Projeto de intervenção precoce no cancro oral prestes a arrancar

O coordenador do Programa Nacional de Promoção de Saúde Oral (PNPSO), Rui Calado, estima estar para muito breve o início do projeto de intervenção precoce no cancro oral, que realizará cerca de cinco mil biópsias por ano. “Falta apenas completar a parte informática”, adianta, garantindo que a 20 de março, Dia Mundial da Saúde Oral, já estará em fase de implementação.

O cancro oral mata cerca de 500 pessoas por ano, sendo que anualmente surgem 1000 novos casos. As elevadas taxas de incidência da doença, associadas a baixos níveis de sobrevivência dos doentes, e com diagnósticos tardios, motivaram o alargamento do PNPSO da Direção-Geral da Saúde, passando este a incluir o projeto de intervenção precoce no cancro oral.

“Atualmente, a percentagem de indivíduos que em Portugal sobrevivem a um cancro oral, cinco anos após o seu diagnóstico, ainda é inferior à da União Europeia”, sublinha Rui Calado, adiantando que o objetivo deste projeto é inverter a situação. Para isso, a identificação de lesões suspeitas na boca dos utentes do SNS deve ser uma preocupação e a rápida obtenção de um diagnóstico a chave para uma resposta curativa eficaz.

Este projeto pressupõe um trabalho de parceria entre MF, médicos dentistas e estomatologistas, que passarão a contar com um laboratório de referência (Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto-IPATIMUP) para a obtenção do diagnóstico diferencial das lesões suspeitas de cancro oral.

“Se o MF considerar que necessita de uma confirmação diagnóstica encaminha o utente para um médico dentista pertencente à rede nacional de médicos aderentes, o qual poderá realizar, para o efeito, a biópsia da lesão suspeita”, explica Rui Calado.

“Haverá uma rede constituída por cerca de 240 médicos dentistas espalhados pelo país, de acordo com critérios de distribuição associados à das populações, aos quais está atribuída a tarefa de realizarem as necessárias biópsias, proporcionando ao utente soluções de proximidade”, menciona.

“O nosso objetivo é ganhar tempo, identificar rapidamente as lesões malignas e enviar com urgência a hospitais de referência doentes que já são portadores do seu diagnóstico”, afirma o responsável da Direção-Geral da Saúde, sublinhando que uma intervenção em fase precoce aumenta a probabilidade de ocorrer cura clínica ou de se verificarem sobrevivências mais alargadas.

A existência de uma lesão suspeita deve justificar uma intervenção dirigida à obtenção de um diagnóstico diferencial, podendo ser emitido pelo MF um cheque-diagnóstico que desencadeia a intervenção de um médico dentista aderente, escolhido livremente pelo utente, entre os que integram a lista nacional.

Caso este profissional considere necessária a realização de uma biópsia, deve efetuar a recolha da amostra e enviá-la ao IPATIMUP, utilizando para esse efeito um cheque-biópsia.

Rui Calado realça que o resultado das biópsias será enviado ao MF do utente e ao médico dentista que a realizou, proporcionando-lhes informação preciosa sobre a situação de saúde dos seus utentes e permitindo a sua intervenção nas situações identificadas como não malignas. No caso de ser detetado um cancro, o IPATIMUP também informa, através do sistema informático, o Instituto Português de Oncologia da área de residência do utente, o qual marcará uma consulta hospitalar com caráter de urgência (no espaço de 24 horas).

“Em 10 dias, é possível colocar num hospital de referência uma pessoa com diagnóstico de cancro oral, obtido nos serviços prestadores de cuidados de saúde primários. Esta estratégia irá libertar recursos hospitalares na área da Saúde Oral, podendo contribuir para a agilização de respostas mais rápidas”, sublinha.

Tendo por base, para a projeção de necessidades, a ocorrência esperada de mil novos casos de cancro oral por ano em Portugal, Rui Calado estima que o projeto induza a realização de cerca de cinco mil biópsias anualmente.



Artigo publicado no Jornal Médico de março 2014

Imprimir