Opinião

Futuro das crianças: dever de cidadania

José Carlos Cabral Peixoto

Coordenador da Comissão Regional da Saúde da Mulher Criança e Adolescente (CRSMCA) da ARS Centro. Pediatra consultor da Unidade Coordenadora Funcional (UCF) do HP-ACES Baixo Mondego e Pinhal Interior Norte.

Novas morbilidades. Prevalência

Desde o final do século passado, a saúde da criança e a morbilidade infantil modificaram-se. A prevalência elevada das infeções e da doença aguda foi sendo superada por novas morbilidades, situando-se a doença crónica e os problemas do comportamento no vértice das preocupações atuais. Calcula-se que uma em cada quatro crianças e adolescentes sofra ou esteja em risco de desenvolver alguma perturbação de saúde mental.

Ciência

Descobertas recentes mostram que a exposição precoce e prolongada a situações adversas intensas, designadas como stress tóxico, tais como a pobreza extrema, caos familiar, abuso físico ou emocional recorrente, negligência crónica, abuso de substâncias ilícitas, exposição repetida à violência na família ou na comunidade e especialmente a depressão materna e parental persistente, compromete a maturação do córtex pré-frontal, do hipocampo e de outros sistemas neuronais responsáveis pelo desenvolvimento das funções executivas e da autorregulação.

Estas alterações em fases precoces de desenvolvimento comprometem a saúde física e mental para toda a vida e influenciam posteriormente a aprendizagem, o sucesso profissional e o controlo emocional.

A aquisição das funções executivas e a capacidade do cérebro para mudar (plasticidade) são máximas na primeira infância, diminuem com a idade, sendo a adolescência o último período onde a intervenção ainda pode ser preventiva.



Afastar as crianças da exposição à adversidade e proporcionar-lhes uma relação familiar de qualidade, com relações afetivas estáveis, não só atenua como pode reverter os efeitos danosos da resposta ao stress tóxico.

Destes avanços científicos recentes surgem novas recomendações, que com um pequeno esforço de consciencialização são exequíveis e permitem o rastreio e intervenções atempadas para evitar estes problemas. A Pediatria, especialidade responsável pela defesa dos interesses das crianças, e todos os profissionais de saúde envolvidos na sua assistência, felizmente, em Portugal, com capacidade para ser universal, devem tomar conhecimento desta nova realidade e encarar esta missão como um DEVER DE CIDADANIA.


Intervenção

A intervenção é possível, economicamente rentável, moralmente exigível e cientificamente recomendável. O que podemos fazer no imediato?

– Identificar as fontes de stress tóxico, desde a vigilância pré-natal, à saída da Maternidade, e desde a 1.ª consulta de vigilância de saúde infantil.

– Aproveitar a digitalização da Notícia de Nascimento, para registo, sinalização e orientação destas situações.

– Preparar e consciencializar os profissionais envolvidos na vigilância pré-natal, da grávida, da criança e do adolescente de todas as unidades de saúde, para avaliar e promover o equilíbrio biopsicossocial e garantir a vigilância longitudinal também a todos os adolescentes.

– Integrar todas as estruturas com responsabilidade de intervenção em ações de interdisciplinaridade, garantindo a coordenação, comunicação, cooperação, complementaridade e continuidade.

– Apoiar e preparar as famílias, promover as competências parentais e a parentalidade positiva em todos os ACES.

– Articular os serviços de saúde com os infantários, creches e escolas para integrar, em tempo útil, as crianças em risco e incluir os adolescentes sem proteção familiar, na promoção de atividades extracurriculares e estilos de vida saudáveis.

– Alertar os ministérios da Saúde, da Segurança Social e da Educação para enquadrarem estas ações nas suas missões e assumirem a coordenação e execução desta intervenção.

A não intervenção nesta área terá um preço economicamente exorbitante, é moralmente condenável e cientificamente indefensável. Está em causa o futuro das nossas crianças e nas nossas mãos a possibilidade de influenciar o futuro da sociedade.





Artigo publicado no Jornal Médico de novembro.

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