Opinião

«O Hospital Público da minha vila»

Alexandre Lourenço

Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH)

Na minha vila, o Hospital era altaneiro e dele via-se todo o povoado.

A casa dos meus avós ficava e fica no Bairro Alto. Sempre que uma sirene se ouvia, todo o povoado se precipitava bairro acima, em direção ao hospital. Escalávamos o monte granítico, por entre as lajes, e aguardávamos a chegada da ambulância. Tenho memória da “pão de forma” e da “boca de sapo”.

Os bombeiros de peito feito, orgulhosos da gravidade do momento, carregavam os doentes para dentro da urgência. Os populares especulavam sobre o quem, o como e o porquê, aguardando que o primeiro bombeiro saísse para confidenciar as minudências da ocorrência.

“Já não passa desta”, “Coitada da mulher e dos filhos”, “Está cá hoje o doutor X”, “Se cá estivesse o doutor Y”. Era uma urgência de chamada. Os médicos, os enfermeiros e os auxiliares acudiam vindos dos outros serviços hospitalares e, tantas vezes, das suas rotinas diárias.

O Hospital contava com internamento e ambulatório. Enfermaria de mulheres com 16 camas em, como se diz agora, open space, complementada por dois quartos individuais privados. Paridade para a enfermaria de homens. Mais uma sala de operações com seis camas cirúrgicas divididas por dois quartos. Seis camas para as puérperas. Tudo no primeiro andar.

No rés-do-chão, os doentes aguardavam ser atendidos e os familiares esperavam ruidosamente a ficha para subirem na hora da visita. Era neste piso que ficava o armazém/farmácia, os consultórios médicos, a sala de pensos, o raio x, a enorme cuba de esterilização, o aquecimento a nafta. Num edifício à parte ficava a lavandaria e noutro a morgue. Durante as manhãs, dos serviços administrativos, ouvia-se a inconfundível Olga Cardoso… o Sala e o jogo da mala. Da sala de partos ouviam-se as grávidas histéricas e, finalmente, o primeiro berreiro do recém-nascido.



Os auxiliares pediam o número da ADSE ou o número da Caixa, mesmo muito depois das caixas terem desaparecido e o SNS já ser uma certeza. As estatísticas eram pauzinhos merecendo cada dez um traço. Nos tempos mortos, dobrava-se gaze e faziam-se compressas. Em toda a parte reinava o cheiro a éter, nauseabundo para os visitantes, impercetível para quem fazia daquele espaço a sua vida.

Nasci neste Hospital Público. Anos antes era gerido pela Misericórdia local, vindo a ser “nacionalizado” durante o pósrevolução. Já não sou do tempo das freiras/gestoras/”enfermeiras”, do regime de internato do pessoal auxiliar, dos doentes classificados como pensionistas, porcionistas ou indigentes, dos rendimentos dos médicos dependentes dos doentes pagantes.

Dois anos depois era integrado no Hospital do Serviço Nacional de Saúde, assumindo o seu caráter universalista. O médico que assistiu o meu parto fazia o serviço médico à periferia. Os meus pais escolheram-no para meu padrinho de batismo. Sei que muitos dos meus colegas de carteira ali nasceram. Ali nos despedimos da minha avó. Alegrias e muitas lágrimas. Era o nosso Hospital, era parte da nossa vida singular e coletiva.

Não se deixem enganar pela descrição romântica. Vivíamos num Portugal muito diferente e bem mais pobre. Não sei quantas pessoas lá trabalharam – eram certamente insuficientes e com salários a chegar tardiamente, através de retroativos que dificilmente acompanhavam a inflação e as taxas de juros de dois dígitos. Os doentes e as suas famílias completavam o soldo dos profissionais com batatas, galinhas, couves e outros bens de agricultura biológica.

Desde então, o Hospital Público mudou muito. Acompanhou e suportou o desenvolvimento do nosso País. Mudou tanto e oferece muito mais. Contudo, está mais longe das pessoas. Mais longe e menos comprometido com cada e por cada um. Já nada tem a ver com o velho hospital da minha vila, agora cidade.

Nos tempos de hoje enfrentamos novas dificuldades e vivemos outros tantos dilemas. Por vezes, parece-me que nos esquecemos do percurso, exacerbamos as dificuldades do presente e abandonamos o futuro. Não sei como nem em que ponto do tempo muitos de nós deixámos de acreditar...

É neste momento definidor que, apesar de todas as dificuldades, é necessário compreender que o fruto do nosso trabalho é essencial para todos. Depois de todo este caminho percorrido, não é tempo de baixar os braços e desistir do amanhã.

No velho hospital da minha vila, todos corriam colina acima. Os profissionais de saúde sabiam que eram imprescindíveis, a população sabia que deles dependia. Genuinamente. Generosamente, queriam tratar e cuidar daqueles que deles necessitavam porque eram um todo comum.

O Hospital Público não é um edifício, uma mordomia, ou um serviço. É uma ideia generosa por uma sociedade inclusiva e mais justa.

O Hospital Público é de todos nós.
O Hospital Público somos nós.



O artigo pode ser lido no Hospital Público de setembro de 2018.

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