Opinião

«O Hospital Público que não queremos»

Alexandre Lourenço

Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH)

Naquele domingo, como em tantos outros, o pequenote de quatro anos era o centro das atenções de pais e avós. Momentos mágicos para avós e netos. Memórias para toda a vida.

Esse domingo foi diferente dos anteriores. A avó caiu lá em casa. Foi chamado o INEM, que a levou para a urgência mais próxima.

No hospital, a avó deixou de o ser. Transformou-se em mais um caso num qualquer serviço de urgência hospitalar. Após algumas horas de espera, foi feito o diagnóstico. Fratura da tíbia. Sem mais, a equipa de serviço indicou à família que iria transferir a utente para o hospital da sua área de residência.

A filha contrapôs. No hospital da área de residência, a mãe não teria qualquer apoio familiar, sendo desejável que fosse operada no presente hospital. Argumentou: como em tantas famílias, na sua casa de residência, a mãe cuidava do pai dependente. Naquele hospital teria a filha sempre a seu lado.

A filha foi avisada pelo médico residente. A contragosto disse-lhe: “A cirurgia da sua mãe vai demorar!”

Demorou.

A utente não foi transferida para a Ortopedia. Foi transferida para onde existia uma cama livre. Apesar de várias insistências, durante três semanas, pouca ou nenhuma informação foi dada aos familiares. Nem sobre a evolução clínica, nem sobre o agendamento da cirurgia urgente. O pessoal de enfermagem e auxiliar foi inexcedível nos cuidados a uma doente com patologia estranha ao seu serviço. Não sei quantas vezes a doente foi visitada pelo médico da especialidade durante este período.



Depois de uma maior insistência, foi decidido reavaliar a situação daquela doente que aguardava cirurgia há mais de três semanas. Repito, há mais de três semanas que a doente aguardava cirurgia urgente. Na sequência da reavaliação, foi decidido dar alta à doente. Afinal, a condição clínica nunca tinha tido indicação para operar. Segundo informação clínica, a espera de três semanas foi programada. Após três semanas, a doente poderia ter alta para o domicílio.

Após a alta do internamento, o hospital terminou a sua intervenção e a utente voltou a ser a avó.

A avó voltou para sua casa. Ficou acamada. Passado menos de uma semana, faleceu.

Este é um episódio singular que não é seguramente único nos nossos hospitais. Não sabemos muitos dos pormenores. Sabemos que falhámos. Sabemos que isto não pode acontecer!

No Hospital Público somos capazes do melhor. Em demasiados casos fazemos o pior. Este é apenas um episódio de muitos que nos deverá envergonhar a todos. Destes demasiados casos devemos aprender a corrigir as nossas falhas.

Não nos podemos deixar resignar, há muito a fazer e nem sempre é por falta de meios. Falta-nos organização e humanização. Organização na definição e implementação de percursos clínicos claros e efetivos. Humanização em não tratarmos pessoas como mais um caso.

Em mais nenhum domingo a avó estará com o seu neto, nem o seu neto com a avó...

Desistir de modernizar o Hospital Público não é uma opção. Modernizar o Hospital Público é a nossa obrigação.




O artigo pode ser lido no Hospital Público de outubro.

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