Opinião

Importância do médico de família na abordagem dos problemas do foro ginecológico

Fernanda Águas

Diretora do Serviço de Ginecologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia.

Os cuidados de saúde primários são a base do sistema de saúde português e, por isso, os médicos de família são chamados a desempenhar um papel central no plano individual dos cuidados de saúde dos seus utentes.

A Ginecologia é uma especialidade muito abrangente que, para além do planeamento familiar e da Ginecologia geral, inclui áreas específicas como a Ginecologia Oncológica e doenças da mama, a patologia do trato genital inferior, a Ginecologia Urológica e a Ginecologia Endócrina.

Todas estas áreas beneficiam de uma gestão integrada dos cuidados primários com os cuidados hospitalares, de modo a que o acesso e o percurso das doentes neste sistema promovam uma utilização eficiente dos cuidados de saúde.

A escassez de recursos humanos médicos ao nível das unidades hospitalares trouxe constrangimentos irreversíveis à satisfação dos pedidos de consultas dirigidos às suas especialidades, esta é a razão por que se tem vindo a assistir a um progressivo aumento dos tempos médios de espera, no que respeita à resposta aos pedidos de primeiras consultas hospitalares.

Assim, para garantir o acesso atempado das situações que verdadeiramente requerem a orientação diagnóstica e o tratamento dos problemas ginecológicos em meio hospitalar, torna-se indispensável que os médicos de família assegurem a satisfação das necessidades de prevenção e diagnóstico precoce, tais como o planeamento familiar e a vigilância ginecológica de rotina, que inclui a responsabilidade dos rastreios, nomeadamente para os cancros do colo do útero e da mama.

A colaboração do médico de família no seguimento da mulher após o tratamento de uma patologia ginecológica afigura-se igualmente como uma tarefa fundamental para assegurar um trabalho com mais eficiência a ambas as especialidades.



Para esse efeito, haverá que estabelecer protocolos de vigilância pós-tratamento de patologia ginecológica, com orientações claras relativamente aos parâmetros a avaliar, bem como em relação à interpretação dos respetivos desvios. Nesta dinâmica, torna-se ainda necessária a criação de canais de comunicação e de acesso preferenciais para que, se surgirem dúvidas ou necessidade de uma reavaliação pelo ginecologista, a resposta possa ter lugar em tempo útil.

Esta filosofia de vigilância partilhada implica também uma contínua disponibilidade da informação clínica das doentes e, neste aspeto, os sistemas de informação desempenham um papel de grande valia.

Para exercer corretamente a sua função, o médico de família deve ter conhecimento da situação clínica da doente a nível hospitalar e o ginecologista da situação clínica a nível dos cuidados primários. Quando este objetivo tiver sido cumprido, o sistema de saúde tornar-se-á mais produtivo, evitando-se duplicações inúteis de procedimentos, tal como acontece com os exames complementares, e até mesmo obviar o constante pedido de relatórios clínicos, consumidores de tempo que poderia ser utilizado para atividades que se prendem com o exercício da atividade de assistência às doentes.

São as doentes quem mais beneficia de um bom serviço de apoio de proximidade prestado pelo seu médico de família, que está em posição de adquirir uma visão integrada da saúde dessas mulheres da qual os outros profissionais não dispõem. Só dessa forma se poderá rentabilizar o trabalho do ginecologista a nível hospitalar, assumindo
o papel que lhe compete num capítulo tão importante da saúde da mulher.



Artigo publicado na edição de junho do Jornal Médico dos Cuidados de Saúde Primários, no âmbito de um Dossier sobre Ginecologia.

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