Opinião
O hospital em nossa casa: uma revolução humanizada na saúde em Portugal
Isilda Ferreira
Professora adjunta na Escola Superior de Saúde de Santarém (ESSS). Coord. adjunta do livro Hospitalização Domiciliária
Como profissional de saúde que acompanha diariamente a evolução do nosso sistema de cuidados, sinto que estamos a viver uma mudança de paradigma silenciosa, mas profunda. A ideia de que "estar internado" significa obrigatoriamente ocupar uma cama num edifício hospitalar está a dar lugar a um conceito muito mais caloroso e, curiosamente, mais eficiente: a hospitalização domiciliária (HD).
Em Portugal, a HD tem percorrido um caminho notável. O que começou como uma necessidade de descongestionar hospitais tornou-se, hoje, uma escolha baseada na excelência clínica. Atualmente, contamos com cerca de 40 unidades no Serviço Nacional de Saúde, além da expansão para o setor privado, que em 2020 viu nascer a primeira unidade deste género. Esta modalidade não é apenas uma "alternativa"; para muitos de nós, deve passar a ser a primeira opção de internamento sempre que o doente reúna as condições clínicas, sociais e geográficas necessárias.
Mas o que torna este modelo tão especial? A resposta reside na humanização. Ver um doente recuperar no conforto do seu domicílio, rodeado pelas suas memórias e afetos, tem um impacto psicológico imenso. Além disso, os números não mentem: a hospitalização em casa reduz drasticamente o risco de infeções hospitalares, diminui episódios de confusão mental (especialmente nos idosos) e promove uma recuperação funcional mais rápida. É o "hospital" que se adapta à vida da pessoa e não o contrário.
No entanto, para que esta engrenagem funcione com a máxima segurança, o papel da equipa multidisciplinar é vital. Não estamos a falar de um simples apoio domiciliário, mas sim de cuidados de nível hospitalar prestados 24 horas por dia, com visitas presenciais diárias de médicos e enfermeiros. Aqui, a formação dos profissionais destas equipas surge como o pilar central.
Trabalhar em HD exige competências específicas que vão desde o domínio de tecnologias de telemonitorização até à capacidade de preparar, gerir e capacitar o cuidador informal, que é o nosso braço direito neste cuidar em casa. Um profissional bem formado é aquele que sabe transitar entre o rigor técnico e científico dos cuidados de saúde e a sensibilidade de entrar na casa de alguém, respeitando a sua privacidade enquanto garante a segurança clínica.
O futuro reserva-nos ainda mais inovação. Já falamos de autoadministração de terapêuticas por doentes selecionados, de transfusões de sangue em casa e do alargamento desta resposta a áreas como a Pediatria e a Cirurgia. Portugal está na linha da frente desta transformação digital e assistencial, focando-se no que realmente importa: o valor em saúde e a qualidade de vida.
Para aprofundar este tema, que é tão técnico quanto humano, e que deseja compreender este “novo” panorama da saúde, foi recentemente publicada uma obra de referência obrigatória para profissionais de saúde, e não só - Hospitalização Domiciliária, um livro coordenado pelas especialistas Irene Santos e Yahia Abuowda, onde também participo. Acredito que é um guia pioneiro no nosso país sobre um modelo que, sem dúvida alguma, desenha o futuro mais humano e eficiente nos cuidados de saúde em Portugal.


