«Obesidade nos Cuidados de Saúde Primários: tirar peso ao peso»
Luís Filipe Gonçalves
Especialista em MGF. Responsável pela Consulta Multidisciplinar de Obesidade da Clínica de Gondomar.
A obesidade continua a ser, demasiadas vezes, reduzida a um número na balança. Esta visão simplista não só falha em captar a complexidade da doença como contribui para abordagens ineficazes, estigmatizantes e frustrantes – para os doentes e para os profissionais de saúde. Nos cuidados de saúde primários, onde a obesidade é presença diária, é urgente tirar peso ao peso e recentrar a abordagem na pessoa.
O médico de família está numa posição única para o fazer. A obesidade raramente surge isolada: acompanha-se de diabetes, hipertensão, dislipidemia, dor crónica, sofrimento
psicológico e condicionantes sociais bem conhecidas de quem acompanha os doentes ao longo dos anos.
Reduzir esta realidade a um objetivo ponderal ignora aquilo que verdadeiramente importa: reduzir o risco, melhorar a funcionalidade e aumentar a qualidade de vida. Estamos hoje numa nova era do tratamento da obesidade. Pela primeira vez, dispomos de opções terapêuticas eficazes que permitem encarar esta doença de forma estruturada, continuada e baseada na evidência.
Este avanço obriga, no entanto, a uma mudança clara de perspetiva: a obesidade deve ser tratada como qualquer outra doença crónica, com planos individualizados, monitorização regular e objetivos clínicos bem definidos – e não como um problema de força de vontade.
A personalização do tratamento é central neste novo paradigma. Cada pessoa com obesidade tem um contexto próprio, com comorbilidades específicas, expectativas diferentes e trajetórias de vida singulares.
A escolha das estratégias terapêuticas, incluindo a farmacoterapia, deve ser feita em função desse perfil global, ajustando o fármaco às comorbilidades associadas e aos objetivos clínicos prioritários, e não apenas à magnitude da perda de peso.
Esta abordagem ganha ainda maior relevância nos CSP. O médico de família não trata apenas indivíduos, mas pessoas inseridas em famílias. A obesidade, tal como os comportamentos que a influenciam, é frequentemente partilhada no contexto familiar, seja por hábitos alimentares, padrões de atividade física ou fatores socioeconómicos. Ter a possibilidade de englobar a família na intervenção representa uma oportunidade única para promover mudanças sustentadas e com impacto real.
A intervenção no estilo de vida continua a ser um pilar essencial, mas deve ser realista, progressiva e livre de julgamentos. Pequenas mudanças, consistentes e acompanhadas
ao longo do tempo, podem ser clinicamente mais relevantes do que metas ponderais ambiciosas e pouco sustentáveis.
A articulação com outras especialidades, nomeadamente no contexto da Endocrinologia e da Cirurgia Metabólica, é igualmente parte integrante desta abordagem moderna, cabendo ao médico de família um papel central na referenciação adequada e no acompanhamento longitudinal.
Tirar peso ao peso não significa desvalorizar a obesidade – pelo contrário. Significa reconhecê-la como uma doença crónica complexa, que exige uma resposta clínica séria, personalizada e centrada na pessoa. Nos CSP, temos não só a responsabilidade, mas também as condições ideais para liderar essa mudança.
Artigo publicado no Jornal das VIII Jornadas Multidisciplinares de MGF.


