Opinião

Leaping forward - Sudden cardiac death in athletes: one step beyond

Nuno Cardim

Cardiologista, Centro Multidisciplinar de Medicina Desportiva do Hospital da Luz

Nuno Cardim
Cardiologista, Centro Multidisciplinar de Medicina Desportiva do Hospital da Luz

A morte súbita nos jovens e atletas é um evento dramático e recorrente, passível de ser prevenido. Na esmagadora maioria dos casos, resulta de doenças cardíacas hereditárias, cuja primeira manifestação clínica é este evento fatal. Muitas destas doenças podem ser detetadas através da realização de um simples eletrocardiograma (ECG) que, se anormal, origina uma investigação específica que conduz ao diagnóstico correto da doença e à prevenção da morte súbita. Neste contexto, é recomendação da Sociedade Europeia de Cardiologia a realização de ECG a todos os jovens praticantes de exercício físico.

Durante um ano, trabalhámos ativamente com o objetivo de juntar nesta reunião um número excecional de especialistas internacionais “topo de gama”, para discutir este dramático, mas fascinante tema, sob as suas múltiplas perspetivas.

Em nossa opinião, os grandes avanços desta reunião consistiram nos seguintes grandes tópicos:

1 - Abordagem integrada desta problemática (Médicos, Treinadores, Jogadores)

Para lá dos vários especialistas em Cardiologia (subespecialidades de miocardiopatias, arritmologia e cardiologia desportiva) e em Medicina Desportiva (Dr. Luis Serratosa, ex-médico do Real Madrid, e Dr. João Paulo Almeida, médico do S. L Benfica), esta reunião contou com a participação de um jogador de futebol profissional (Nuno Gomes) e de um treinador de futebol de alta competição (Eng. Fernando Santos). Os jogadores, aqueles que se podem encontrar em risco de sofrer morte súbita e a quem estes congressos são dedicados, nunca são ouvidos nestas reuniões, que no fundo tratam da sua vida.

Pretendeu-se desta forma inovar, efetuando uma abordagem integrada desta problemática: a par das conferências médicas, foi extremamente útil ouvir os depoimentos do jogador e do treinador, que relataram a sua experiência e opinião sobre este assunto (desde como convivem e lidam com este risco, como reagem a todo o mediatismo que ocorre cada vez que acontece uma morte súbita no desporto e ainda o que pensam que pode e deve ser feito nas metodologias de treino para evitar este fenómeno).

2 - Avanços na prevenção, diagnóstico e tratamento da morte súbita

Durante o simpósio reunião, foram discutidos os avanços científicos e o state of the art em relação:

• ao diagnóstico da doença, tendo sido reafirmado o valor ‒ como métodos de rastreio inicial ‒ do exame clínico e ECG sistemático a todos os atletas (Dr. Domenico Corrado, Itália), com interpretação efetuada por especialistas na área. Foram depois abordados os avanços nos métodos diagnósticos a realizar quando o screening inicial levanta suspeitas: métodos de imagem cardíaca (ecocardiografia avançada com Doppler tecidular e speckle tracking e ressonância magnética cardíaca ‒ Dr. Andre La Gerche, Austrália, e Dr. Martin Maron, EUA) e técnicas de diagnóstico genético (Dr. Michael Papadakis, Inglaterra).

• ao precipitante da morte súbita, com reforço da contraindicação absoluta para desporto de competição a atletas com doença (tendo a noção de que, por vezes, o desporto dito “recreativo” pode estar também contraindicado, tudo dependendo do envolvimento e stress físico e psíquico de quem o pratica)

• ao tratamento da arritmia maligna, com destaque para a necessidade da existência de desfibrilhadores automáticos externos (DAE) nos estádios (Dr.ª Araceli Boraita, Espanha) e da sua inexistência a nível europeu em cerca de metade dos estádios de futebol de clubes da Primeira Liga. Em relação a este tópico, foi reafirmada a existência em Portugal de legislação que irá tornar obrigatória no nosso país a existência de DAE em recintos desportivos com capacidade para mais de 5 mil pessoas.

3 - Outros assuntos: epidemiologia, desporto excessivo e doping e tóxicos

Outros tópicos “quentes” relacionados com a morte súbita nos atletas foram igualmente revistos, como a sua epidemiologia (Dr. M. Maron, EUA), o impacto negativo do desporto excessivo no coração, nomeadamente no ventrículo direito (Dr. A. La Gerche, Austrália) e ainda o papel de substâncias dopantes e tóxicos na etiologia da morte súbita (Dr. Asterios Deligianis, Grécia).


Artigo publicado na atual edição de LIVE Cardiovascular.

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