Opinião

Opioides e hiperalgesia

Isaura Tavares

Professora associada com agregação, FMUP

Isaura Tavares
Professora associada com agregação, FMUP

Os opioides são clinicamente usados em situações de dor crónica. Apesar da sua eficácia, são bem conhecidos os efeitos secundários do tratamento com opioides, como a tolerância e a dependência.

Mais recentemente, tem-se verificado que o tratamento da dor crónica com opioides pode, paradoxalmente, levar ao aumento da sensibilidade à dor, que pode mesmo tornar-se mais forte do que a dor que levou ao início desse tratamento. Este fenómeno designa-se hiperalgesia induzida por opioides.

Não existem estudos epidemiológicos para estabelecer a prevalência da hiperalgesia induzida por opiodes, nem se conseguiu associar o tipo de opoides ou a duração do tratamento com a ocorrência da hiperalgesia induzida por opioides.

Frequentemente, pode confundir-se a hiperalgesia induzida por opioides com a tolerância, dado que, em ambos os casos, ocorre perda da eficácia analgésica do tratamento com opioides.

O aumento da dosagem permite frequentemente discriminar as duas situações.A hiperalgesia induzida por opioides pode levar à suspensão do tratamento da dor crónica com aquele grupo de fármacos, levando à procura de abordagens não farmacológicas.

Relativamente à etiologia da hiperalgesia induzida por opioides, convém salientar que este fenómeno também ocorre em modelos animais. Diversos trabalhos publicados sugerem que a hiperalgesia induzida por opioides seja mediada por ação dos opioides e seus metabolitos sobre os recetores N-metil-diaspartato (NMDA), nos quais atua o neurotransmissor excitatório glutamato.

Grande parte dos estudos tem sugerido que a hiperalgesia induzida por opioides tem causas periféricas por ação dos opioides e seus metabolitos nos aferentes primários responsáveis pela transmissão de informação nocicetiva até à medula espinhal. Alguns estudos demonstraram recentemente que o encéfalo pode contribuir para a hiperalgesia induzida por opioides.

Alguns centros encefálicos responsáveis por controlar a transmissão de informação nociceptiva na medula espinhal sofrem uma desregulação no seu funcionamento quando se efetuam tratamentos prolongados com analgésicos.

A desregulação envolve mecanismos diversos que incluem alteração na expressão e funcionamento de recetores opioides e na ativação de neurónios e células gliais.

Estas alterações neurobiológicas contribuem para aumentar a transmissão da informação nocicetiva a partir da medula espinhal, induzindo, deste modo, a referida hiperalgesia. São necessários estudos em modelos experimentais detalhados e análises epidemiológicas para melhor se compreender a patofisiologia da hiperalgesia induzida por opioides. Deste modo, poder-se-á contribuir para um melhor tratamento de alguns doentes com dor crónica.

Imprimir