Opinião

«O Serviço de Urgência e o Hospital Público»

Alexandre Lourenço

Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH)

O Serviço de Urgência do Hospital Público é reflexo da sociedade de contradições em que vivemos.

Este é o serviço de acesso universal por excelência. Um serviço onde, sem agendamento, todos acedemos às respostas para as nossas vulnerabilidades físicas e mentais. Não importa a espera porque sabemos que ali, do outro lado da porta, nos aguarda a sofisticação médica e tecnológica que nos irá diminuir a angústia da qual padecemos.

Mulheres grávidas, recém-nascidos, crianças, jovens, adultos, idosos, ricos, pobres, excluídos. É na doença que todos somos humanos e abandonamos o nosso estatuto de divindades terrenas.

Sabemos que mais de 40% de nós não precisamos de cuidados tão diferenciados. Contudo, sem respostas alternativas, desprotegidos, procuramos a sua ajuda. Não existe nada como o Serviço de Urgência. A Linha SNS e o Centro de Saúde não colhem sangue, nem tiram radiografias.

Do outro lado da porta de vidro estão os profissionais de saúde que vêm relatando a sua insatisfação pela desadequação dos recursos humanos (seja em número, seja em qualificação), das instalações, bem como da organização pouco ou nada centrada na resposta às necessidades dos doentes.

Vários têm sido os alertas para a necessidade de garantir um programa de investimentos, a nível nacional, a médio e longo prazo, que assegure a qualificação e a capacitação dos serviços de Urgência (e.g. equipamentos, sistemas de informação, meios complementares de diagnóstico).  Um programa acompanhado da dotação e adequação de recursos humanos, através de equipas dedicadas, com formação/atualização periódica e valorização do papel do médico emergencista, inclusive, do ponto de vista remuneratório.

Contudo, como temos vindo a observar. também em vários países ocidentais os hospitais não têm capacidade para, de forma isolada, responder ao problema da fragmentação do sistema de saúde e da desadequação das respostas sociais.



Os mais de 40% de episódios de urgência correspondentes a prioridades verde/azul/branca podem ser atendidos em outros prestadores de cuidados com melhor acesso e qualidade.

Por um lado, não existe cobertura de médicos de família em algumas regiões do País e os horários de atendimento dos centros de saúde estão desarticulados das necessidades de uma sociedade ativa. Por outro, os centros de saúde ainda não estabeleceram uma relação de confiança e resolutividade com a população.

Neste sentido, as experiências piloto em curso, que passam por dotar os centros de saúde de mais e melhores meios de diagnóstico, podem contribuir para a sua maior utilização.

Perto de metade dos episódios de urgência correspondem a prioridade amarela. Entre estes episódios encontra-se um elevado número de idosos em estado de contínua deterioração física que requer hospitalização. Em 2016, 8,2% de todos os atendimentos nas urgências resultaram em internamento.

Se particularizarmos o mês de janeiro de 2017, verificamos que este valor sobe para 9,4%. Este fenómeno de maior necessidade de internamento cria maior pressão sobre os internamentos médicos, resultando em tempos de permanência no Serviço de Urgência exagerados e em condições inadequadas.

Deve ser reconhecido que, este ano, o planeamento permitiu aos hospitais uma resposta bastante mais adequada que em  anos anteriores. Apesar de todas as limitações impostas ao nível de recursos humanos por parte do Ministério das Finanças, a abertura de camas, a flexibilização da gestão de camas e a realização de protocolos com o setor social permitiu conter este problema.


Porventura, se a autorização para o estabelecimento de protocolos para mais 538 vagas na rede de cuidados continuados tivesse ocorrido como previsto, no primeiro semestre do ano e não no final de dezembro, a qualidade assistencial poderia ter sido bastante mais satisfatória. Recordemos que o “Barómetro de Internamentos Sociais”, realizado em outubro, identificou 5% de internamentos inapropriados, dos quais mais de metade aguardavam respostas da rede de cuidados continuados.

A segunda iteração deste estudo decorreu a 19 de fevereiro e brevemente serão apresentados os seus resultados.

O envelhecimento populacional e a crescente prevalência de doenças crónicas colocam novos desafios. Exigem-se respostas inovadoras dos sistemas de saúde em articulação com o setor social. Ainda existe um longo caminho a percorrer no desenvolvimento de soluções conjuntas inteligentes.

Neste campo, várias medidas podem ser estudadas com vista a reduzir a necessidade de cuidados secundários e.g. regulamentação mais apertada e responsabilização dos lares da terceira idade, apoio aos cuidadores informais, majoração do preço dos medicamentos para idosos com baixos rendimentos, medidas para o aquecimento das casas em idosos sem meios, alargamento dos programas de identificação de utilizadores frequentes das urgências (em curso).

Mesmo nos hospitais, existe ainda um longo caminho a percorrer para a transformação do hospital de agudos num hospital também de doentes crónicos. Tema, aliás, do próximo Congresso Europeu de Gestores Hospitalares, a realizar em Cascais, entre 26 e 28 de setembro deste ano.

O Serviço de Urgência do Hospital Público é como um dique onde toda a água converge. Com regularidade, devido às cheias, a água extravasa a limitada capacidade do dique. Quando as águas são mais vigorosas que a edificação, podemos sempre alertar para a necessidade de aumentar o dique em altura ou, mesmo, colocar mais betão.

Quiçá, será mais pertinente pensar em como evitar o aumento de caudal, em desenvolver respostas alternativas, melhorar a qualidade de construção, ou melhorar o fluxo da água no e após o dique.

Nos próximos dias 16 e 17 de março, as Conferências de Valor da APAH discutem os Modelos de Gestão do Acesso à Urgência e Continuidade de Cuidados. Todos são bem-vindos a esta procura de respostas. Até porque nesta, como em tantas outras matérias, não basta apontar dedos, constatar o óbvio ou fazer de pitonisa da desgraça.

Melhor Gestão, Mais SNS.




Artigo publicado no Hospital Público de fevereiro.

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