Opinião

Publicação médica: novos problemas, novos desafios


Helena Donato

Serviço de Documentação e Informação Científica do CHUC



Muitos médicos reconhecem que a parte mais difícil da publicação científica é começar. Deste modo, antes de começar a escrever, convém responder a estas questões básicas: O que tenho para dizer? Vale a pena ser dito? Qual o formato adequado para a mensagem? Qual a audiência para a mensagem? Qual é a revista certa para a mensagem?

Se há insegurança quanto às respostas a estas questões, então é improvável que o trabalho tenha sucesso – é o que nos diz Richard Smith, editor da BMJ.

A minha comunicação (no Congresso Nacional de Medicina Interna) pretendeu, de forma breve e objetiva, ajudar a responder a estas questões e realçar os novos desafios da publicação médica.

Felizmente, existem agora tantas revistas que a hipótese de não conseguir publicar um trabalho é pequena. Mas as revistas não são todas iguais e o impacto que a publicação tem no CV do médico está muito ligado à qualidade da revista onde o trabalho é publicado.

Na escolha da revista-alvo para publicação, a sua qualidade é frequentemente avaliada pelas bases de dados onde é indexada e a indexação de uma revista é considerada um reflexo da sua qualidade.


Helena Donato

As avaliações também são necessárias para decidir quem contratar, promover, financiar, etc., por isso, também explicarei o processo de avaliação da publicação científica e a importância da comunicação e disseminação do output científico.

Uma métrica de avaliação tem norteado estas decisões. Esta métrica, chamada Journal Impact Factor (fator de impacto), disponibilizada anualmente pelo Journal Citation Reports da Clarivate Analytics, conta o número médio de vezes que os artigos de uma revista foram citados por outros em publicações subsequentes durante um período de tempo de 2 anos.

Como novo desafio na publicação existem os servidores de preprints.

Tradicionalmente, as revistas científicas têm sido o principal meio de comunicação científica, mas nos últimos anos têm-se verificado algumas mudanças e alternativas para a publicação, como a vontade dos investigadores em biomedicina partilharem os seus manuscritos rapidamente nos servidores preprints, tornando-os imediatamente acessíveis ao público.

Esta abordagem de disseminação da investigação chegou às ciências biomédicas através do bioRxiv, em 2013, e do medRxiv lançado, em 2019, pela BMJ Publishing Group, Cold Springer Harbor e Universidade de Yale.

A maioria das editoras biomédicas convencionais, inicialmente, via os preprints como “publicação prévia” que impediria a aceitação subsequente em revistas com peer review.

Mas, atualmente, as políticas editoriais de revistas como BMJ e NEJM até apoiam esta prática, desde que o texto do preprint inclua posteriormente uma referência à versão publicada do artigo, como preconizam as recomendações do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE).

Outro tema a abordar é como fazer o melhor uso dos social media. Atualmente, é obrigatório construir uma presença online relevante e interessante para pares e outros públicos promoverem os trabalhos.

Publicar um artigo é apenas o início do processo, depois de publicar é necessário comunicar, disseminar/promover o trabalho. O primeiro passo para aumentar a hipótese do trabalho ser lido/consultado e citado é participar em online networks – é preciso ter uma presença online forte.

Como conclusão, não existe receita secreta para o sucesso – existem algumas regras (core guidance), dedicação e trabalho duro – Cherish your own work – if you do not take care, why should the journal?



Artigo publicado no Jornal do Congresso de Medicina Interna 2020 - 28 de agosto

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