Opinião

«Perceber o potencial dos cuidados de saúde primários»

Luís Pisco

Presidente do Conselho Diretivo da ARS de Lisboa e Vale do Tejo

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) tem elaborado e divulgado documentos muito úteis sobre áreas setoriais da saúde como seja os cuidados de saúde primários. O documento acabado de divulgar, mais uma vez, reafirma o elevado potencial dos CSP e em três etapas procura dar uma visão global do panorama atual nos países da OCDE.

Devo confessar o meu desapontamento por não encontrar qualquer referência a Portugal e a não identificação de qualquer boa prática por nós adotada. Será uma boa ocasião para refletir sobre o estado da nossa reforma dos CSP e o que podemos aprender com estas recomendações.

1. Bons CSP tornam os sistemas de saúde mais inclusivos e com melhor desempenho.

À medida que as sociedades envelhecem e o peso das doenças crónicas cresce, as pessoas precisam de cuidados que estejam cada vez mais centrados nas suas necessidades, de cuidados cada vez mais complexos e coordenados ao longo do percurso do doente e acessíveis (financeiramente, geograficamente e 24 horas por dia).

Isso faz com que bons CSP sejam cada vez mais vitais como primeiro ponto de contacto e proporcionando cuidados integrais à saúde, pois, bons CSP:

• Melhoram a saúde e ajudam a combater as desigualdades, melhorando o acesso aos cuidados e ações preventivas direcionadas à comunidade e a programas de gestão de doenças crónicas. Em todos os países da OCDE e da UE, 68% das pessoas com renda mais baixa tiveram um médico de família nos últimos 12 meses (contra 72% no grupo de renda mais alta), uma diferença bastante pequena.

• Promovem a capacitação e a centralidade nas pessoas, especialmente através da melhoria da literacia em saúde.

• Tornam o sistema de saúde mais eficiente, por exemplo, reduzindo as taxas de hospitalizações evitáveis e as visitas desnecessárias aos serviços de urgência.



2. No entanto, os CSP estão ainda muito débeis.


• Nos países da UE, nos últimos doze meses, 26% dos doentes que sofrem de alguma doença crónica não receberam nenhum dos procedimentos preventivos recomendados.

• As admissões evitáveis para condições crónicas que deveriam ser tratadas nos CSP foram equivalentes a 6,1% dos leitos hospitalares em 2016, custando pelo menos US $ 835 milhões, em média, nos países da OCDE.

• O uso inadequado de antibióticos nos cuidados ambulatórios varia entre 45% e 90%, com consequências graves em termos económicos e de segurança dos doentes.

3. O fortalecimento dos CSP requer recursos e organização adequados.

Para prestar cuidados de alta qualidade e acessíveis às pessoas, é preciso fazer mais para fortalecer os CSP, focalizando-se principalmente em:

• Recursos adequados: investir nos cuidados primários gera bons retornos para a sociedade, mas isso requer recursos adequados. No entanto, apenas 14% dos gastos totais com saúde são atualmente dedicados aos CSP nos países da OCDE, enquanto a percentagem de médicos de família em relação à totalidade dos médicos caiu de 32%, em 2000, para 29%, em 2016, nos países da OCDE.

• Organização adequada: há uma necessidade urgente de mudar do modelo de cuidados primários reativos, de prática individual, para uma abordagem proativa, preventiva e participativa. Em 2018, apenas 15 dos países da OCDE tinham serviços de CSP baseados em equipas ou redes.

Registos de saúde eletrónicos robustos e acessíveis em todo o continuum do atendimento também são fundamentais para cuidados primários pró-ativos e centrados nas pessoas.

• Incentivos adequados: enquanto 13 países introduziram modelos inovadores de pagamento nos CSP nos últimos anos, há margem para uma maior difusão de novos sistemas de pagamento, incentivando um atendimento de qualidade, maior coordenação e prevenção de cuidados para pessoas com necessidades complexas.

• Avaliação adequada: há poucos esforços a nível nacional e internacional para medir os resultados dos CSP. Este tema e este documento da OCDE são suficientemente importantes para a ele voltarmos na próxima edição.


Artigo publicado no Jornal Médico dos cuidados de saúde primários

Distribuído em todas as unidades de saúde familiar do país, Jornal Médico dos cuidados de saúde primários é uma ferramenta única na partilha, entre pares, de boas práticas, iniciativas e projetos no âmbito da Medicina Familiar!

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