes os médicos da consulta e os internos e os doentes são apresentados aos vários especialistas. “Alguns estão presentes regularmente, como é o caso da Imunologia Clínica, da Estomatologia, da Hematologia Clínica e da Oftalmologia. Outros vão conforme os casos”, indica Carlos Dias.

Há um conjunto de gabinetes na zona da Consulta Externa que se destinam à Consulta de Medicina Interna/Doenças Autoimunes. As consultas decorrem dois dias por semana, sendo que em cada dia há três especialistas responsáveis pela realização das mesmas.

Existem depois duas consultas de grupo: uma de Gravidez e Doença Autoimune e outra de Nefrologia, que se destina aos doentes com patologia do rim, onde está presente um nefrologista, um internista e um reumatologista.

Em média, são vistos cerca de 250 doentes por mês na consulta, ou seja, são aproximadamente 2 mil doentes por ano. As patologias mais frequentes na consulta são o lúpus, a síndrome antifosfolipídica, a doença de Behçet e as uveítes. Há, por outro lado, doenças raras, como é o caso de uma patologia de Oftalmologia – a doença de Harada –, e determinadas síndromes, imunodeficiências e vasculites.

Os doentes que necessitam são internados na Medicina Interna, preferencialmente em camas do especialista da consultam não existindo camas adstritas à patologia autoimune.



Diferenciação no tratamento das doenças autoimunes

Questionado acerca dos aspetos mais positivos da Unidade, Carlos Dias salienta o facto de ter um grupo de especialistas mais vocacionados para tratar estas patologias e que estão melhor preparados para tratar estes doentes. Na sua opinião, mais do que a visão do internista, a grande mais-valia é a sua diferenciação no tratamento das doenças autoimunes.


“Se eu puser um especialista do nosso Grupo a tratar um doente com uma vasculite e num outro hospital colocar um internista que não tem esta vocação, provavelmente, o nosso
doente é melhor tratado”, aponta. A boa relação com as outras especialidades e com os médicos de clínica geral é outro dos pontos fortes da Unidade.

Além disso, a referenciação interna e através dos centros de saúde funciona “muito bem” e também sem problemas. Apesar de referir que não existem dificuldades de maior na Unidade, Carlos Dias considera que “o ideal seria poder ter meios económicos para apoiar mais os internos”.




Reportagem publicada no Jornal do 14th Medinterna International Meeting, reunião que se realizou de 4 a 6 de fevereiro, na Fundação Dr. António Cupertino de Miranda. 

Imprimir