Opinião

Recursos adequados para «cuidados primários proativos, preventivos e centrados nas pessoas»

Luís Pisco

Presidente do Conselho Diretivo da ARS de Lisboa e Vale do Tejo

Os sistemas de cuidados de saúde primários (CSP) são cada vez mais importantes, mas estão sob grande pressão. Bons CSP têm o potencial de melhorar a saúde, reduzir as desigualdades socioeconómicas na saúde e tornar os sistemas de cuidados de saúde centrados nas pessoas, ao mesmo tempo que fazem melhor uso dos recursos de saúde.

Isso é cada vez mais necessário num contexto em que as sociedades da OCDE estão a envelhecer. Espera-se que a parcela da população com 65 ou mais anos cresça mais de 60% nos países da OCDE, passando de 17,3%, em 2017, para 28%, em 2050.

Quase duas em cada três pessoas com mais de 65 anos vivem com uma ou mais doenças crónicas, como depressão, doenças cardiovasculares, problemas musculoesqueléticos, doenças oncológicas ou diabetes. Essas pessoas precisam de cuidados centrados nas suas necessidades complexas, coordenadas ao longo do percurso dos cuidados e acessíveis geograficamente e ao longo do tempo.

Além disso, pessoas de baixa renda, sem abrigo ou grupos minoritários geralmente têm pior saúde, têm múltiplos fatores de risco para doenças e enfrentam um número maior de barreiras no acesso aos serviços de saúde, especialmente serviços de saúde preventivos.

No entanto, os CSP não conseguem atingir todo o seu potencial em muitos dos países da OCDE. Enquanto as equipas de CSP estão numa posição única para aconselhar as pessoas sobre estilos de vida, prestar cuidados preventivos e gerir o progresso das doenças crónicas, 26% dos pacientes que sofrem de algumas condições crónicas não receberam nos últimos 12 meses qualquer um dos testes preventivos recomendados.


Luís Pisco

Que recursos são necessários para organizar cuidados primários de elevado desempenho?

São necessárias novas estratégias para atrair e reter os médicos nos CSP e estimular a sua distribuição geográfica equitativa.

A Alemanha implementou estratégias para reter os médicos de família, por exemplo, aumentando a remuneração da medicina familiar em relação a outras especialidades e melhorando as condições de trabalho nos CSP.

Muitos países da OCDE também lutam para atrair trabalhadores dos cuidados primários para áreas rurais e remotas.

O Japão teve como alvo a seleção de estudantes de Medicina vindos de áreas carentes, enquanto a Alemanha usou regulamentação para restringir a liberdade de novos médicos se estabelecerem em áreas consideradas adequadamente supridas, juntamente com alguns incentivos financeiros, com alguns bons resultados.

O que os responsáveis pelas políticas de saúde devem fazer?

O sucesso das políticas para fortalecer os CSP dependem destes terem os recursos e a organização adequados para oferecer cuidados centrados nas pessoas, de alta qualidade e acessíveis:

• Recursos adequados: É vital fazer investimentos adicionais em CSP (por exemplo, aumentar o número de médicos de família, introduzir incentivos para ajudar áreas carentes e desenvolver papéis mais avançados para enfermeiros e outros profissionais de saúde).

Também é importante aumentar os esforços para dar apoio adequado às equipas de CSP, principalmente por meio de mudanças na formação e maior uso da força de trabalho da comunidade.

• Organização adequada: novos modelos de atendimento centrados nas pessoas, baseados em equipas ou redes, podem obter maiores ganhos em saúde da população, passando de cuidados reativos para cuidados proativos, preventivos e centrados nas pessoas.

Equipas de CSP também têm um papel a desempenhar na melhoria da literacia em saúde dos cidadãos. O potencial das tecnologias digitais deve ser aproveitado para fornecer atendimento personalizado, tomando decisões clínicas mais efetivas, capacitando os cidadãos a viverem estilos de vida mais saudáveis e melhorando o acesso à população carente.

• Incentivos adequados: incentivar a prestação de cuidados de elevada qualidade e incentivar uma maior coordenação de cuidados para pessoas com múltiplas necessidades colocarão os CSP no centro do sistema de saúde.

• Avaliações adequadas: intensificar os esforços para identificar melhor a má qualidade do atendimento e elevar os padrões de atendimento por meio de uma melhor mensuração da qualidade e centralização das métricas de cuidados primários, incluindo experiências relatadas pelos doentes e medição de resultados.

Atualmente, os países da OCDE estão sob crescente pressão para tornar os sistemas de saúde mais focados no atendimento comunitário, na continuidade dos cuidados e na prevenção de doenças.

Como primeiro ponto de contacto com o sistema de saúde, e proporcionando cuidados abrangentes, continuados e coordenados, bons CSP são a melhor opção para desempenhar essas funções essenciais.



Artigo publicado na edição de julho do Jornal Médico dos cuidados de saúde primários. Trata-se da 2.ª parte de artigo publicado na edição anterior, intitulado: "Perceber o potencial dos cuidados de saúde primários".

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