Opinião

O que é ser MF numa unidade de saúde?

João Pedro Bandovas

Aluno do 2.º Ano do Mestrado Integrado de Medicina, FMUL

João Pedro Bandovas
Aluno do 2.º Ano do Mestrado Integrado de Medicina, FMUL

Batem três vezes à porta do gabinete, soando a pancadas de Molière atrasadas para o início da cena. Entram e saem num desfile de personagens onde cada uma se assume como principal, tal procissão de pecadores à procura de um santo de bata branca, anjo sem auréola, que lhes encomende a calma ou o perdão, heterónimos diferentes de um mesmo autor -- a preocupação.

Em cada didascália antevê-se o tom das palavras e a educação de quem as figura – respeitando, com cautela, as surpresas que tornam o espetáculo mais curioso. Com a devida licença, ou sem ela – porque a porta está ali para se abrir e a cadeira para se sentar --, representa-se a ansiedade da mudança para algo errado, uma sensação de desconhecimento do normal que preocupa tanto por existir como por estar ausente e que apela à ciência das máquinas que veem o corpo por dentro, quando os olhos do médico, mesmo em jejum, não imaginam que males ocupam o físico.

Pudesse aparecer Blimunda para sossegar a angústia daqueles que, ao princípio, temem ver o sangue sair e os aparelhos a entrar, mas que, no fim, ainda temendo, acabam resignados e convencidos de que o esforço será pago em anos com saúde.

Representam ainda, segundo apartes dissimulados em texto principal, personagens ousadas à procura de uma misericórdia qualquer, um motivo, caído dos céus, para o repouso, já que o corpo, com o calor, fica mole e a alma não tem vacina para o ócio – vacina esta que poderia ser negociada com a personagem seguinte, por agora secundária, preocupada em relembrar os médicos dos novos produtos, fosse a própria uma daquelas ampolas que estimulam a memória, como não falha o que dizem os estudos e relatam outros médicos (caso para escrever “sic”).

Lê-se ainda a esperança de não tardar mais a primavera, que a luz já mexe e brilha com intensidade, enquanto outros, já iluminados, cuidam da felicidade de se verem perpetuados no tempo, por um novo sorriso na Terra.

Assim, quem sobe ao palco, quer para sentir com tranquilidade o último aplauso, quer para sentir, na novidade, o nervosismo do princípio de uma carreira, procura no Médico de Família os melhores adereços, para que o cenário seja belo e todo o espetáculo um sucesso.

O Médico de Família, historiador à procura dos vestígios do passado, juiz e professor do presente, polícia de um futuro que se quer seguro, guarda, em cofre blindado, a confiança de que as preciosas vidas que acompanha seguirão imaculadas. Um aplauso para ele!



Artigo publicado no Jornal Médico de fevereiro 2014

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