Opinião

Estimulação cognitivo-motora na demência

Cláudia Dias

Enfermeira especialista em Reabilitação na UCC de S. Mamede Infesta, ULS de Matosinhos. Pós-graduada em Gerontologia e em Ventilação não Invasiva

Cláudia Dias
Enfermeira especialista em Reabilitação na UCC de S. Mamede Infesta, ULS de Matosinhos. Pós-graduada em Gerontologia e em Ventilação não Invasiva

A demência é uma doença complexa e incapacitante que afeta os domínios psicomotores, emocionais e comportamentais. Os sintomas cognitivos associados estão relacionados com alterações na estrutura cerebral, nomeadamente a atrofia, o aumento ventricular e a redução do peso cerebral, que, por sua vez, tem maior impacto sobre o comportamento e a cognição.

As alterações funcionais manifestam-se por distúrbios na linguagem, o não reconhecimento de objetos, alterações na memória, na dificuldade em funções executivas e também na dificuldade de execução de atividades a nível motor.

O aumento da prevalência da demência na população coloca novos desafios aos enfermeiros de reabilitação, que são confrontados diariamente com as dificuldades em implementar planos de recuperação funcional e de treino no domínio dos autocuidados/AVD a utentes que apresentam como diagnóstico secundário demência.

O enfermeiro de reabilitação, pelo seu perfil de competências, posiciona-se como um profissional capaz de compreender o impacto que as alterações cognitivas e funcionais acarretam nas AVD e capaz também para intervir a nível da abordagem não farmacológica na demência.

O valor clínico da abordagem não farmacológica na demência é um conceito emergente. Consensualmente, existe a recomendação para a implementação de técnicas de estimulação cognitiva e motora, principalmente nos casos de demência em estádio leve a moderado. As técnicas de estimulação cognitiva têm como objetivo a melhoria da função cognitiva, promovendo o envolvimento em atividades que almejam o aprimoramento geral cognitivo e de socialização.

A introdução da estimulação motora tem como objetivo geral a prevenção e/ou a minimização de défices ou incapacidades que possam alterar a funcionalidade da pessoa. Apesar da evidência crescente relativamente à estimulação motora na demência, a sua implementação é ainda escassa.

Na Unidade de Cuidados na Comunidade de S. Mamede Infesta, enfermeiros de reabilitação e enfermeiros de saúde mental, de forma inovadora, trabalham em parceria, tendo por foco central o utente com demência na sua esfera familiar e social. São implementados planos individuais de técnicas de estimulação cognitivo-motora integrados nas rotinas dos utentes, com a colaboração dos prestadores, que têm como objetivo minorar o impacto causado pela demência nas relações familiares e sociais, melhorando a qualidade de vida.

As intervenções da Enfermagem de Reabilitação nos utentes com demência podem incluir o treino do prestador de cuidados nas AVD, com a reorganização e a simplificação das rotinas; a promoção de um ambiente físico seguro; exercícios de coordenação motora para a facilitação dos autocuidados, tais como a alimentação, higiene e marcha; treino de equilíbrio e flexibilidade; exercícios e técnicas para a redução da espasticidade, da rigidez e facilitação de movimentos; treino de deglutição; reeducação respiratória e métodos de relaxamento.

Os ganhos demonstrados por esta parceria de cuidados entre a Enfermagem de Reabilitação e a Enfermagem de Saúde Mental na abordagem não farmacológica na demência evidenciam a melhoria da motricidade fina, o aumento da mobilidade, a melhoria do equilíbrio, a redução do número de quedas e o atraso do declínio funcional dos pacientes.



Artigo publicado na edição de fevereiro do Jornal Médico.

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